Razão, emoção e intuição


Muitas vezes nos falta equilíbrio, apesar que o caos – dentro da gente – é até um estado necessário para, justamente, aprendermos a dar valor para a moderação. Algumas particularidades da vida gay, como por exemplo, o medo da rejeição, a homofobia e a não aceitação por não seguirmos os modelos padrões esperados, costumam, muitas vezes, a nos deixar armados, num estado de defensiva como se fosse um gatilho, como se numa primeira reação, opinião ou atitude alheia fora do esperado, tivéssemos que reagir de maneira enérgica. É como se opiniões contrárias, que não nos garantam um alto nível de conforto ou segurança, fossem motivos suficientes para “nos tirar do sério”.

Tem reparado como tem sido fácil as pessoas “saírem do sério”? Andamos a flor da pele, descontrolados e é como se o nosso discurso radical – regado à emoção – legitimasse esse nosso estado de descontrole. Como se pudesse legimitar nosso julgamento, nossa crítica e nossa ofensa. Mas, quem vê de fora e mantém algum equilíbrio com a própria vida, nota o quanto as pessoas andam cegas.

Tenho 37 anos, sou gay, levo o Blog MVG há mais de 3 anos (uma empresa há mais de 13) e outras duas, uma com quatro anos e outra com sete, servindo como consultor de gestão. Posso dizer que 99% de todas as pessoas que estão envolvidas nesses projetos, ex-sócios, parceiros e amigos, sabem da minha homossexualidade. Não que o fato deles saberem, hoje, faça uma real diferença. Mas já fez, quando eu era mais novo e precisava autoafirmar a minha sexualidade para que os outros autoafirmassem a receptividade ao fato.

Com esses mesmos 37 anos, gay, com namoros, casamento, compreensão de pais, irmão e cunhada (e muito em breve uma sobrinha!), tenho notado algo bastante significativo para a minha vida que é a boa equação entre razão, emoção e intuição. Talvez, para muitos leitores jovens que passam por aqui, tais assuntos estejam bem longe de suas expectativas primordiais. Jovem quer trabalho, alçar algum vôo profissional, capitalizar, encontrar um par, e, normalmente, ser compreendido e enaltecido por algum feito grandioso (que ainda não veio). De qualquer forma, acho que o assunto desse post tem bastante a ver com “chegar em algum lugar” e fica aqui a referência para quem não achar que tudo isso é baboseira.

Sobre razão, a maioria entende. Razão é consciente, equação, planejamento, ordem e organização. Muitos compreendem a ideia, o que não quer dizer que executem! (rs). Razão é o ato de pensar, controlar, elaborar, raciocinar, quase que o oposto simétrico de sentir. Gays enrustidos, normalmente, suprimem a emoção do desejo por outro homem por intermédio da razão.

O problema maior, hoje em dia, é a mistura que o povo faz entre emoção e intuição. Emoção, em nossa latinidade, tem a ver com sentimentalidades, sentimentos, intensidades. A maioria das pessoas que se deixa levar pelo coração, acredita tanto nesse caminho que, as vezes, exageram. De fato, o coração se engana e sinto em dizer. Quem não se engana é a intuição.

Quer saber um engano do coração? É fácil: fulano sente com todas as forças a importância da criminalização da homofobia. Se enraivece em saber sobre as atrocidades, dos ataques aos gays, das agressões, das mortes. Pega a barbárie com tanta força, com tanta emoção, que é como se estivesse acontecendo com ele. Mas, as vezes, chega a extremos tão altos que, se por ventura alguém questione a importância da criminalização, ou sugira a necessidade de regras claras para a aplicação de tal lei, ataca esse outro, julga, leva para o pessoal e quase o condena. Chega com certo ódio mesmo e, no final, de tanto coração e engano, projeta sua fobia (que, do latim, significa “medo”) e critica o outro vorazmente, na mesma medida de um impulso fóbico.

Quer outro engano do coração? A paixão. A paixão é cega, no sentido de colocar a pessoa pela qual estamos apaixonados no altar da perfeição. Esquecemos que o outro é humano, tem defeitos, desajustes e questões pessoais que não o fazem nem mais, nem menos que um humano. Mas nosso coração, por intermédio da paixão, acha que o outro é tão perfeito que nos afasta da razão.

Estou assumindo aqui que, razão ou emoção exacerbadas, assim como qualquer coisa que vem em exagero, nos deixa no polo norte, abaixo de zero, ou dentro de um vulcão, respectivamente. Em ambos casos “morremos”.

Agora, para explicar a intuição, ou melhor, para materializar tal palavra com um exemplo fácil – quase bobo -, basta lembrar do “sensor” do Homem-Aranha, personagem que intui que algo bom ou ruim vai acontecer em segundos antes de se realizar. A intuição é como se “viesse de fora”, é como um “estalo”, uma onda de significados que nos atravessa em cinco segundos e que, se a gente não estiver aberto a ela, deixa passar e perde as melhores das oportunidades.

Em linhas gerais, razão está relacionada à matéria, emoção ao sentimento e intuição à espiritualidade.

Podem ter certeza que todos nós temos dessas três qualidades. Mas, quando racionais demais ou exageradamente envolvidos emocionalmente com algo, costumamos a cegar. Perdemos dezenas, centenas ou milhares de oportunidades de sermos conduzidos pela intuição – que certamente daria fluidez e naturalidade aos caminhos -, porque estamos fixos, duros demais com as nossas convicções, que florescem da razão ou da emoção.

Sabemos ser racionais e nos achamos muito bons com a emoção. Mas a intuição, essa tal relacionada à figura feminina, está ainda muito em desuso nos homens, incluindo os gays.

2 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Concordo totalmente com este texto. Disse tudo o que penso. É tal da emoção destrutiva, que foi muito presente durante as eleições desse ano, infelizmente.

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