Compartimentos


A vida é feita por compartimentos. Todos eles são evidentemente dependentes de um nome: relacionamentos. O que dá sentido para o ato da vida é basicamente isso, o relacionamento. Por mais que um indivíduo adquira uma autosuficiência e saiba lidar bem com a solidão, sobrevivemos de relações. Os compartimentos poderiam ter nomes: 1 – família, 2 – estudos, 3 – trabalho, 4 – amigos e 5 – companheir@. Em linhas gerais são esses os “tanques” que encheremos (ou não) durante a vida toda nessa busca incansável pela felicidade. A ordem de prioridade é bastante relativa, mas é mediante essas relações que poderemos ser mais ou menos felizes.

Há aqueles que são “indiferentes” com a família, mas buscarão – mesmo que de maneira inconsciente – compensar o papel das relações familiares em um dos demais compartimentos. Normalmente, quando o sentido familiar inexiste ou traz percepções negativas, buscamos compensar com o compartimento dos amigos. Até que dá conta ou não: lembro da Biografia do Steve Jobs e de como ele nunca aceitou bem o fato dos pais de sangue terem-no abandonado. Encontrou luz perante seus pais adotivos mas, no fundo, carregava um energia densa e inconstante pelo sentimento de abandono.

Não importa muito a idade física quando tratamos desses “tanques”. Quanto mais baixa a gradação é sinal que menos experiência temos. Porque os compartimentos, durante a nossa vida, são preenchidos com um líquido chamado “experiência”. Poderia ser chamado de vivência também e, quanto mais cheio, mais amadurecidos somos.

Como dizia, não importa muito a idade ao se tratar desses compartimentos. Um homem gay que se assume, por exemplo, aos 40 anos e nunca viveu a fundo o “tanque” de relacionamentos afetivos (que eu denomino de “companheiro”) e que talvez seja até virgem, ao dar os primeiros pulos para exercer a sua homossexualidade, não deixará de atuar como um jovem de 16 ou 18 anos. O compartimento passará pelas primeiras gradações e, muito provavelmente, esse homem de 40 anos que, durante todo esse tempo, encheu os tanques de estudos, trabalho, intelecto, amigos e família, será um “jovenzinho” ao tratar do assunto relacionamento.

O tanque da família, talvez e no geral, é aquele que começa a ser preenchido no ato crítico, estressante e agressivo do nascimento. É quando saímos do conforto e da segurança quase surreal, dentro da barriga da mãe, que imediatamente vão caindo as primeiras gotas de experiência no compartimento da família e, para infortúnio de todos os bebês, de maneira impactante e traumática. Porque ao nascermos, sim, temos a primeira experiência traumática: somos literalmente expelidos de uma zona de conforto absoluta, dentro do ventre.

Recentemente lancei um post no Face que dizia assim: “Um gay feliz e resolvido até esquece que é gay”. Foram mais de 400 curtidas, 15 comentários e 70 compartilhamentos, todos espontâneos. E tal post tem tudo a ver com o texto de hoje: felicidade e resoluções se fazem mediante as gradações em equilíbrio de todos esses compartimentos: família, estudo, trabalho, amigo e companheiro.

Somos essencialmente seres sociais e tendemos a morte quando deixamos de exercer a socialização. Um ermitão, em sua solitude extrema e afastada, pode estar até vivo a si, mas é morto perante a sociedade. Inexiste.

Assim, a grande maioria das pessoas, para não dizer 99,9% precisa sentir, todos os dias, que existe para outras pessoas e vice-versa.

Recentemente, no Workshop que participei cujo o tema era “Reescrevendo Relacionamentos”, assisti um vídeo sobre experiências de um médico alemão, no pós Segunda Guerra Mundial, apresentando crianças abandonadas e sem nenhum contato físico com outras pessoas (eram órfãos de pais mortos na guerra). A ausência de contato humano, o sentido de existência nulo, faziam dessas crianças quase como seres inanimados, “bonecos”, catatônicos. O ser humano morre se não se relacionar e tal sentido fica muitíssimo claro no filme “Natureza Selvagem”, que já referenciei por tantas vezes aqui no MVG.

