A homossexualidade é inata ou adquirida?


Foi num bate-papo pelo Facebook do MVG que o leitor Michael me questionou algo que a grande maioria dos gays é categórico: a gente é gay por uma condição genética ou por influência de pais e do ambiente?

O assunto foi levantado, quando apresentei uma conversa que tive com um amigo heterossexual e, tal amigo, colocou seu ponto de vista, entendendo – como educador – que as crianças tem uma forte influência dos pais e dos amigos para a construção da própria sexualidade. Assim, o leitor trouxe a questão para o Facebook.

Está aí o meu ponto de vista, conforme o respondi por lá:

Oi Michael! Eu discordo do meu amigo por generalizar. Mas não geramos grandes debates pois no dia que nos encontramos, era importante entender o ponto de vista dele sobre um assunto totalmente subjetivo. O que eu realmente acho é que a sexualidade de um indivíduo tem uma tendência maior a ser inata sim. Mas não descarto situações de uma forte influência da educação em alguns casos.

Vou te dar um exemplo: existe uma tribo aborígene na Austrália cujos pais definem o sexo do filho antes dele nascer. Se eles idealizam uma menina e nasce menino, vão tratar a criança como uma mulher. Alguns desses filhos tendem à heterossexualidade e, apesar de serem afeminados ou não, vão casar com mulheres. Outros, tendem à homossexualidade e vão casar com outros homens. Nessa tribo essa diversidade nas relações é naturalmente aceita.

O ponto é: em que nível se dá a sexualidade de uma criança? Vem da bagagem genética? Vem da educação? Não conseguiria afirmar que tem total influência apenas de um ou de outro. A subjetividade da sexualidade tem dessas coisas. O que faz um indivíduo ter desejos zoófilos, necrófilos e etc? É inata ou adquirida? Certamente não veio pela influência dos pais e questiono também se tem uma naturalidade genética!

Conheço um caso de um filho único que foi criado pela mãe como mulher e, sim, é gay e, devido a uma relação edípica, o rapaz tem sérios problemas de relacionamento. Ou melhor, o rapaz praticamente não se relaciona a não ser com a mãe.

De certa forma, Michael, enquanto a ciência não trouxer uma resposta certeira (e sinceramente acho que não trará), entendo que muitos gays assumem a ideia de que a homossexualidade é genética, uma condição, para que tenhamos uma isenção de responsabilidades. É mais garantido autoafirmar a nossa homossexualidade dizendo que “nasci assim” do que “tive alguma influência na minha educação”.

O que a gente não entendeu ainda é que sexualidade é algo do contexto subjetivo e até mesmo mutável. Veja o Laerte Coutinho, cartunista reconhecido: durante 60 anos ele se entendeu como bissexual. Sua primeira relação sexual foi com um menino. Mas depois casou, teve filho, separou, namorou rapazes, casou com mulher novamente e, depois de 60 anos (note o período de tempo) se entende hoje como transgênero.

Dizer que a homossexualidade é genética é um tipo de certeza para nos confortar, para que ninguém tente nos tirar dessa “caixinha”. Mas a generalização, em si, de que a homossexualidade é 100% genética, a mim é equivocada. É equivocada para nos proteger, nos conservar em algo que, de fato, ninguém vai nos tirar. Mas no enfrentamento, precisamos nos agarrar em alguma coisa “inquestionável”.

De maneira mais lúcida, sexualidade é questionável, no sentido de haver conversas, discussões e debates para buscar se compreender. É o que estamos fazendo aqui.

