O valor da amizade


As pessoas, no geral, entendem a amizade de duas maneiras: a primeira, mais comum, daquela que precisa “bater ponto” e manter uma frequência. Há quem diga que, se as pessoas não marcam presença é porque não é amizade.

A segunda é daquelas que os amigos podem ficar um ano ou dois sem se falar. Quando se encontram, parece que ontem foi a última vez que se viram.

Eu tenho, hoje, os dois tipos de amizade. Confesso que a segunda é a mais frequente atualmente, mas tenho um ou outro amigo que cobram. Uma dessas amigas é alguém que conheci em 1994, no colegial, e completaremos 21 anos que nos conhecemos. É uma vida e, no decorrer desse nosso envolvimento, foram umas seis vezes que ela passava por momentos de certos apuros amorosos ou pessoais e precisava compartilhar com o amigo aqui (eu sempre fui “MVG”, muitos antes do Blog). Mas, do jeitinho especial dela, eu não ficava sabendo que precisava contar comigo e, quando ela aparecia era para ficar fula, brava, dizendo que eu andava distante, alegando que precisava muito da minha amizade e, do tamanho de seu temperamento, brigava comigo e passava mais uns três meses sem falar (rs). Depois voltava com alguma mensagem, sinalizando que o estresse tinha passado e que eu poderia retomar contato (rs).

Na primeira vez que tivemos essa “crise” eu fiquei assustado. Pessoas assim, sem querer, nos colocam numa situação de termos que correr atrás (mesmo quando a gente não entende direito porque acontecem esses coisas) e estava lá, eu, tentando apaziguar a situação sem a intenção de perdê-la.

Na sexta vez já era diferente. Eu deixava ela falar, ela desabafava sua bronca, eu aceitava a sua necessidade de dar um “tempo” em nossa amizade e sabia que, depois de três a seis meses, a ferinha voltaria mansa. Foi o modelo que se constituiu entre nós e talvez, de todos os amigos que tinham algum jeito de cobrar a amizade, com ela foi com quem se manteve a química.

Hoje somos adultos, quase quarentões. Ela acabou de se tornar mãe e suas demandas são outras. Aquele jeitinho apimentado, cheio de gênio para compartilhar suas angústias, foi trocado por uma forma muito mais serena. Maturidade.

Mas a maioria dos meus amigos que ficaram (e estejam certos que pessoas entrarão e sairão de nossas vidas aos montes, até que algumas se estabeleçam por longos e longos anos) me proporcionam a amizade sem cobrança. No sábado vou até Valinhos, cidade do interior de SP, para me encontrar com outra amiga. Alguém que conheci na beira da praia, quando minha mãe puxou conversa com uma senhora (sua avó) e a partir daí, em 1985, se estabeleceu uma amizade até hoje. São 30 anos que se passaram ou, duas vidas (rs).

Durante 10 anos passávamos 4 meses juntos, todos os dias, nas férias de julho e de dezembro a fevereiro do ano novo. Eram anos de estudos no ginásio, colegial e tínhamos tais privilégios da vida sem compromisso com o trabalho e o ser adulto. Foi a primeira pessoa que beijei na vida, uma única vez, mas isso foi só um detalhe.

O fato é que a amizade que tenho por ela e com mais uns quatro amigos, constitui hoje o que entendo de amizade. Com todos eles, claro, passamos também por momentos de intrigas, ciúmes, crises, brigas e broncas, mas que – de alguma maneira – a naturalidade da vida nos fez mantermos caminhos próximos.

Não foi assim com a maioria. Com os amigos da faculdade, por exemplo, não se construiu aquela química que se perpetua. Daí, a medida que a vida vai passando, vamos aceitando a natural condição de que, a própria vida, nos afasta de pessoas que parecem com uma sintonia incrível durante alguns anos, ou, nós mesmos nos sentimos impelidos a nos distanciar, por um natural fluxo de outros interesses.

O que sei também é que amizades de muito grude, muito mesmo, tendem a sufocar e a naturalmente se distanciar. A gente demora um tempo para entender que grude é apego.

Dizem também que os amigos ficam e os amores se vão. Se a gente acredita e vive nesse modelo, certamente. Mas não é uma regra absoluta: por mais de 10 anos mantive uma amizade com meu primeiro namorado. Namoramos quase dois anos e os demais tempos foram como amigos. A vibração se foi, da mesma maneira que aconteceu com os da faculdade. Mas nas idas e vindas de pessoas, e no importante aceitar desse ritmo sem orgulho, mágoas ou taxações, meu (quarto) ex-namorado e eu já constituímos mais de um ano de amizade. Assim, eu diria que os amigos ficam e, as vezes, os amores se transformam para também ficar.

O tema tange um universo muito mais subjetivo e abstrato, que vai além da semelhança de valores ou formação. É algo, quem sabe, espiritual. Essas são as percepções que tenho hoje sobre a amizade.

 

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