Muitos gays que sofrem violência


Hoje tenho reunião com meus ex-sócios da escola de música. Enquanto aguardo na recepção (cheguei mais cedo que o previsto, o trânsito de SP estava bastante tranquilo), encontro na timeline o destaque do Estadão: “A cada hora, um gay sofre violência no Brasil; denúncias crescem 460%“.

A grande maioria dos comentários no post é de pessoas que não concordam com o viés da manchete, direcionada exclusivamente para o público gay. Comentam que em minutos, crianças e mulheres também são agredidas no país.

Realmente, num país violento como o Brasil, quando mulheres, crianças, gays, pessoas que fujam de padrões estéticos, entre outros, sofrem algum tipo de agressão física e moral a todo momento, vejo certa legitimidade na contrariedade.

A dura realidade é que vivemos num país pouco civilizado. A agressão verbal ou física é bastante corriqueira e parece que, em alguma medida, estamos acostumados com esse padrão. Mas aí, dá na notícia o foco de crimes contra gays e bate aquela consciência: “mas espera aí, só gay sofre violência no Brasil? Tanta gente está sendo agredida a cada minuto!” e, sem querer, cria-se esse mal estar entre a população.

Não acho que essas pessoas concordem com a violência sofrida pelos gays. Pelo contrário, se mostram avessas a qualquer tipo de violência e, com legitimidade, se sentem injustiçadas pela mídia não denunciar de maneira clara e contundente as agressões contra outras “classes”.

Na minha opinião, como já sugeri em outros posts, tenho dúvidas sobre a legitimidade da aplicação de uma lei que criminaliza a homofobia exclusivamente. A violência, nesse país, deve ser combatida para todos os cidadãos e não para um substrato. Por esse ponto de vista, fica compreensível a sensação de privilégios aos gays que algumas pessoas alegam. De fato, violência num contexto social, deve ser reprimida. Mas estamos falando do Brasil, país que tem se mostrado tão desunido e de pontos de vistas contraditórios; país que há séculos privilegia determinados grupelhos.

Como ser ético e justo nesse contexto de tantos interesses divergentes?

Paulo Freire, educador, já havia criado o conceito da educação libertadora, essa que seria a salvação da sociedade brasileira. Uma educação que, por exemplo, daria lucidez suficiente para que um indivíduo menos privilegiado não se comparasse ao mais privilegiado, se sentindo inferiorizado em detrimento ao outro. Uma educação que conferisse clareza para um indivíduo mais endinheirado, não se sentindo superior a quem tivesse menos. Uma educação que, sim, conferisse a população um senso autêntico de respeito ao próximo, “um se colocando no lugar do outro”, sem cobiçar.

Não, não é isso que a gente ensina para as pessoas nesse país. O que a gente vem ensinando, ou aprendendo, é que a gente sempre precisa buscar por situações que nos privilegiem em detrimento a uma outra pessoa ou grupo. Estamos sempre precisando. E quem precisa não pode oferecer nada ao outro.

3 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Pode até parecer privilégio, mas veja:
    1) Violência contra mulher- lei Maria da Penha
    2) Violência contra crianças- lei menino Bernardo
    3) Racismo- crime inafiançável e imprescritível
    4) Homofobia- nada
    Como vc disse precismos mudar a educação nas escolas e em casa, mas as outras violências já tem instrumentos de proteção de direitos, mas a homofobia ainda não.

    1. minhavidagay disse:

      Entendo seu ponto, Nick. Mas de que adianta tais leis no papel se na prática, a cada minuto ou segundo, um indivíduo desses grupos sofre por violência? Falta uma fiscalização eficiente para o devido cumprimento das mesmas, da manutenção.

      E falta sim, uma educação libertária que amenize tantas diferenças que envolvem a nossa sociedade. A mudança de mentalidade se faz necessária e vale mais que uma lei no papel.

      O governo tem que fazer a sua parte, mas a sociedade o mesmo. Temos que aprender a sermos mais respeitosos com ou sem lei.

  2. Gabriel disse:

    Concordo com o Nick, não se trata de privilégio, é exatamente o contrário. Por outro lado, como você sugeriu, não basta ter leis, é preciso um conjunto de medidas agindo em sincronia. De qualquer forma, a lei é uma ferramenta importante para que possa haver fiscalização eficiente. Até isso ocorrer a homofobia fica invisível institucionalmente.

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