12 comentários Adicione o seu

  1. Adônis disse:

    Nossa, fazia tempo que eu não voltava a essa discussão, a última coisa que li e que me chamou atenção foi uma reportagem na Veja sobre uma pesquisa ligando a homossexualidade à epigenética. A reportagem é bem didática, mas para uma maior compreensão devíamos ler o estudo. A teoria como apresentada no texto da reportagem é bem interessante, porque não descarta a influência genética hereditária mas sim a alia à presença ou não de epimarcas, que irão controlar a manifestação de um gene ligado à sexualidade, no caso deste estudo, a testosterona.
    http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/homossexualidade-pode-ser-influenciada-pela-epigenetica
    http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/12/homossexualidade-estaria-ligada-alteracao-na-divisao-celular-diz-estudo.html

    Baseado na reportagem me parece que se essa teoria for verdadeira abre-se a possibilidade que essas epimarcas criem padrões diversos de sexualidade, inclusive entre os héteros, porque no estudo foi analisado um único gene relacionado a sexualidade, o da sensibilidade à testosterona. mas deve haver muito outros.

    Quanto a fatores sociais e culturais, eu tenho a ‘teoria’ que agem muito mais no âmbito de uma “sexualidade psicológica”, nessa categoria incluiria-se todos as nossas expectativas em relação ao envolvimento amoroso, sexual, familiar,e se restringiriam predominantemente a ela, ou seja, eu não acredito que uma criação extremamente rígida, sobre os padrões de envolvimento sexual a serem seguidos(a heteronormatividade por exemplo) conseguirá alterar o ‘instinto’ de se sentir atraído sexualmente por outra pessoa(tanto héteros criados por gays, ou gays criados por héteros). Acho que a influência de pais e amigos pode causar no máximo uma adequação forçada a uma determinada sexualidade, mas que uma hora ou outra inevitavelmente irá se render a biológica necessidade de busca de prazer naturalmente ‘programada’.
    Não consigo aceitar que aquele momento de descoberta de desejar outro do mesmo sexo seja algo fabricado por acontecimentos de criação familiar.

    De qualquer forma esse assunto deveria ser tratado como mera curiosidade e não como algo que deva ser amplamente discutido, afinal a liberdade do indivíduo deve ser máxima para fazer da sua vida o que bem entender, desde que não infrinja limites éticos, ou seja, mesmo se fosse uma escolha, em uma sociedade laica e livre como vivemos, deveria se respeitar essa escolha…

    1. minhavidagay disse:

      Perfeito comentário, Adônis!

  2. Acho que isso vai gerar discussão por um longo período ainda, afinal, temos uma certa mania de querer definir e achar uma explicação para as coisas mesmo que em algumas vezes já temos a resposta em mãos.
    Não querendo dizer que isso é algo ruim, pelo contrário, mas a questão é que, em se tratando de opinião [pois até o atual momento (e, em minha opinião, preferia que continuasse sendo assim) não existe uma explicação certa e inquestionável] o tema passa a criar vários braços e acaba não nos levando a lugar nenhum, afinal, as varianças dessas opiniões passam a ser infinitas.

    Digo que prefiro que continue não existindo uma razão lógica para tal fato por simplesmente ver que este fato induz ao pensamento crítico, induz à formação de uma opinião, o que, na minha visão, é algo extremamente positivo. Se nos oferecem a resposta prontinha e bem elaborada em uma bandeja muitas vezes acabamos por a aceitar sem nenhum questionamento, e simplesmente ficamos estagnados, ao em vez de prosseguir com o raciocínio. Difíceis são as vezes em que ocorre o que foi dito no primeiro parágrafo.

    Em fim, estou demorando a falar sobre o tema.
    Acredito que já tenha dito aqui que a sexualidade humana é algo complexo. Primeiramente acreditei que ela era totalmente fruto da nossa genética, que no nosso código genético havia um “Gene Gay” para definir nossos gostos.
    O problema é que achei essa resposta tão “simples”, tão de bandeja dada (como a situação que escrevi mais acima), que acabou não sendo o suficiente para mim. Sei lá, sentia que faltava algo mais “complexo”, mais “humano”.
    Foi nessa história que comecei a ver a ideia de que a nossa sexualidade é fruto das experiências que temos com o meio e de como respondemos a ele com outros olhos. Sentia que era mais lógico e explicava melhor as situações que via e vivia.

