É do jeito que a gente quer acreditar

Quando eu era criança, com sete ou oito anos, os pais e amigos dos pais brincavam com aquela pergunta: “o que você quer ser quando crescer?”. E eu acreditava que tinha vocação para ser palhaço de circo ou mágico. Tais fatos, faziam meus pais me presentearem, quando possível, com kits de mágica ou pinturas de palhaço. Acreditava bastante em tudo aquilo até meus dez anos.

Mas tais sonhos foram ganhando novos contornos, a adolescência foi se aproximando, e – de repente – começava a enxergar o mundo real, para fora da imaginação. Começou a surgir uma atenção “estranha” pelos corpos de meninos e homens ou, pelo menos, tal despertar chegava até a minha consciência com alguma representatividade maior. Era maior, mas não o suficiente para que eu deixasse de acreditar e preferir as férias na casa da praia com meus amiguinhos heterossexuais, meninos e meninas, para brincar de tudo quanto é coisa.

Fui me tornando adulto e desde as obrigações escolares do primário, ginásio ou colegial, a minha educação familiar (principalmente vinda do meu pai) dizia que nada era possível sem esforço. Comprei tal ideia, passei a acreditar e, totalmente ao contrário do meu irmão, eu era aquele jovem que era obrigado a me debruçar nos livros antes das provas e fazer as lições de casa para aprender alguma coisa. Algo que ficou impresso fortemente: meu irmão mais novo, e único, era aquele que só de assistir às aulas, era capaz de tirar excelentes notas. Assim, acreditava que o esforçado era eu e o talentoso era ele.

Até mesmo quando comecei a sair do armário, com 23 anos, acreditava que se não dependesse do meu esforço para fazer as pessoas ao meu redor me aceitarem como gay, eu não teria a cordialidade idealizada. Assim, no liminar da consciência e da inconsciência, me esforçava para ser aceito.

Os livros de estudante de primário, ginásio, colegial e faculdade foram perdendo espaço para uma atuação profissional na prática. Novamente, acreditava que só meu esforço me faria uma pessoa criativa, empreendedora, comunicativa e persuasiva, características que eram definitivas para voar com uma empresa própria.

Acreditei nessa ideia, que meu esforço me levaria a ser um cara criativo, empreendedor, comunicativo e persuasivo. Assim, durante muitos anos, apostando em tal maneira, muita coisa seria possível de se conquistar. Sempre vendi essa ideia aos outros pois havia chegado à vida profissional próxima da qual eu havia idealizado com 23 anos. Me esforçando.

Mas recentemente, dias antes de viajar para NYC para encontrar Meu Japinha, eu tomei um tombo. Não foi dolorido, nem triste, mas me pegou de surpresa, quase que num susto! Veio para a minha consciência, de uma maneira muito mais clara, transparente e objetiva que a minha crença/teoria do esforço estava parcialmente equivocada. Sabe quando os físicos criam teorias fantásticas e elas se valem até um terceiro chegar com uma nova prática, que desmonta a ideia institucionalizada? Pois bem, foi com 37 anos e há algumas semanas atrás, que um “pilar” que me ajudou a formar a pessoa que eu sou, trincou.

Descobri por esses dias que, particularmente, meu esforço – do dia que passei a interagir socialmente para hoje – fora apenas 50%. Claro que são os 50% necessários e fundamentais para alcançar partes dos ideias de qualquer indivíduo. Claro que é combustível essencial para chegar a novos patamares, que buscamos para as nossas próprias vidas por toda a vida. Mas o que eu descobri, embora ainda seja um pouco reticente para assumir, é que eu (e todos nós) temos aptidões inatas. E não é aquela coisa da mãe dizer que o filho é bom para isso ou bom para aquilo, quase que de maneira banal, natural e óbvia. É uma consciência de que algumas de minhas características não são conquistadas pela nobre prática do esforço. É a consciência (de mim para eu mesmo) que, REALMENTE, todos nós somos dotados de habilidades inatas que não vêm de nenhum feito extraordinário. São qualidades impressas em nosso DNA.

Essa percepção (de mim para comigo) é ainda muito nova e, assim, confusa. Estou precisando rever o “pilar do esforço” e conferi-lo uma importância de apenas 50%, quando outrora – a mim – era 110%. De qualquer forma, tudo isso muda muita coisa. Por exemplo: eu sempre acreditei que meu ex-sócio poderia se tornar um grande líder se o fizesse com esforço. Mas ele não aguentou e, eu ainda acreditando que, pelo esforço, fosse possível ele ser algo próximo de mim, como meu espelho, dei menos abertura para a sua aptidão inata de operação e lancei em suas mãos desafios que se tornaram sufocantes. Isso não é nenhum lamento ou arrependimento, já que ele ainda trabalha comigo como parceiro. Trabalhando comigo, e eu agora com essa nova consciência, consigo destinar funções a ele, que tem executado com prazer e maestria.

