Até onde se vai pela estética?


Ken Humano. Assunto que virou buzz nas últimas semanas.

30-01-2015-ken-humano-gay-estetica

A compulsão pela estética teve um começo e, quer queira, quer não, a maior e a mais reconhecida até hoje (a mim) foi a de Michael Jackson. O artista, o qual estimo muito por ter sido um marco relevante na história da música, foi um dos primeiros de visibilidade global a sofrer de determinada obsessão pela aparência. Por mais que seus fãs digam o contrário, o menino do Jackson Five não se sentia feliz com a sua fisionomia original, natural. Fez que fez e foi, ano a ano, mudando a cor da sua pele (transformação justificada por um improvável vitiligo). Não bastasse, alisava seus cabelos frequentemente, o que em um contexto geral é tratado como algo comum. Mas além disso, a medida que ia “trocando de pele”, foi reformando queixo, contorno dos olhos e, evidentemente, transformou o formato do nariz por algo que poderia ter qualquer nome menos “nariz”. Por tantas mudanças, especulações mil foram criadas em volta do mito. Cheguei até a ouvir que, todas as noites, ele retirava uma prótese pelas narinas para poder respirar e dormir melhor. Por tamanha visibilidade, virou o primeiro a apresentar metamorfoses violentas para sustentar seu imaginário e alimentar nossas críticas, reles humanos.

A obsessão pela estética é muito diferente dos cuidados necessários que se deve ter para uma melhor qualidade de vida, o bem estar e a saúde. É fato que, na academia, saúde e estética sofrem intersecções duvidosas, principalmente quando se nota um volume maior de pessoas sempre nas vésperas dos feriados, férias de julho e na redenção dos finais de ano. A maioria, embora não seja Michael Jackson, nem o “Ken Humano”, tende a lembrar que “musculação faz bem para saúde” principalmente nas semanas que antecedem as viagens, quando fatalmente os corpos irão se apresentar seminus nas praias e nas beiras das piscinas. Como se fosse possível ficar “gostoso” em duas semanas… mas a cabeça acredita!

Assim como as loucuras de outros séculos, de outros tempos passados, a sociedade moderna tem lá sua faceta bizarra. A obsessão pelo belo, ou o que no imaginário individual é tratado como tal, é algo muito recorrente e nada mais apropriado que trazer tal tema para o Blog MVG. Sabemos (e como sabemos) que os estereótipos de beleza rondam nossas caixinhas e modelos com alta frequência. Homens gays têm uma sede especial pela beleza física. Por um lado, tal sede vem do bicho masculino, cuja natureza concedeu estímulos maiores pelo sensorial visual. Por outro lado é a moda que vem massacrando há tempos, longos tempos, atrelando a ideia de beleza à superioridade. Em outros momentos, talvez somente no Iluminismo (que inclusive aponto com um dos responsáveis pelo apelo excessivo do modelo de beleza atual), a obsessão pela “perfeição” foi tão evidenciada e marcada. A perfeição da beleza estava estampada nos meios da época, que não eram outdoors, anúncios de revista e banners em sites como é hoje. Sinto em dizer, mas eram os quadros, tetos, paredes e estátuas, sem desmerecer o marco histórico nas artes, assim como não desmereço o Michael na música. Mas afinal, a imagem de Jesus se instituiu num homem branco, de olhos azuis, lindo com cabelos loiros e cacheados, de musculatura definida e usando uma barba volumosa de fazer inveja à moda atual, graças a essa turma.

No final, vale novamente a pergunta: onde cada um de nós se posiciona nesse contexto? Vale à pena? Vale o ódio por esse tipo de exagero?

Será que a aversão a essas figuras icônicas, no fundo, não é o medo de – em partes – sermos como eles? Escancarar, assim, assusta porque jorra daquilo que a gente quer deixar, as vezes, subentendido.

