Abra a sua mente


Brevemente, uma sequência de posts citou o EA, leitor do Blog MVG, pai e marido. A natureza de seu caso, por ser um gay que viveu até hoje a “cartilha” heterossexual, trás um debate histórico entre heterossexuais e gays, das questões de caráter, fraqueza, entre outros adjetivos mais depreciativos do que acolhedores.

Acontece que esse amigo, que corajosamente se expôs minimamente, está em sua caminhada para a autoaceitação, lucidez e, arduamente, revendo diversos valores para reestabelecer uma nova vida. Não vou me prolongar muito pois esse post fecha um pouco esse tema (que deve voltar em outro momento) e que começou com o texto “Relato Gay – Marido, pai de dois filhos e gay“. Recebi hoje um e-mail do EA que diz assim:

“Bom dia…

…hoje gostaria que me permitisse chamá-lo de amigo. Uma palavra pra mim tão intensa e de um poder meio forte aqui dentro…

Posso te dizer que você seria um dos primeiros amigos realmente gay, pois não houve interesses sexuais ou outros sentimentos de quando tudo começou…

O e-mail terá duas partes. E nessa primeira vou brincar com você, como se o EA tivesse um blog e colocasse as impressões do nosso encontro nele – rs.

O que uma palavra acolhedora pode fazer por alguém…

Bom dia pessoal.

Tive um fim de semana muito intenso; fui da alegria extrema ao desespero diversas vezes. Após dois dias com esse turbilhão de sentimentos, fui presenteado por um encontro que sabia que ia ser especial – com o Flávio, gay assumido e em um relacionamento estável – namorando o seu Japinha.

Havia marcado com ele há meses, e minha intuição me pedia isso. Tudo começou quando, num momento de muita angústia, me deparei com o seu blog e contei minha história. Ele, além de me acolher, não me julgou… Foi bem comedido nas palavras e me fez sentir parte do mundo – não uma aberração da natureza – rs.

Percebi que ele era um cara bacana quando, por Whatsapp, respondia às minhas dúvidas quanto ao encontro. Me deu segurança – graças a isso, fui mandando mensagens relatando atraso no vôo e etc. Muito gentil da parte dele.

Chegando em SP, pego um táxi no aeroporto e chego ao Athenas, naquela tranquilidade de que vai acontecer coisa boa. Sem receio ou medos. Como se conhecesse aquela pessoa há anos.

E então começou nosso papo. E que papo. Consegui relatar fatos muito densos e tensos da minha vida numa leveza. Consegui rir de tudo e ainda fizemos piadas de algumas situações… Quanta surpresa: fazendo piada de algo que há meses nem conseguia acessar na minha cabeça?!

Dois assuntos me marcaram nessa conversa. Primeiro: ser gay não é só se relacionar sentimental e sexualmente com homens; é também ter amizades com pessoas que por motivos óbvios têm muito a ver com você. Como se um novo mundo estivesse sendo apresentado pra mim: existe mais que relacionamentos complicados, gente desestruturada e tal. Existem pessoas conscientes, centradas e tocando suas vidas; em relacionamentos saudáveis, sem precisar ter um “lado B” escondido.

Segundo: lidar com preconceito dentro da minha “classe” contra a minha situação. Mesmo que esteja caminhando para uma resolução, meu passado “negro” de casado-hétero (rs) irá me perseguir. Mas, como em todas as situações na vida, nem sempre haverá aprovação para tudo que fazemos. Faz parte de mim, do meu pacote, que com certeza tem coisas boas e ruins – deixando bem claro que ter sido casado foi um momento importantíssimo e rico pelo qual vivi.

Mesmo querendo que aquela conversa não acabasse, tínhamos os nossos compromissos. Pagamos a conta. E o amigo ainda me ajuda a carregar meu violão… ele não tem ideia, mas quanta gentileza em um ato tão simples… e sem interesse a não ser amizade…

Saio da conversa leve, com novos horizontes. Novos planos. Querendo ser uma pessoa melhor. Acolher como fui acolhido. Oferecer amor ao mundo como ele tem retribuído a mim desde que todo esse processo começou.’

——————————

Em relação ao post “Goiano pai de família”, tenho pensado muito no julgamento dos gays e dos héteros sobre minha situação. E digo que estou em fase de transição. Infelizmente, nessa fase não posso ficar ligado a preceitos morais, religiosos ou sociais. Estar casado ainda é minha condição – social. Mas não minha condição pessoal. Com ajuda de terapia, consegui entender isso e não me encher de culpa toda vez que fizesse algo que fosse contra a minha condição social ou minha condição pessoal.

Se traio porque vou à sauna por aqui, ou porque conheci um cara interessante na net, estou errado. Se fico quietinho dentro de casa e não faço nada – eu começa a explodir e fico ou depressivo ou ansioso, e acabo descontando nos filhos e sem querer na mulher.

Por estar vivendo tal situação de transição, tive que me abstrair de preconceitos. Isso de um cara que sempre foi “certinho”, estudioso, exemplo de conduta moral, social, etc. Tudo teve um peso; mas cada peso está na sua devida gavetinha.

As coisas estão caminhando. E quero, com a ajuda de Deus e o apoio dos meus amigos, reconstruir minha vida. Construir um relacionamento saudável assim que minha cabeça e minha condição social permitirem. E, com toda a sinceridade do mundo, não ter que desgastar minha energia tendo que manter um “lado B” ou tendo que esconder traições. Isso é um lixo, isso te desgasta, te enfraquece, te mata um pouco a cada dia.

É isso aí, Flávio. Os outros pontos já falamos no papo então não coloco aqui pra não ficar repetitivo.

Grande abraço!
Fica com Deus e se cuida”.

Assim, respondi brevemente:

Oi EA!
Sem comentários. Fico muitíssimo feliz por saber de toda essa boa vibração que rolou em nosso encontro. Até o gesto do violão foi notado! Ahahahah… veja bem, você carregava uma mala de dois meses, para uma semana! Típico de gay, ahahahah… tinha também secador de cabelo?! :P

Função MVG, checked again! ;)

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