Porque conflitos talvez sejam necessários

Como uma continuação ao post anterior, já com alguns insights em mente, depois de um dia agitado de trabalho, li algo do Jean Wyllys que converge com um pensamento que me veio até mesmo antes do horário político desse ano.

O trecho do texto de JW é esse: “Precisamos unir o Brasil, sim. Mas essa união não se fará com retóricas hipócritas, muito menos evitando os conflitos que muitas vezes são necessários para acabar com a própria divisão“.

Antes da turbulência das Eleições 2014 começar, antes mesmo do acidente de Eduardo Campos – em conversa no almoço -, minha mãe sugeriu uma esperança de que um “enviado divino”, que não dos partidos conhecidos e desgastados, viesse para cativar e conquistar a esmagadora maioria dos brasileiros nesse ano. Logo comentei a ela:

– Mãe, muito romântico e bonito a sua idea. Mas eu penso diferente: me diga qual país, que consideramos desenvolvido por intermédio de uma sociedade organizada e próspera, não sofreu um profundo trauma em sua história para que adquirisse um senso de coletividade e civilidade? Até mesmo os EUA, que formam uma organização social mais moderna, teve um profundo conflito civil no século XIX, encabeçado pelo Lincoln, para que Norte e Sul chegassem numa convergência e avançassem coletivamente.

Estou sugerindo um mal necessário, inerente à própria evolução humana, que está acima de partidos, orientações sexuais, raças e credos. Todas essas divergências que estamos presenciando hoje, e que intitulamos de “discurso de ódio”, no meu ponto de vista, são os primeiros sinais de uma necessidade de amadurecimento mais profundo. Amadurecimento como sociedade organizada que, pela primeira vez na história do país (que não tem muito mais que 500 anos), está aprendendo de maneira necessariamente dramática, conceitos básicos sobre o que é o respeito entre o público e o privado e o sentido maior de pátria e coletividade, lembrando que – como sempre digo – maturidade não vem com o prazer de tirar um cochilo, de tomar um sorvete ou ir ao cinema.

Será que o senso de união, as vezes, não precisa seguir por caminhos tortuosos para se conceber como tal? Eu arrisco a dizer que sim.

Como alguns leitores sabem, estive lá em NYC, de frente ao pub “Stonewall Inn”, palco de conflitos intensos entre LGBT’s e sociedade novaiorquina. Tais contextos de violência, prisões e exercício paupável de preconceito foram fundamentais para uma conscientização ideal, que reverberou no mundo todo e que, inclusive, proporciona hoje aos gays brasileiros um ambiente mais inclusivo nas grandes capitais locais.

Nessa mesma linha de raciocínio, o que dizer do Japão que, após a Segunda Guerra Mundial, em décadas, se tornou uma das referências “supremas” de respeito ao público e privado, educação e espírito colaborativo. Recentemente, em apenas doze meses reconstruíram uma cidade depois do tsunami. Ok, posso parecer puxar sardinha para a minha orientalidade (rs). Então vamos a outro exemplo:

A Europa, “berço do mundo”, passou por dezenas de conflitos entre gregos, espartanos, romanos, dos tempos mais remotos, aos conflitos mais modernos liderados pelo tão conhecido “bigodinho”.

Em todos esses contextos, os cidadãos passaram por uma ou mais provações de senso coletivo, de pátria e nacionalidade. Quando é que o brasileiro teve que se provar, a si, o poder de ser orgulhosamente brasileiro? A resposta é uma: nunca até hoje, a não ser no futebol.

Dentre tantas diferenças que aqui se estabelecem, a que deturpa a nossa convivência desde a formação do país, é a de classes, cultivada desde a época da escravidão (esta, que o Lincoln batalhou, no século XIX, por antever que tal modelo condicionaria os EUA à estagnação). É como digo: aqui no Brasil, ter um iPhone, um Honda CRV e poder frequentar restaurantes no Jardins, representa uma diferenciação. Quem pode se sente superior, quem não pode se sente inferioziado. E o cerne do problema está aí, nesse sentimento de superioridade e inferiorização.

Ao mesmo tempo, políticos se fazem de deuses e eleitores compram tal imagem porque, assim como a minha mãe, muitos brasileiros esperam por um novo Jesus encarnando na Terra e esperando que o local escolhido seja o Brasil. Tais políticos vendem propostas sustentadas na polaridade das classes e, sem querer (ou querendo), jogam os grupos uns contra os outros. E não se engane: os ricos e os pobres são ludibriados, ninguém escapa dessa caixinha.

Mas será que chegamos nos conflitos mais contundentes para nos libertar, inclusive, dessas correntes, tal qual fizeram as sociedades que consideramos, hoje, esclarecidas?

Para mim, “mais amor” é definitivo sim como sugeri no post anterior e tal mote funciona muito bem para aqueles que não se deixam levar por essa hipnoze das classes e dos endeusamentos. Mas para uma grande maioria, que apresenta hoje uma raiva evidente pelo outro, me parece que o mal necessário que é o conflito, se manifestará ainda de muitas formas para, assim, eclodir a unidade.

Fora isso, temos ainda uma necessidade de administrar a “empresa” que é o país, mantendo a economia estável, alinhada às realidades globais. Fora isso, há a evidente corrupção, de todos os lados, que obviamente deve ser combatida. Mas de fato, no ar que cada brasileiro respira todos os dias, é a divergência de classes que salta aos nossos olhos. É esse ódio que até então estava enrustido, advindo das desigualdades, que está se manifestando. Tal situação é indigesta há muito, muito tempo e parece que, agora, estamos começando a vomitar.

Se estou sendo ineditamente pessimista? Se equivoca quem pensa que conflitos sempre levam ao mal. Eu mesmo, se cheguei em algum lugar que serve de projeção de ideais aos leitores, tive que brigar bastante.

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