O mesmo para a minha futura sócia que, ela sim, tem um “Q” de empreendedorismo, criatividade, carisma e liderança.

Comecei a acreditar, com mais consciência agora, que sou dotado de aptidões inatas que não são advindas exclusivamente do esforço. Antigamente poderia ser assim: “eu mereço porque sou um cara extremamente esforçado”. Daqui pra frente pode ser algo assim: “Eu mereço porque tenho talento e uma base histórica de esforço”. Essa diferença deve mudar a minha vida…

Será que todo mundo reconhece os talentos que tem? Taí uma nova pergunta que faz TODO sentido nesse meu novo contexto. Provavelmente, eu vá identificar pessoas que se acham tão talentosas (extremas) que são arrogantes ou chatas, daquelas que se esforçam muito, muito pouco por serem “talentos incompreendidos”. Mas vá bem, eu parto de um outro sentido: do extremamente esforçado que, de repente, está levando à consciência os próprios talentos. Eu, com 37 anos, aprendendo mais coisas.

Realmente, a vida é do jeito que a gente quer acreditar, e não adiantou a minha mãe ou o bom amigo falarem. Teve que cair com força em minha consciência. E foi agora…

9 comentários Adicione o seu

  1. Adônis disse:

    Nossa MVG, seu texto serviu muito para o meu atual momento!
    Eu acreditava, ou me fazia acreditar que queria ingressar em Medicina, mas a cada dia percebo que o curso não é para mim.Terminei o ensino médio achando que meu esforço me daria a oportunidade de renunciar meu maior interesse na área de Humanas, em favor da Medicina, onde, hoje eu vejo, buscava exclusivamente a estabilidade financeira.
    Nesses últimos meses eu tenho refletido muito, e reconhecendo meu orgulho ferido por não ter ingressado logo na universidade, mesmo tendo sido desses alunos que só assistiam as aulas e tirava notas boas. Estou chegando à conclusão que eu não me esforço tanto para o vestibular de Medicina como poderia porque no fundo não é o que eu quero. Só sei que esse ano pretendo entrar em Comunicação Social, Arquitetura ou Economia, se eu conseguir vou sem medo, e se não gostar vou me dar o direito de mudar. Chega de autoengano.
    O interessante MVG, é que meus pais foram os propulsores dessa minha reavaliação ao me questionarem fortemente se eu queria mesmo fazer Medicina, e minha mãe, que sempre idealizou minha futura carreira e futura família está cada dia mais abdicando da influência dela sobre mim.Acho que isso até abre caminho para sair do armário, mais cedo do que eu esperava.

    Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Muito legal, Adônis! Vá atrás daquilo que você acredita!

      Um abraço,
      MVG

    2. Ferreira disse:

      Olá Adônis!
      Não conheço a sua historia, mas torço que você consiga fazê-lo. Também acho que o post traz uma reflexão bastante pertinente para essa dimensão da vida profissional/realização pessoal.

  2. lebeadle disse:

    Sobre isso de coisas inatas penso em Santo Agostinho quando fala da Graça, no sentido de que muitas coisas em nossa vida se dão em outra esfera que não a da Vontade/Esforço. Acho que é semelhante a um ‘insight’ da teoria psicanalítica, quando o sujeito após muito falar sobre uma questão e ter vivências em torno dela (esforço), tem uma percepção total acerca dela e muda seu modo de perceber/acreditar a realidade. A mentalidade burguesa (trabalho como valor supremo) e utilitarista (a razão de ser de determinada coisa é a felicidade/bem-estar que proporciona) acaba se firmando em nós nessa cultura de capitalismo e esquecemos do ócio criativo, do direito ao lazer e dessas coisas que fazem brotar espontaneamente o inconsciente, a criatividade, a amizade, o afeto, como o lírio do campo que não tece e nem fia mas se adorna formosamente.

  3. eas disse:

    Seus 2 últimos post estão bem interligados. Ideais, talentos, DNA são componentes que devemos seguir pois são a extensão da nossa alma . São nossa essência, a bússola para traçar nosso caminho e fazermos nossas escolhas .

    Parabéns a vc por instigar esses valores mais profundos em seus leitores !!
    Mais uma vez salvando o dia de muitos rsrsrs

    1. minhavidagay disse:

      Puxa vida!
      Obrigado, eas. Agradecido pelo reconhecimento :)

      Um abraço,
      MVG

    2. minhavidagay disse:

      Aliás, eas, esse post me ajudou a colocar uma realidade que tenho vivenciado agora, pasme, com 37 anos… de que não foi só de esforço que tive as minhas conquistas… tal consciência mexe bastante…

  4. Eduardo H disse:

    Ótimo Post! Fui agraciado por ter descoberto logo cedo o meu talento, isso faz toda a diferença para saber focar os esforços em algo certeiro. (Achei o Blog hoje e já gostei muito!!! )

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Eduardo H! E seja benvindo! :)

      Um abraço,
      MVG

Deixe uma resposta