Não sou tão novato na vida gay, ele é e estou me apaixonando. O que fazer?


O Arthur, leitor que frequenta as linhas do Blog MVG há 3 ou 4 meses, é um jovem gay que já está mais resolvido consigo, no sentido de entender e viver a sua realidade homossexual, e trouxe um relato que confere identificação com milhares de outros jovens homossexuais (e nem tão jovens assim).

20 e poucos anos para um gay tem as nuances que dificilmente um moço heterossexual vivenciaria. Está aí o caso do Arthur, com comentários “mvgenianos” de quem vos fala, como de costume. Caiu na chuva, tem que se molhar, hein, Arthur! :P

Relato de Arthur

Me chamo Arthur, tenho 20 anos e moro em Belo Horizonte/MG. Acompanho o MVG há uns 3 ou 4 meses, e devo dizer que muitas das postagens foram de utilidade pra minha vida pessoal.

Logo quando conheci o blog, entrei em contato com você por e-mail, e confesso que não me lembro mais por qual motivo, mas me lembro que você me deu um conselho valioso.

O motivo de meu contato hoje é porque tenho um outro dilema nas mãos e preciso falar com alguém sobre isso. Há umas 2
semanas, eu estava matando meu tédio no infame bate-papo da UOL, e lá conheci um rapaz de 18 anos, também morador de
Belo Horizonte.

Como não tínhamos o propósito de fast-foda, nos identificamos por estarmos ali e nos tornamos amigos. Desde o início ele se mostrou muito receptivo e por várias vezes me convidou para ir até a casa dele, sem ao menos ter me conhecido pessoalmente. Ele se diz bissexual e que já namorou várias garotas mas nunca se relacionou com um homem.

Certo dia, ele iniciou um desabafo comigo e se diz “preso” dentro de uma realidade que ele gostaria que fosse diferente. Disse que sempre viveu correspondendo às expectativas dos outros e nunca realizando seus próprios desejos. Com isso ele disse que precisava matar a curiosidade de ficar com outro homem e, com isso, ser o que ele gostaria de ser por pelo menos um dia. Ele me pediu que proporcionasse isso à ele e eu me prontifiquei, não pelo puro desejo, mas pelo bem que isso poderia fazer a ele.

Conversamos normalmente nos dias seguintes, e há poucos dias fui até a casa dele, e passamos a tarde juntos, vendo filme, conversando e se divertindo. Eu realmente esperava que ele tentasse algo comigo, mas disse que embora ele deseje, não consegue fazer isso, pois sente que é errado, e ele mesmo se pune por isso. E não falávamos de sexo, apenas beijos.

Argumentei com ele na tentativa de convencê-lo a se permitir a viver este momento, mas ele realmente não se entregou. Não forcei a barra, e terminamos o dia bem, sem ressentimentos nem recriminações. Ele vai voltar à sua vida sentimental normal, namorando lindas garotas e contendo seu desejo por homens. Mas eu não vou voltar ao meu estado normal tão cedo, pois aquilo que eu queria ao máximo evitar, aconteceu: estou me apaixonando por ele. Digo que gostaria de não me apaixonar porque ainda é cedo para que eu encontre alguém que possa me corresponder da maneira que eu quero e preciso, mas o destino sempre me prega essas peças.

De alguma forma, eu sinto que tenho o dever de libertá-lo, não fazendo ele sair do armário, mas ser a pessoa com quem ele pode se abrir e ser ele mesmo, sem recriminações. Ele não tem muito convívio com a própria família, então sinto que devo estar ao lado dele, que devo fazer a diferença na vida dele de alguma forma, mas não sei como (se é que é possível).

Comentários do MVG:

Oi Arthur,
tudo bom?

O nível de pureza no seu discurso é muito legal e quase posso afirmar que vai gerar certa “raivinha” de alguns meninos e homens que passaram por situações semelhantes a sua e que quebraram a cara pois, se apaixonar por um gay ou bissexual que vive ainda essa fase de descoberta, nem sequer teve uma experiência homossexual e está nesse estado de “coito interrompido” – num conflito interno entre os valores heteronormativos e as sensações homossexuais – traumatiza e frustra muitos gays! Não é à toa que tal perfil é tão condenado porque, nós gays, costumamos idealizar esse “jovem homem” e entramos nessa espiral de fazê-lo encontrar a “luz”, de sermos os tais “pacientes”, “compreensivos”, quase “Madre Teresa de Calcutá”.

