Machismo e Feminismo… preservamos essa dualidade

Meu ex-sócio, heterossexual, apesar ser um pouco egocêntrico e até mesmo mimadinho perante suas paqueras – sugerindo alguma nuance de machismo em porções de suas atitudes -, nunca teve grandes objeções em ter convivido com um gay, no caso eu, há mais de 13 anos.

Quando o conheci ele tinha apenas 16 e eu 23, época que meu “came out” e minha empresa iniciavam, ao mesmo tempo.

Almoçamos essa semana para alinhar assuntos de um novo projeto, da “Loja do MVG” que sairá em breve, tendo ele como parceiro de desenvolvimento. Durante a refeição ele lança um assunto de sua vida pessoal:

– A Virgínia, lembra? Ela está retomando contato. A gente deve assistir um torneio de UFC juntos.

– Verdade?! Depois de tudo aquilo que vocês passaram – comentei com estranheza.

A Virgínia foi sua ex-namorada. Meu ex-sócio a traiu em determinado contexto, ela soube, botou ele na parede e terminaram daquela maneira explosiva, cheia de mágoas, dissabores e intensidades. Naquele contexto, lembro que sua ex havia tomado determinadas atitudes e certas posturas que muito tinham me agradado. Sou bastante contra ao ato da traição, embora seja “algo” humano, e deixo meu entendimento sobre tal ato de maneira amplamente argumentada em alguns posts pelo Blog. Como amigo, sempre aconselhei meu ex-sócio para sair desse modelo comportamental, de privilégios e abusos em relação as meninas que conhecia, independentemente se vindo do machismo ou não, e simplesmente avesso a pura sacanagem. Mas quem bem sabe, quando os assuntos envolvem o ego (seja do masculino ou feminino), nem sempre mudar é fácil.

A Virgínia, por meio das histórias contadas pelo meu amigo e pelo breve contato nas redes sociais, sempre mostrou ser uma mulher de personalidade, atitude e pró-atividade na vida. O feminismo, embora indireto e sem a entediante bandeira do ativismo, era uma manifestação natural, fato que – inclusive – era um dos motivos de admiração e inspiração de meu amigo na época que estavam juntos.

Foi no almoço de ontem, com ele, que me surpreendi: desde o rompimento, sua ex havia ficado com uma mala do meu amigo que, provavelmente, ficaria com ela para sempre, visto o término traumático. Já era algo que meu ex-sócio havia tomado como perdido. Mas os meses se passaram e, de maneira inesperada, a moça retomou contato com ele. Morando longe de São Paulo, havia despachado o objeto endereçado à casa de uma amiga e comentou que ele pegasse.

Me ex-sócio foi retirar a mala, que na verdade era de sua mãe, e percebeu que dentro haviam objetos. Enquanto ele me contava essa parte da história, logo debochei mentalmente: “deve ser, no mínimo, uma bomba legítima!”.

Mas não. Para a minha surpresa e um sentimento de disparate, a menina havia deixado dentro da mala pertences pessoais recentes, alguns deles que meu amigo já tinha notado por fotos nas redes sociais.

Logo a minha intuição traduziu: “ela está jogando milho, de novo, para o galinha!”.

————————————

Recentemente houve certo debate, no limite dos julgamentos improdutivos, quando alguns leitores contestaram a forma que tratei do feminismo num dos posts do Facebook do MVG. Como se eu tivesse que ter certa “educação” pela maneira que eu tratava o assunto, ou como se eu estivesse desrespeitando o movimento. De fato, naquele post em questão, tinha apenas um sentido: “Nem todo homem gay se identifica com o feminismo. Mesmo porque, algumas militantes são tão radicais que se fazem machistas”. Meia dúzia de seguidores interpretaram errado, ou talvez, interpretaram como a sua postura militante, e não gostaram.

No final, fora aqueles extremistas que fatalmente apelaram para o julgamento pessoal (a mim), como se fossem robozinhos óbvios de ação e reação do “ser fanático”, o post foi altamente curtido, comentado, compartilhado e, mais importante, renderam boas discussões conceituais e contextuais. Porque, ainda, reintero: pra gente ser gay não temos que ter obrigação de simpatia pelo movimento feminista. Assim como gay não precisa ser necessariamente petista. Cada conceito em seu lugar e isso se chama, no mínimo, lucidez.

Daí que, agora, acho interessante fazer uma intersecção entre a Virgínia e algumas ideologias do feminismo. A moça sempre foi referência de conduta exemplar de mulher, prática, atitudinal, inteligente, profissional, envolvida e pró-ativa. Referências que meu ex-sócio admirava e que, em boa medida, buscava se espelhar. No passado, quando meu amigo narrava de posturas da menina, eu elogiava, comentava que me pareciam boas referências para ele absorver e que, inclusive, algumas das qualidades, ele deveria tentar também encontrar nele.