Há como compensar o compartimento do “companheiro”? Certamente, a natureza humana busca formas subconscientes para essa compensação: quantos não são os jovens gays que criam um laço afetivo extremo (ou intenso) com amigas e, apesar de se ausentarem do sexo, amenizam o sentido de inexistência com tais amigas (e vice-versa)? Quantos não são os gays que desenvolvem uma afetividade por amigos e, depois, para resolver desejos, tratam outros homens gays apenas como objetos? Já reparou que muitos “amigos inseparáveis”, atribuem-se a si (em conversas e desabafos) inúmeras conclusões sobre desilusões e frustrações amorosas? É como se a convergência das frustrações alimentasse a própria amizade.

O mesmo se aplica a inúmeros gays que criam um vínculo emocional/afetivo tão forte com os pais (normalmente as mães) que compensam assim a dificuldade de se ter um companheiro.

Entregar afeto para um outro homem, hoje, parece arriscado. Temos medo da dor, de não dar certo e vamos alimentando uma certeza de que os relacionamentos são voláteis. Será que são ou foi você que assumiu a sua própria condição de um ser casual?

No meu sincero ponto de vista, sem equilíbrio dos compartimentos, não encontramos a serenidade, a paz de espírito e, inclusive, a autoaceitação. Como aceitar a si se somos incapazes de aceitar o outro?

6 comentários Adicione o seu

  1. Yuri disse:

    “Assim, a grande maioria das pessoas, para não dizer 99,9% precisa sentir, todos os dias, que existe para outras pessoas e vice-versa.”

    Ah cara tenha dó! o que é isso ? literatura barata de banca de jornal? auto-ajuda?
    que idiotice e mediocridade reduzir uma existência a outra pessoa.

    então ao invés de “penso logo existo” agora é “vivo pra outra pessoa, logo existo”

    já sei, isso tudo é “a culpa das estrelas” hahahaha
    ¬¬

    1. minhavidagay disse:

      Oi Yuri! Te incomoda tanto assim saber que vc é dependente sim de outras pessoas? Então vai mais uma barata da banca de jornal: “reason is just the beginning, not the end”.

      Tudo isso é muito anterior as estrelas rs.

  2. Daniel Gonçalo disse:

    Parabéns pelo post ! Muito bem escrito e elucidativo ! No final, quando vc fala sobre o medo de q muitos de nós temos de sentirmos dor e nos entregarmos em uma relação, lembrei da frase do Renato Russo em “Quando o sol ..” : ” Tudo é dor/ e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”. A frase é inspirada no livro de Buda e creio q se encaixa direitinho nessa questão das relações humanas. Temos medo de nos relacionar e sofremos por ficar sozinhos. Eu senti isso por muito tempo e só fui me relacionar com um homem aos 26 anos, vivendo assim uma “adolescência tardia ” no campo afetivo. Mas passou, e tenho um companheiro/namorado há 6 anos e mesmo com altos e baixos continuamos juntos e apaixonados um pelo outro. O que quero dizer é q se não nos abrirmos para a vida( em múltiplos sentido rs) ela não se abrirá para nós.
    “Solidão é pretensão de quem fica escondido fazendo fita “. Reclamamos tanto da solidão, mas quem está disposto a se relacionar e a sentir? Amar é realmente para os fortes !
    Um grande abraço! Até !
    Daniel

    1. minhavidagay disse:

      Amar é realmente para os fortes. Bravo! Ótima tradução! :)

  3. Ferreira disse:

    Gostei muito do post. Acho que uma das características do ser humano é exatamente a necessidade de se relacionar. Não somos seres absolutos, autossuficientes. Esse comentário de Daniel me faz querer com mais intensidade viver minha “adolescência tardia”. Se abrir para a vida…

  4. minhavidagay disse:

    Oi Ferreira!
    Como seres sociais precisamos nos relacionar, o que não quer dizer um namoro. Mas em praticamente todas situações que vivemos, estamos nos relacionando. Mesmo quando sozinhos, se abrimos nosso facebook e curtimos algo na timeline, estamos exercitando relacionamento. Até mesmo dormindo sonhamos, normalmente, com interações com pessoas.

    O Yury não está de todo errado. Construir um senso de autosuficiência é importante para todos. Mas no final é importante para, justamente, aprendermos a nos relacionar melhor. A autosuficiência as vezes é uma boa “desculpa”, válida e legítima, para não nos metermos em frias (de relações) rs.

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