    De qualquer forma, ela ainda não explicava inteiramente essa mutabilidade (do Laerte Coutinho, a exemplo), ou pelo menos a forma como eu a via não fazia tal.
    Mas o problema não é esse. Por achar que meus desejos sexuais e afetivos foram frutos das minhas experiências infantis comecei a me fechar nessa minha sexualidade, criando uma certa rejeição por mulheres (igualmente como alguns héteros tem rejeição por homens).

    Comecei ver algo errado nisso, afinal, estava voltando a uma situação muito parecida a de antes.
    Parando para pensar um pouquinho vi uma palavra interessante nessa situação, e foi nessa palavra que fixei meu olhar: Rejeição.
    Foi a partir dela que comecei a achar que a sexualidade,na verdade, é algo extremamente psicológico. As ações do meio sobre nós e a forma como reagimos a ele ainda existe nessa “nova” definição, mas o fator de que sexualidade está mais para COMO VEMOS A SITUAÇÃO começou a tomar espaço.
    Comecei a pensar de que se não fosse essa minha rejeição, esse meu limite, por mulheres talvez minha sexualidade fosse mais para bi do que para homo, que, na verdade, a sexualidade humana não se volta para um só gênero.

    Vejamos que, na maioria das vezes, quando nos aceitamos e assumimos nossa sexualidade, temos uma mania feia de achar que é aquilo e ponto, e fechamo-nos para novas experiências.
    E se, na verdade, aceitássemos uma condição em que existe a possibilidade de nos atrairmos pelos dois gêneros, e não só por um como fazemos muitas vezes? Vê como essa possibilidade soa de uma forma diferente?

    Posso dizer que a razão para eu ter começado a pensar nisso se dera principalmente por ter conhecido a “mulher da minha vida” (e é aí que entra a história da “ação do meio sobre a gente e as nossas respostas a ele).
    Nessas horas até começo a acreditar em destino, pois foi ano passado que me aceitei e me assumi apenas como gay, e foi também ano passado que ela apareceu em minha vida.
    De acordo com ela, ela não tem sexualidade, apenas “ama pessoas” (fica com homens e mulheres e, na brincadeira, diz que abre a possibilidade de ter relações com trans e afins). Por algum motivo ela queria criar algum tipo de afeto comigo (um cheiro aqui, um selinho ali), mas, olha que engraçado, no começo eu não queria ter esse envolvimento com ela simplesmente por causa da Rejeição por mulheres que havia criado recentemente.
    Claro que com o tempo fui criando mais intimidade, e quebrando limites que havia criado quando me aceitei e me assumi como gay (comecei a trocar selinhos, carinhos, cheirinhos, e toda a melosidade que TODO casal tem). O resultado de tudo isso você próprio MVG me apresentou (sim você mesmo): Ironicamente, mostrastes a mim que eu, na verdade, estava envolvido afetivamente com ela.

    Ou seja, pelo menos em minha atual condição, afetivamente, em quesito de Amor mesmo, além de me envolver com homens (vide ao meu ex-namorado) posso me envolver com mulheres também! Que sou bi afetivamente. E tal fato só ocorrera porque “a mulher da minha vida” meio que quebrara esses limites que eu havia criado quando disse a mim mesmo que era só gay e ponto.

    A partir disso começo a pensar na possibilidade de que futuramente possa eu me envolver também sexualmente com uma mulher, e isso vai depender do andar da minha carruagem, da forma como quebrarei essas LIMITAÇÕES. Ou talvez não, talvez eu nunca me envolva sexualmente com uma, mas já começo a acreditar que sexualidade (além da atração dos gêneros, incluindo fetiches e derivados) é coisa da cabeça, e por isso ela se torna tão mutável.

    Em fim, apenas uma opinião que criei de acordo com minhas vivências e experiências. O resultado de tudo isso eu digo depois a vocês :v!

    Abraços do CR!!

