Gays também podem ser conservadores


O conservadorismo vem da palavra conservar, manter, resguardar, proteger, permanecer num estado rígido, seguro e, porque não, confortável. Nenhum indivíduo é de todo libertário e de todo conservador, mas sempre teremos os opostos extremos, do altamente rígido, tradicional e conservador e aqueles, altamente libertários, que no meu ponto de vista tangem certa utopia. A anarquia também não é boa pois desconfigura o sentido necessário de sociedade.

A psique humana, que reside em cada um de nós, tem uma forte tendência a montar situações a nossa volta, nas quais nos sintamos seguros e confortáveis. Normalmente, tememos o novo e evitamos, ao máximo, mudanças em nossas vidas pois elas, justamente, nos tiram dessa zona de conforto.

Atuando há mais de 3 anos com o Blog MVG, em contato direto com homens e garotos vivendo diversos “níveis” de homossexualidade e homoafetividade, e agora mais recentemente com o Facebook do MVG, tenho percebido o quanto o conservadorismo está internalizado nas pessoas, principalmente naquelas que se aproximam dos 30 anos. O conservadorismo se manifesta quase que sempre de forma reativa, em tom preconceituoso, quando não radical e mal educado. Blog MVG e o Facebook não deixam de ser “laboratórios” da manifestação do comportamento humano, no caso de gays, daquelas atitudes que raramente teríamos coragem de apresentar no tête-a-tête. Pelo virtual, até terminar namoro e casamento parece ser mais fácil, o que não quer dizer digno, decente ou maduro. “Fácil”, nesse caso, é o simplista, é o se afugentar de maiores responsabilidades. É assim que, pelo menos num contexto Brasil, parecemos fazer hoje em dia.

Quando sugiro que há gays conservadores, não me refiro somente ao óbvio: aqueles que querem encontrar uma pessoa, namorar, casar e ter filhos ou cachorro. Para esse perfil, o sentido de conservação é bastante claro. Porém, a necessidade da “conservação da própria ‘espécie'” se manifesta também quando levo alguns temas que circudam o nosso cotidiano, tais como:

– A realidade de homens casados (e com filhos) que manifestam “níveis” de homossexualidade. Esses homens, sejam gays, bissexuais, g0ys, “machões”, etc. parecem ser ameaças e, de uma minoria, ruge um ímpeto de querer repudiá-los numa sensível necessidade de autopreservação. Lembrando que preservação é um ato de querer conservar algo. É como esses homens fossem “lixos”, indignos ou covardes. É como se os gays assumidos fossem vítimas frágeis e desprotegidas de tais caras;

– Por outro lado, mostrar que o homem tem um lado animalesco, primal e que chafurda nas saunas, no Autorama, com garotos de programa e etc., surge uma classe pudica, conservadora e puritana (quase que beata), que repudia qualquer ato “selvagem”, como se o sexo fosse algo leve, delicado e indolor;

– Super recorrente também é a necessidade de conservação, por um lado, dos gays masculinizados e, por outro, dos gays afeminados, oriunda de uma certa rivalidade conhecida;

– Tratar de movimentos ditos de “minorias”, como o feminismo, mostrando que tal ala também carrega militantes radicais que misturam-se aos valores LGBT, parece um ultraje, uma ofensa. É como se todo gay tivesse uma obrigação de se identidicar com o feminismo! A necessidade absoluta de conservar se manifesta um tanto mal educada!;

O fato é que o conservadorismo é uma maneira que o homem tem de resguardar valores ou materiais que lhe parecem vitais para sua própria sanidade ou existência. É um tipo de apego profundo que, se alguém sugere abstrair e rever, é como se tirasse o chão. O conservadorismo é a manifestação protetora das importâncias do ego. O conservadorismo é, por essência, egoísta. E se alguém sugere ser diferente disso, abala demais!

Somos sim, mais conservadores do que a gente vende por aí ou do que acredita. Não é a toa que tantos pais vivem crises quando saímos do armário. Eles não são tão diferentes da gente.

Não sei se o Brasil forma um contexto natural para abrirmos nossas mentes… para se ter pensamentos lúcidos, é necessário estar muito, mas muito bem resolvido.

5 comentários Adicione o seu

  1. Jorge disse:

    Deixa eu ver se eu entendi, então se um gay prefere ser só ativo ou só passivo ele está sendo conservador? Essa questão de pass/ativo se encaixa nessa questão?

    1. minhavidagay disse:

      Olha Jorge… Não me referi a esse assunto específico porque é cercado de polêmica. Mas, pessoalmente, entendo que ser ativo e passivo tem uma alta influência da heteronormatividade sim. Mas não trataria como algo conservador. Mas note também que ser ativo e ser passivo não tem nenhuma correlação com ser masculinizado ou ser afeminado.

      Importante dizer também Jorge, que tal post não é uma crítica ao conservadorismo. Preservar determinados valores é necessário sim! Mas tal post é uma crítica a quem fica pagando de descolado e, na verdade, é ao contrário!

      Abraço,
      MVG

  2. Luciana disse:

    No meu trabalho tenho um colega de 23 anos que não saiu do armário mas tem aventuras sexuais homossexuais escondidas. Eu apoio e me coloco à favor dele ser feliz assumindo, pois o mundo mudou e é necessário que os homossexuais esclarecidos se posicionem justamente pra tentar reverter o preconceito. Nas últimas semanas percebi puritanismo no colega quando numa discussão com uma evangélica aprovou que a igreja dela expulsasse um membro por ser gay e em outro dia comentou que acha o papa Francisco esquisito muito liberal!!! Ora !! O papa tem se pronunciado como nunca antes um católico entendeu que só Deua poderia julgar os gays!! Enfim dai veio essa impressão, é comum gays caretas ou isso é hipocrisia!!! ??

    1. minhavidagay disse:

      É possível sim, Luciana, existir “gays caretas” ou hipócritas.

      Trata-se, acima de tudo, de uma questão cultural, misturada no caso com uma necessidade de preservar uma imagem no ambiente profissional e/ou essa negação, sugere que esse rapaz seja altamente mal resolvido consigo.

      O ser humano, por ser rico na diversidade, é também pobre pelo mesmo fato.

  3. matheus disse:

    Desculpe meu analfabetismo funcional,mas quando vc se refere a conservadorismo e libertarismo,vc está se referindo as ideologias políticas ou simplesmente está divindo pessoas com pensamento,estilo de vida preconceituoso vs tolerante ou até” libertino”???
    Aliás,o q vc quis dizer no quinto parágrafo? N entendi direito tbm.
    Obs: sim,sou gay e tbm conservador. Pois é, é estranho. Eu sei.
    Aliás,um blog muito bom de visitar e ler

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