Esse estranho amor


Que amor que é esse que tantas pessoas sentem pelas outras sendo correspondidas apenas com migalhas? Pelo menos, entre os gays, sei que muitas vezes acontece disso. A pessoa idealiza o outro, o coloca como alguém incrível ou quase perfeito. O outro pouco dá bola ou recorre excepcionalmente quando precisa de ajuda, está passando por alguma dificuldade ou anda carente. Que conveniência é essa no amor?

A idealização advinda da paixão é um problema quando não correspondida, principalmente se estamos vivendo as primeiras experiências afetivas e, por azar ou destino, nos envolvemos por caras que dificilmente corresponderão.

Posso afirmar que cair a ficha, nessas circunstâncias, não funciona com a ajuda de amigos. Os outros, ao redor de quem está encantado, podem enxergar com toda clareza o quanto o amigo apaixonado vive uma submissão, expectativas e migalhas. Tal amigo pode até afirmar que é bom assim, que não espera nada em troca, mas no fundo acredita que o outro possa mudar, impulsionado por algum tipo de mágica ou “efeito do amor”, mas que de fato tal química termina num nome: frustração. Na maioria dos casos é assim e questiono novamente: “que amor é esse tão conveniente?”.

As vezes, nos achamos dotados de um poder extraordinário de transformar o jeito, o comportamento e os valores de uma pessoa. Se isso não funciona nem entre um par que vive um relacionamento sólido, imagine quando a relação é de um amor servil, desigual, no qual uma das partes só recebe e a outra somente doa?

Tenho visto muito por aí esses tipos de casos:

1 – ambos não se entregam;

2 – um se doa e outro recebe;

3 – ambos esperam ou impõem doação.

Nesses formatos, como é possível pensar em amor?

Voltando ao caso 2, tema do post de hoje, aquele que se doa mune-se de dezenas, centenas ou milhares de desculpas para justificar a submissão, as expectativas, alegando não haver um controle dos sentimentos pelo outro. Até que o mundo gira na mesma página, da voltas, roda de novo, passa pelo mesmo lugar e, em um sentido de desgaste, cuja duração de tempo é muito pessoal, a pessoa sozinha (avisada por amigos anteriormente ou não) se dá conta, com ímpetos de raiva, tristeza ou amargor, que algo não vai bem.

E não vai bem mesmo. Caiu a ficha.

Sabe por que, as vezes, nos agarramos nas primeiras migalhas que nos aparecem pela frente? Porque temos a impressão de que somos tão fora do perfil atrativo, tão reduzidos ou estranhos, que o primeiro que nos lança a possibilidade de objetos ideais, passa a representar um tipo de salvação em nossas vidas. A gente não enxerga a pessoa que está a nossa frente. A gente vê o que gostaria que ela fosse. E isso, sinto em dizer, também não é amor. O outro que joga migalhas não te ama por (em certa medida) te usar e você não o ama porque de fato espera encontrar, no outro, algo que você acredita não ter, mas quer.

Tudo isso é a nossa cabeça ainda complexa. Tudo isso é o sentimento de inferiorização em detrimento ao outro, aquela impressão de que só a existência do outro dá sentido ao nosso inteiro.

É nessas horas, quando efetivamente tomamos a consciência (e consciência é diferente de racionalidade), que entendemos algo importante: a ideia de que duas metades se completam é um pensamento primário, imaturo. Podemos acreditar para sempre que somos metades de uma mesma laranja esperando encontrar a outra parte e viver longamente relacionamentos desiguais, cheio de expectativas e esperanças de que o outro seja a nossa fonte de libertação. Ou podemos, quando queremos, sair desse modelo de pensamento e transcender para a ideia de que somos inteiros e, se nos falta algo, somos nós mesmos que devemos completar.

No final, estar com alguém é fruto do desejo de querer seguir acompanhado. No mais, é um jogo de dependência exaustivo.

O sentido do inteiro é o pensamento simples contra a situação complexa, a bagunça, o controle e as expectativas. Não precisamos necessariamente de outros para nos libertar de nossas amarras, fraquezas ou medos embora, humano que somos, tendemos a escalar novos patamares criando uma ideia de atributos no outro para, curiosamente, notarmos que nós mesmos temos tais qualidades.

Mas isso não é amor. A cara metade não serve para embelezar ou suavizar aquilo que achamos feio ou áspero em nós mesmos.

 

 

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Acredito que o amor é construído com o tempo, quando a paixão arrefece e o sujeito passa a ver com mais nitidez o lado humano do parceiro, suas fraquezas e defeitos.
    Antes disso o que existe é paixão, arroubo, projeções e idealizações e também há que se levar em conta um certo débito que é acumulado na vida gay, pois, pelo fato de haver uma luta em torno do despertar para a homossexualidade no sentido de aceitação, auto-aceitação, acho que de alguma forma há sempre uma carência extrema rondando a vida gay, um amor que nos faltou ou que não soubemos ou pudemos captar naquelas fases mais sinistras do processo de auto-entendimento e que deixa um vazio perene no coração.
    Aprender a conter essa onda é um ponto essencial pra não afundar relacionamentos e quantos deles (e/ou sessões de terapia) serão necessários pra aprender isso?

    Abraços.

  2. Queria eu ter lido um texto desses há uns dois anos atrás, quando estava conhecendo o primeiro carinha que iria beijar (e o meu texto dedicado à idealização que tive dele ainda está lá no blog para contar minha historia), dando ênfase ao parágrafo:

    “Sabe por que, as vezes, nos agarramos nas primeiras migalhas que nos aparecem pela frente? Porque temos a impressão de que somos tão fora do perfil atrativo, tão reduzidos ou estranhos…”

    Em fim, é isso mesmo que você disse.
    De qualquer forma, por mais que nos avisem sobre o perigo das idealizações, acredito que este seja um mal necessário, que todos devamos passar, para assim podermos aprender com isso.

    Experiência é tudo.

    Abraços do CR!!

  3. FR disse:

    Boa noite,Gostei muito do texto. não pude acreditar quando li, pq esse texto reflete o meu momento atual. Estou namorando a pouco mais de 1,4 meses, e nos últimos 4 meses venho me submetendo a extremos a coisas que eu jamais aceitaria inclusive passar por humilhações. e eu sei que ele não me merece mas não consigo o deixar. Quero mas não consigo.

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