    1. minhavidagay disse:

      Super CR! Muitíssimo obrigado pelas suas reflexões! :D

    2. Caio disse:

      Não concordo com você CR. “…a sexualidade humana não se volta para um só gênero”, como você tem certeza disso? Pode até ser o que acontece ou o que você gostaria que acontecesse, mas só na sua vida. Não há como generalizar. E não vejo limitação alguma em alguém só gostar de um único gênero. Isso é apenas fruto do politicamente correto exagerado que está em alta no momento.

      1. Só estou respondendo aqui porque queria esclarecer de que não quis passar essa ideia de limitação que você interpretou, e se, no fim das contas, passei, me perdoe.
        Além disso, peço desculpas pela generalização. Não percebi quando escrevi.

        Falo das limitações quando alguém toma repulsa pelo outro:
        “Mulher? Nojo! Nunca!”, “Homem? Bem longe de mim!”.
        É rejeição, é repulsa, e me aparenta muito a uma limitação. E digo que aparenta ser assim por se assemelhar muito à situação de quando a maioria de nós ainda estava em conflito com os nossos desejos: “Homens? Nunca!”.

        Sinceramente, quando se é bem resolvido você não tem motivos para criar qualquer repulsa a um dos gêneros.
        Gostar de um só gênero não é e nunca vai ser uma limitação, mas criar essa aversão, sim!

        De qualquer forma, se o que falei aqui é o que acontece com uma minoria, ou o que realmente acontece, ou mesmo o que eu gostaria que acontecesse, sexualidade só se comprova mais ainda como única de cada pessoa, assim como as opiniões diversas que temos sobre ela.

        Abraços do CR!!

  3. Caio disse:

    Lembrando que está análise deve se voltar a maioria. Aqueles que são exceções não contam, pois representam apenas poucos num universo muito maior.

    De acordo com tudo o que vivi e aprendi, creio que a homossexualidade advém de uma predisposição biológica, podendo ser genética, epigenética, hormonal, etc; mas que também é moldada em partes por aspectos psicológicos e sociais (ambiente em que as pessoas são criadas). Ainda que ao meu ver o fator biológico é o mais presente. Ou seja, para mim se a predisposição existe, entendo que seria muito difícil somente os fatores psicológicos e sociais “impedirem” o processo de tornar um ser homossexual.

    E também penso que a homossexualidade em si (o simples fator que faz um homem gostar de outro) é bastante provida pela genética. Mas, a personalidade dese homem, que vai determinar a diferença dos demais homossexuais, acho que é mais formatada pela criação, ainda que existam elementos biológicos que possam influenciar seu desenvolvimento.

    Não vejo a razão pela qual a ciência tenha que desvendar por completo este mistério (até porque também não acho que será possível), mas basta comprovar de alguma forma que realmente parte da nossa orientação sexual vem da natureza humana, que já está ótimo.

    Ah, e quanto a parte das mudanças. Sim algumas pessoas ao longo da vida podem mudar quanto a sua sexualidade. Mas não vejo como sendo a maioria. E não esqueçamos que existem aquelas que parecem que mudaram, mas na verdade nunca foram o que dizem ser agora, devido ao medo de se manifestar quanto a isso. (ex: homem casado com mulher decide se separar para viver com outro homem; ele sempre foi gay, mas levou tempo para se aceitar)

    Abraço.

  4. jose disse:

    MVG, eu comprei uma grande discussão por concordar com pontos no seu texto, rsss. Eu concordo com o seu texto, aplicado a uma minoria, minoria mesmo dos casos.

    1. minhavidagay disse:

      Oi José… Qual seria a caracteristica dessa minoria? Inata ou adquirida?

  5. José disse:

    Na verdade, não conheço gays que digam que é adquirida, todos que converso dizem ser inata. No meu caso, também acredito ser inata, mas, não descarto a possibilidade de existir adquirida, ou ainda, uma mistura de inúmeros fatores. e esse adquirida, não é simplesmente pela criação, é por uma série de fatores e experiências ao longo da vida, podendo ser na verdade uma característica inata que estava adormecida.

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