Para que esse extremismo todo?


A religião islâmica não é o problema. Nem os Petistas ou os PSDBistas. O problema são as figuras extremistas que se agrupam vez ou outra para expressarem, com as energias mais profundas, seus ideais radicais, tratando todos que vão contra seus pensamentos como inimigos. Posturas desse tipo sempre culminam em agressões morais ou físicas, numa materialização indecente da nossa parcela cavernosa e lunática. Gay ou heterossexual, tem gente que adora ser “ogro”, não por soltar um arroto, mas na maneira de tratar aquilo que lhe é diferente de suas verdades. Pessoas extremas são naturalmente ofensivas e, com pena, muitas vezes nem percebem que são.

Não imaginei que começaria o ano falando sobre o extremismo. Tal tema foi abordado aqui pelo Blog MVG no final do ano passado, quando pudemos presenciar direta ou indiretamente os feitos enérgicos de grupelhos dos dois partidos durante e depois das eleições de 2014. De um lado, do ataque cafona contra a editora Abril. Do outro, de um tipo burguês levando à Avenida Paulista o discurso igualmente cafona de intervenção militar. Radical é radical e essas é uma das verdades quase que absolutas (das poucas): nunca tem legitimidade, embora muita gente se atraia.

Daí que bastou eu voltar para a outra parte do meu mundo, atento a minha realidade nacional, minha casa, meus afazeres e obrigações, que o que mais se fala, de maneira compulsiva e incessante, é do incidente que aconteceu em Paris (e suas consequências posteriores). Poderia ser um péssimo presságio de começo de ano, não fosse a minha habilidade (e sugiro que todos tenham) de colocar tal incidente num canto das importâncias pontuais não premonitórias.

É fato, como li em alguns artigos sobre o assunto, que a cultura radical (principalmente entre os jovens europeus) tem crescido nos últimos anos. Mas será que esse fenômeno é reservado somente à Zooropa? Claro que não. O zoológico está aberto globalmente, cujas intensidades se revelam de acordo com o tipo cultural local.

Aqui mesmo no Brasil, se pensarmos que na época das votações, dezenas ou centenas de pessoas se excluíram das redes sociais por meras divergências políticas, o ódio pelas diferenças (ou pela liberdade de expressão) tem se apresentado no formato de cada sociedade, mas mundialmente.

A mídia formal, nesse contexto – se a gente não se previne pelo senso crítico individual – enfatiza ainda mais o radicalismo inerente aos movimentos, religiões, partidos, times, clãs e etc. Todo petista é arruaceiro? Claro que não. Todo tucano é a favor da intervenção militar? Não. Todo muçulmano carrega uma arma dentro das calças para dar um tiro no primeiro que zombar Maomé? Óbvio que não. Todo pastor evangélico vai aos extremos para fazer uma lavagem cerebral na mente de seus seguidores? A mesma negativa.

E por que a cultura dos extremos parece estar tão em evidência?

Bem, por meio do meu humilde conhecimento e percepção de mundo (nesses quase 38 anos que vivi na terrinha), posso sugerir que numa matilha de lobos existirão aqueles cegamente ferozes que, por muito pouco, deixarão os ímpetos mais abismais aflorarem quando sentirem-se ameaçados. Pois sim, cegueira é uma característica do indivíduo extremista e reforça que, num processo natural de evolução do homem (que busca se afastar da origem primal), a lucidez de consciência não caminha igual para todos e, muitos dos seres humanos (uma minoria, ainda bem) está mais próxima da selvageria irracional, autoritária e extrema do que da sabedoria. Claro que falamos também de uma baixa espiritualidade…

Em outras palavras, tais conflitos de sentidos e percepções, entre grupos radicais, nos acompanham desde os primórdios da humanidade. A diferença é que hoje, qualquer informação chega muito rápida, por intermédio das redes sociais passamos a ser mais autores de nossas próprias ideias e, como parte da natureza humana também, adoramos notar escândalos, confusões e morte. Esses temas dão audiência. Morte, brigas, acidentes de carro atraem como a chama de uma vela ou o deslizar das águas de uma cachoeira. De um lado, negativando nossa existência e, de outro, positivando.

Somos dotados também de fobias, tal qual a tão conhecida (cá entre nós) homofobia. Somos dotados de apegos e, me parece que, para alguns indivíduos, quanto mais apegado se é a algo ou a uma ideia, mais revoltado se torna quando alguém tenta ser ou dizer ao contrário. É como tirar a carniça de um leão faminto, ou nos roubar o namorado, ou nos colocar contrário a uma ideologia. Existirão sempre aqueles que, no ímpeto para não se perder da própria verdade e conforto, numa situação de ameaça, preferirão detonar o outro que, por ventura, se mostre contra. Devido a alguns, parecemos tribos ainda impondo a nossa existência.

Vivemos tempos de extremos apegos e está aí cerne do extremismo. Nos agarramos tanto à pessoas, ideias ou grupos que, qualquer assunto que possa ofuscar aquilo que nos pertence ou aquilo que acreditamos, nos desperta o sentido dos extremos, da ignorância, da raiva e da vontade de exterminar aquele que se coloca contra.

O mote da liberdade de expressão é de uma legitimidade onipotente, embora no mundo de hoje, vivemos um momento de um ódio declarado que tem atirado para diversos lados, passando longe do alvo do respeito das escolhas, da afeição pelas diferenças e da igualdade.

“Queremos impor radicalmente aquilo que nos parece certo porque se não for certo não teremos por onde nos agarrar”. Ando com pena desse tipo de gente. Mas ele existe.

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