De fato, apesar de raro, conheço um caso de um gay que se envolveu por um “bissexual” (no caso as aspas fazem sentido) que até então só tinha concretizado relações afetivas e sexuais com mulheres. Namoraram 5 ou 6 anos, as aspas desse “bissexual” caíram, encontrou-se gay, e terminaram por desgastes que culminaram na traição do gay (original)… e lá vai história pela frente, que não vem ao caso.

Mas no geral, entregar o afeto no formato de paixão por um jovem que está vivendo esse momento de conflito ou trânsito é deveras complicado. O final, se a gente for falar em estatísticas de e-mails que recebi e histórias que eu conheço, tende a acabar no “quadradinho trivial”, do gay que se sujeitou a viver essa experiência, viveu frutrações e passou a repudiar perfis assim.

Não sei até que ponto, em sã consciência, um cara que vive nesse estado é realmente alguém mal resolvido. Eis a minha opinião. Tem gente que transita por anos e anos e estabelece um equilíbrio emocional e psíquico sendo assim. Mas nós, gays, cobramos definições justamente para estabelecer uma zona de segurança, para, sim, colocar fulano numa “caixinha de conveniência do nosso ego”. A gente não aceita sempre o bissexual, o g0y, entre outras derivações possíveis (de rótulos discutíveis) porque pessoas assim nos tiram o chão, nos descaracterizam. O resultado é que muitos gays preferem tratar homens desse perfil como “todos traidores”, “todos promíscuos”, generalizações que “resolvem” as frutrações do ego, mas que escancaram o preconceito. Conveniência.

Vamos voltar à “Madre Teresa”, algo que senti no final da sua história: ela não existe em você e desculpe dizer. Por mais que você queira ser o “amigão”, lá no fundo (ou nem tão fundo assim), você vai esperar algo em troca. Relacionamentos são essencialmente feitos por trocas. Não sei como é a sua personalidade de fato, mas ou você vai se pegar em situações de cobrança em cima dele ou vai reprimir o sentimento, quando não se anular. Em ambos os casos, a tendência é que você fique mal pois a chance dele nivelar a relação por igual, preenchendo suas expectativas, do seu esperado, é pequeno. Virão provavelmente em migalhas, entre altos e baixos por parte dele.

Mas o bacana é que você buscou recorrer a alguém, no caso o MVG, que está trazendo uma certa consciência para você numa etapa “x” da sua paixonite. Ter consciência nos tira certo privilégio do vitimismo (e consequentemente do julgamento do banditismo da outra parte) e, se você resolver mesmo encarar a “Madre Teresa” que existe dentro de você, é por sua conta e risco!

Minha dica: entregue esse sentimento honesto da sua paixão para outra pessoa ou defina seus propósitos a si, em respeito a ele, de maneira bem clara. Já tive um relacionamento curto com um bissexual e sabia, desde o dia que a gente se tocou pela primeira vez, que a minha afetividade por ele começaria e acabaria no prefácio da história. Será que você consegue ter esse tipo de controle?

Acredite: a chance dele comprar a sua pureza, a honestidade do seu sentimento, é quase minúscula. Pra falar a verdade, dificilmente ele vai conseguir enxergar porque ele não está pronto para isso. Se um dia ele vai estar? É ele quem vai ter que descobrir… enquanto isso, o que ele pode fazer é oferecer migalhas (sob o ponto de vista do gay, porque pra ele, provavelmente, é até onde ele consegue chegar). São limitações mesmo e, sabe, é difícil a gente julgar as limitações do outro quando o assunto é socidade VS. homossexualidade VS. psique individual.

Um abraço e obrigado por compartilhar seu relato com os leitores! =]

3 comentários Adicione o seu

  1. Arthur Ribas disse:

    Oba! Adorei ver o meu relato no MVG!
    Agradeço muito pelos conselhos, e tentarei segui-los. E espero que este relato possa ajudar outros leitores.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado a você, Arthur!

      Provavelmente vai servir de referência para gays, bissexuais e indecisos (rs).

      Abraço! =]

  2. Ferreira disse:

    Que relato instigante Arthur! Você fala que “embora ele deseje, não consegue fazer isso, pois sente que é errado, e ele mesmo se pune por isso. E não falávamos de sexo, apenas beijos.” Essa é uma situação real que decorre da não autoaceitação. Digo por experiência própria, pois ao me perceber gay, embora sentisse atração por homem, não conseguia equacionar essa questão de carinho, beijo, etc. e levei um tempo, só agora consegui entender/ver com “naturalidade”. E no meu caso não tenho nenhuma atração por garotas.

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