As diferentes formas de lidar com o preconceito


O preconceito está aí, transpirando pelos nossos poros e pelos poros do outro a todo momento. Enquanto escrevo esse texto, alguém está vivendo uma situação de bullying na escola ou recebendo uma piadinha de mal gosto por ser gordo, magro demais, por ser rico, por ser pobre ou por fazer parte de determinada raça. Pra variar, estamos encaixotando pessoas em qualidades depreciativas a todo momento e, principalmente, quando somos imaturos!

Quem é gay entende com clareza o que estou falando. Somos, normalmente, alvos óbvios da manifestação do preconceito que vem de diversas formas, desde as maneiras agressivas, que infringem o espaço privado do outro, e que chamamos de homofobia, até em situações mais banais da piada. Tem gente que releva a piada, tem gente que não.

Ontem mesmo, uma parte do grupo derrotado, desbancou a condenar os nordestinos pela perda. Generalização tola, emocional e apelativa. Exercício do preconceito e do tal ódio. Mas, ao mesmo tempo, dias antes da abertura das urnas, um grupelho de 200 pessoas, do “time oposto”, num puro ato de vandalismo e preconceito, atacou uma editora cuja revista (apenas uma delas em meio a tantas outras) trouxe uma suposta denúncia a respeito de um dos candidatos. Invadiram o espaço privado, picharam, sujaram e, numa postura generalista, atuaram com a agressividade sem considerar, moderadamente, que tal editora não faz apenas tal revista.

Tenho certeza que, se o tucano tivesse ganhado, a apelação viria nos mesmos formatos.

Comentei na minha timeline assim:

“Acho ilegítimo um grupo atacar o privado, como aconteceu na Editora Abril. É como homofóbicos agredirem gays, como religiosos fervorosos enfiarem a doutrina goela abaixo de terceiros ou torcedores no estádio mastigarem a orelha dos adversários. Eu, pessoalmente, não sinto entusiasmo em nada disso”.

Tive curtidas e comentários positivos de petistas, tucanos, heterossexuais e gays. Mas no afã do radicalismo, tanto tais petralhas, como os tais coxinhas contra nordestinos, usam do coração e esquecem que tem a cabeça. Não é o mesmo do homofóbico que, irracionalmente, invade o limite do outro e o agride? Pois bem, um peso e uma medida, oras!

Tenho uma cliente, a tal “playboy tucana” (mais um rótulo) que entrou no luto com a vitória da Dilma. Ela é cliente há mais de 6 anos. Quando a conheci, pela primeira vez e antes do contato pessoal, falamos bastante por telefone. Ela dizia estar interessada no meu trabalho, me parabenizava pela clareza das informações passadas e pelo trabalho de venda que, ela também como vendedora, conseguia qualificar.

Agendamos um encontro e cheguei até uma de suas lojas quando, para a minha surpresa, ela exclamou:

– Não acredito que você é japonês! Gente, como um japonês pode ser comunicativo, vendedor e, ainda por cima, boa pinta?!

Naquele instante, levado pelo meu coração, orgulho e/ou complexo de inferioridade, poderia virar as costas, soltar um bem falado “vai tomar no meio do olho do seu cú” e sair andando. Inesperadamente, aquela mulher que tinha potencial para ser minha cliente, generalizava a figura oriental numa caixinha do preconceito. Naqueles centésimos de segundo (e acho que aí que as pessoas se dividem na maneira de reagir) pensei comigo: “vou mudar a cabeça dessa mulher e serei ainda seu parceiro. Ela vai aprender a crescer junto com esse tal japonês”.

Fiz a apresentação, alinhamos nossos interesses e os meses foram passando. Fui descobrindo que estava a frente de uma guerreira e que, apesar de ter vindo de uma família mais abastada, teve que ralar os tubos para estruturar sua empresa e aumentar o número de lojas. Era alguém profissionalmente talentosa e altamente esforçada, de trocar e-mails e mensagens comigo nos finais de semana, quando necessário.

Mas durante os anos, tal mulher não deixou de lançar a mim outras pérolas:

– Voltei de Nova Iorque e estou indignada.

– Com o quê?

– Aí, essa classe C fica levando travesseiro para dentro do avião! Fazem a maior baderna, não tem educação! Pedi para a aeromoça para mudar de lugar.

– Ah, sei…

Outra vez, veio assim:

– Eu atuo na área de moda e os gays adoram esse segmento. Mas vou te dizer: é dificílimo trabalhar com gay. Já tentei e não dá. Eles são melindrosos e acham que sabem mais do que a gente!

Ela até hoje não sabe que, eu, seu parceiro há mais de 6 anos, sou gay. Vivo dando risadas quando lembro dessa história.