Mas tal percepção, do ponto de vista do feminismo VS. machismo, foi ao chão.

Foi ela, Virgínia, mulher forte, traída pelo meu amigo, que resolveu jogar “alpiste” para meu amigo ciscar e criar a situação de um reencontro. Ele, entendendo a subjetividade da ex, entrou em contato e, sim, dela, veio o convite de assistirem juntos o tal do UFC.

Tantas e tantas vezes foram lançados – em discursos e debates dos movimentos dos “machos” e das feministas -, o sentido de igualdade e de direitos. Tantas discussões rolam por aí, em Blogs e inclusive no Facebook do MVG.

A Virgínia, até então me parecia ser aquele exemplo do feminismo que me conquista, de que faz, toma atitude, pratica sem ficar com prosopopeias, teoremas e conversa retórica. Em sua vida, assume uma postura admirável e, por que não dizer, referenciável?

Mas na prática, nos bastidores, está lá um exemplar da “fêmea poderosa”, mesmo que traída, lançando porções de alimento para atrair de volta o macho, o mesmo que a fez desiludir e sofrer tanto. Vale “burrice” no feminismo? Ou feminismo só funciona para adjetivos que positivam a causa?

Fico pensando também, depois de tantas manifestações, se biologicamente a mulher não tem uma tendência a redenção ao homem.

Meu amigo, diante da minha estranheza perante a postura da moça, comentou:

– Então… mas acho que ela me perdoou e isso não é bom, Flávio?

Logo respondi:

– Sim, ela te perdoou. Mas seria bom se ela tivesse te perdoado entregando APENAS a mala. Seria educado, fino. Mas apesar de tudo, ela ainda quer você, o “macho”, deixando essas “lembranças”! Convenhamos… você nunca a amou e ela sabe disso. Talvez, ela mereça o “traste” que você é!

RISOS GERAIS.

5 comentários Adicione o seu

  1. Caetano disse:

    Ainda bem que voces sao socios a bastante tempo, pois tu foi bem sincero com ele né? Rs :D

    Mas MVG eu acho o seguinte: eu nao vejo uma regressao da parte dela, talvez ela só queira curtir, vai que ele é bom de cama ou tenha outras qualidades? Talvez esteja só sendo oportunista sei lá….cosmopolitana!
    Eu tambem concordo contigo com relação a essa tendencia feminina sobre a retomada, ate porque elas sempre buscam confiança e segurança e isso é mais facil de encontrar em alguem que voce ja conhece, fora que elas tao sempre cedendo….vai que ver que ela esperou e ele nao ligou.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caetano!
      Sinceridade é o que inclusive faz a gente ter uma amizade por tantos anos!

      Torço para que ela consiga ser a amigona do meu ex-sócio, que mantenha uma amizade colorida e que seja feliz. MAS, o que intuo é que ela ainda idealiza meu amigo e o coloca num pedestal…

      1. Caetano disse:

        Mulheres…..sofrem porque os caras sao canalhas ou porque buscam esse “sofrimento-prazeroso”? Eis a questão!

  2. Desinteressado disse:

    MVG, que mundo binário vivemos, hein? Acho que falta mais um pouquinho de leitura para compreensão do que é machismo, feminismo e privilégios. Primeiro, começando pelo nome do tópico, penso que foi uma escolha equivocada. Machismo x Feminismo não é uma mera dualidade, uma briga boba de sexos. Machismo é pura opressão e o Feminismo surge como resistência da mulher numa sociedade desigual. E nesse sentido, pedir para preservar machismo, é pedir para preservar opressão contra as mulheres e porque não dizer contra os gays também, já que é o machismo que alimenta a homofobia. Segundo, o feminismo, assim como todo movimento não é unânime, consiste de várias correntes e vários modelos, que não cabe nem discutir aqui. Mas uma das características principais do feminismo é o protagonismo da mulher. E, nesse caso específico do seu amigo, penso que a Vírginia foi mais pró-ativa na situação, já que foi ela quem foi atrás e escolheu dar uma “segunda chance” ou pelo menos uma reaproximação com ele. O que a motivou a fazer isso, não é você ou muito menos eu que vai saber responder. Mas afirmar que ela voltou porque é “fraca” e precisa do “macho” é superficial.

    1. minhavidagay disse:

      Bom dia, Desinteressado!
      Independentemente da corrente, a submissão é uma das temáticas macro do feminismo.

      Tantas pessoas no mundo, para quê retomar contato justamente com aquele que a magoou? A mim, isso tem um nome: falta de amor próprio.

      Sobre os motivos dela retomar contato, vou acabar sabendo cedo ou tarde. Mas minha intuição não costuma falhar.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.