Papa Francisco e a questão LGBT


Por Augusto Silva – Colaborar do MVG

Minha primeira reação ao comunicado emitido na reunião do papa com os cardeais sobre o novo direcionamento da igreja quanto a comunidade LGBT foi puramente emocional e baseado em experiências pessoais não tão boas. Pensei comigo: não precisamos da sua piedade, do seu acolhimento, das suas migalhas. Não precisamos do seu consentimento para expressar quem somos e para vivermos o que quisermos, não precisamos que vocês nos dêem carta branca para qualquer coisa.

Na verdade, não discordo disso, mas decidi analisar a situação por outro ângulo. Decidi pensar no cara ou na garota que se culpa todo dia por ouvir que o que faz é uma “aberração”, uma “blasfêmia”, que não é o que “deus quer para ela”. Decidi levar em conta a abrangente influência política e social – além das óbvias funções de manutenção da moral – da igreja, que mesmo no século XXI mobiliza, molda e guia boa parte dos valores da população mundial referente a diversos assuntos. Decidi pensar em como as pessoas que, diferente de mim, escolheram uma igreja, uma doutrina e uma fé para suas vidas, que tem isso como uma base sólida e sentem-se mais completas, mais felizes e melhores com isso. Decidi levar em consideração o discurso de bondade e amor incondicional que se difere tanto das atitudes de certos grupos de dentro da igreja, e de como isso tem um impacto na vida dessas pessoas, na minha e na sua. Decidi levar a cabo a ideia de que uma igreja deve levar as pessoas a serem melhores, mais humanas e compassivas.

E então, pude perceber a grandeza, a ousadia e humildade que esse comunicado transmite. Grandeza de espírito, por reconhecer que todos temos qualidades e virtudes, e que precisamos ser vistos como um todo, e não apenas por rótulos que referem-se a uma única parte do nosso ser. Ousadia por tocar em um assunto tão polêmico dentro de uma instituição milenar, baseada em valores e dogmas muitas vezes distorcidos e mal interpretados. Humildade por reconhecer a postura errônea e – apesar de não desculpar-se – propor um novo ponto de vista sobre a questão. Um ponto de vista razoável, talvez não ideal, mas que denota, sobretudo, a abertura e renovação que a igreja tão encarecidamente necessita para lidar com as questões do mundo globalizado. Pessoalmente, não espero casar numa igreja com sinos tocando e de véu e grinalda (até porque isso não combina comigo, sou mais da saia de couro e do salto vermelho, ALOKA – brincadeirinha), e não poderia esperar uma postura mais politicamente correta que essa, ao menos não nesse momento. Acho importante, também, deixar bem claro que a essência dos dogmas não mudou em nada, que ser homossexual ainda não é aceito com naturalidade, que ainda não há uma mobilização quanto ao reconhecimento de uma família diferente do tradicional. Mas mudaram-se posturas, e isso é um progresso louvável se levarmos em conta o caráter autônomo da igreja e de qualquer outra instituição (como o próprio estado) em definir o que considera ideal ou não.

Espero, realmente, que os homossexuais cristãos possam sentir-se aceitos, acolhidos e amparados por esse Deus que deveria ser amor, e não julgamento; compaixão, e não condenação. Espero que as pessoas que se dizem católicas – principalmente aquelas que optaram por seguirem uma linha mais conservadora – se conectem com tudo o que está acontecendo e pensem no que foi dito como uma recomendação dada não por algum ativista da comunidade LGBT, por um psicólogo ou sociólogo, mas por seu próprio líder – com apoio e consentimento das demais autoridades eclesiásticas, diga-se de passagem. Estou plenamente convencido de que a solução é dialogar e que o embate, muitas vezes, é inevitável. Porém, quando existe respeito, quando esse respeito é recíproco e quando ambos os lados são capazes de ceder, as coisas caminham para uma real mudança. E, que fique claro, este é apenas um passo nesse caminho tortuoso que é ser – além de tudo que já somos, com qualidades e defeitos – um LGBT. E é por isso que admiro a postura do Papa Francisco. Porque, primeiro, o caminho se faz caminhando. E, segundo, por sua atitude que, como personalidade global, como espelho para muitas pessoas, e como líder da igreja possibilita o debate sobre a questão LGBT e incentiva o respeito e a tolerância – quesitos que são básicos para a boa convivência e harmonia de toda uma sociedade.

—————————

Nota do MVG: em convergência com o jeito de enxergar o mundo, as diferenças e a diversidade, está aí o texto do colaborador Augusto Silva, no Blog MVG. Se realmente o Papa Francisco levará essa abertura ideológica para um plano mais prático, ainda é difícil de dizer pois, como bem comentou Augusto, estamos nos referindo a uma estrutura secular e conservadora. Mas, a mudança de postura, pode apontar para novas aproximações.

1 comentário Adicione o seu

  1. Ferreira disse:

    Muito interessante o texto do Augusto Silva. Sou católico e em alguns momentos pensei que seria impossível vivenciar essa religiosidade e me realizar enquanto pessoa gay, depois busquei ressignificar a religião em minha vida, percebendo que não havia incompatibilidade e que Deus não mim censurava por ser quem sou. Contudo, o mais animador e que este Papa mostrou disposição para sair do lugar-comum ao promover a abertura para esse diálogo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s