A grande maioria das pessoas deve pensar: “como o MVG atura essa mulher? Se fosse eu, blá, blá, blá”. E eu respondo o seguinte: claro que não é pelo dinheiro. Mas convivendo por tanto tempo, ampliando seu negócio com as minhas ideias e os trabalhos vindos da minha empresa, ela tirou o oriental da caixinha que, há anos atrás, colocava. Minha cliente, obrigatoriamente, revê seus conceitos (ou preconceitos) sem que eu tenha que confrontá-la ou assumir um papel moralista. Assim, por esses anos, deixei meu coração mais quieto e usei a minha cabeça. Hoje, em reuniões, tenho admiração e respeito.

Se isso é uma capacidade de japonês? (rs) É, não sei… mas não é de latino! A espanhola é ela! :P #sqn!

O que eu gosto mesmo é sair das posturas reacionárias, invasivas e infantis (para não ser o mesmo que a maioria), o que não quer dizer falta de enfrentamento.

8 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Nossa MVG, belo post. Eu votei na Dilma porque mesmo com os escândalos em seu governo, acho que será menos pior que o Aécio. Essa sua cliente resume bem como é o Aécio e a maioria de seus eleitores. A maioria, porque não acho que todos que votaram nele pensam dessa forma, ele também ganhou muitos votos de quem quer mudança. Não acho certo os militantes pró-PT depredarem a Abril, apesar de ser estranho uma matéria desse calibre sair 2 dias antes da eleição e a Veja ser tendenciosa. Quando sua cliente descobrir que você é gay conte a história para a gente.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Nick!
      Pretendo não contar a ela que sou gay porque, a mim, a minha intimidade não precisa ser apresentada no âmbito do trabalho! :)

      Abraço,
      MVG

  2. Yuri disse:

    Voce falou tanto de segregação e xenofobia e no fim se valeu dos mesmos argumentos (vazios por hora) pra “classificar” vc e sua parceira de trabalho.

    Nada pior do que gente que nega as suas origens … voce é BRASILEIRO ou japonês? ou tem “descendência” nipônica! prq pelo seu tom da-se a entender que nasceu do outro lado do mundo! Da mesma forma que a “espanhola”

    Nojo desse povinho que acha que ter “descendência” ou sobre nome gringo os faz diferentes… percebe a sua contradição?

    1. minhavidagay disse:

      Sinal que vc nao entendeu nada do que escrevi… Se vc nao foi capaz de compreender a ironia, quem sou eu para querer arrancar esse nojo de vc? Afinal, vc já está enojado!

  3. lebeadle disse:

    Acredito nisso também, não há só uma forma de vencer o preconceito, deve-se ter em mente o contexto em que se age. E no fundo essa mulher parece ser gente boa. Sabedorias do dia-a-dia que só tem quem vive…

  4. Tem certos acontecimentos que não há a necessidade de você tomar uma atitude revolucionária. As vezes ser tolerante com o preconceito dos outros ajuda na convivência (Afinal, somos todos preconceituosos), mas é óbvio que se deve por limites.

    Não sou oriental, então vou usar minha sexualidade para ditar:
    Se fosse um gay que trabalhasse com moda, e fosse totalmente contrário ao que ela generalizou, daria umas boas risadas quando ela provavelmente fosse dizer:
    “Não acredito que você é gay! Gente,como um gay pode ser compreensível e fácil de trabalhar?”
    E ainda diria: Pois é, as pessoas nos surpreendem.

    Muitas vezes não há a necessidade de se autoafirmar para quebrar certo preconceito de alguém, pois é uma coisa que acontece naturalmente.
    As outras mínimas vezes não. Tem-se momentos em que você deve chegar e falar: Olha, eu sou assim e não me identifico com a sua generalização. Isso deve acontecer principalmente quando o preconceito do outro deixa de ser saudável e passa a ser prejudicial ao alvo (desrespeito, violência, entre outros).

    Sou nordestino, classe média, e acabei por decidir em votar no Aécio (mesmo que acredite que o país ainda não esteja tão estável sócio e economicamente para ter um governo de direita).
    Preferia mesmo era ter votado em Branco :p.

    Abraços do CR!!

  5. minhavidagay disse:

    Valeu pela reaparição, CR! ;)

  6. Rafael disse:

    Eu sempre fui hétero pelo menos acho que sou, mas eu comecei a gostar muito de um amigo… gostar de verdade! Ele me contou que é gay e eu não mudei minha maneira de ser amigo dele, nós fomos nos aproximando tanto até que eu comecei a sentir algo por ele… ele nenhum jeito, ele não é efeminado nem tem a voz fina, ele é lindo *-* … e se eu tivesse que dar para alguém, seria pra ele.. Eu to MUITO CONFUSO, me ajudem por favor! Ele parece gostar de mim, temos muita afinidade… Ele mudou de cidade mas vem sempre pra cá, viramos as madrugadas conversando… Eu realmente preciso de ajuda, estou completamente confuso =z

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