4 comentários Adicione o seu

  1. Adônis disse:

    Acho que as academias de musculação vêm bagunçando o ideal estético das pessoas, por exemplo, tem muito homem que começa a fazer musculação e acha que ficar cada vez ” maior” é o ideal máximo de beleza. Sei lá, eu acredito que exista ideais universais de beleza, talhados com maestria pelos renascentistas em mármore branco,mas que hoje a mídia subverte para vender produtos milagrosos . O Davi de Michelangelo não tomava whey protein !

  2. Observador disse:

    Você não tem a estima por Michael Jackson que diz ter. Se tem, deveria pesquisar mais sobre sua vida, ao menos se desejar usar o nome dele como exemplo sobre qualquer coisa.

    É bom que saiba que o vitiligo de Michael não era “improvável”, mas tão real quanto se possa imaginar. Pesquise as fotos de MJ na Thriller Era, especialmente em suas apresentações ao vivo… veja as manchas que ele já possuía no rosto e nas mãos, que tentava esconder com a maquiagem e as luvas. Veja as imagens de seu clipe They Don’t Care About Us, filmado aqui no Brasil, e veja como seu tronco tem manchas. Michael não “inventou” o vitiligo. Ele foi acometido por ele como você poderia ser, eu poderia, e qualquer pessoa, e eu acredito sinceramente que não há motivo para se polemizar tanto uma doença de pele.

    As pessoas confundem as coisas e você as está confundindo: ele era vaidoso, sim, e uma das razões que mais o deixou complexado com sua aparência na fase adulta foi exatamente não ter podido evitar a danificação de sua pele, uma vez que na época não existiam tratamentos eficazes para parar o avanço – e até hoje, embora isso já seja possível, ainda não se pode cambiar o vitiligo, e reverter ao estágio natural da pele. Talvez também não saiba que a primeira cirurgia plástica na vida de MJ foi uma rinoplastia, resultante de uma fratura nasal que impediu sua respiração.

    E enfim, seja Michael ou qualquer outro exemplo, aonde está o tão grave problema em ser vaidoso, mesmo que em excesso?! As pessoas não devem mais possuir livre arbítrio?! Me decepciona um pouco ver alguém em sua condição demonstrar tanta preocupação com isso. Na condição de homossexual, creio que saiba o que é o preconceito, o que são os rótulos negativos… e creio que saiba como isso é errado e fere as pessoas. Pois bem, qual é a necessidade de criticar tanto a vaidade?! É um modo de vida como tantos outros, e mesmo que se discorde, creio que se deve respeitar, pois ainda que nesse caso se trate de uma escolha pessoal, é uma escolha válida, pois não prejudica ao próximo… no máximo pode prejudicar á própria pessoa, mas nenhum de nós está na pele dela para saber por que ela age desta forma consigo mesma!

    Não, eu NÃO sou á favor de estereótipos e ditaduras da beleza, sou totalmente contra. Mas também sou contra a ditadura do pensamento, a falta de liberdade para se pensar e agir como se bem entender, independente de ser considerado positivo ou negativo pela sociedade. Sou á favor de cada um viver absolutamente de seu modo, buscando ser feliz, não importando até certo ponto nem mesmo se isso custará boa parte de sua vida á menos: quem garante que os vaidosos em excesso vitimados por mortes prematuras necessariamente eram insatisfeitos consigo mesmos até o fim, e nunca se sentiram bem?! E quem garante que em algum momento não viveram até mais felizes seu pouco tempo do que muitos daqueles que se opõe tanto á essa busca pela perfeição?! Novamente alerto que não devemos pensar que isso seja o melhor modo de vida para se adotar. Apenas entender que não somos mais corretos do que uma pessoa que deseje viver assim.

    E para que fique bem claro, o vitiligo de Michael Jackson NÃO era improvável, mas sim real, como constatado inclusive em sua autópsia.

    1. minhavidagay disse:

      Olá Observador.
      Como você pode notar, o MVG é um Blog opinativo. O mito de MJ estava envolto, e ainda está, de especulações. Como qualquer astro, teve a mídia como uma “parceira” e na mesma medida uma “inimiga”.

      Não há como afirmar o que é certo ou errado de MJ no momento que ele mesmo nunca abriu, fortalecendo o mito.

      Essa semana morreu um dos “Ken Humanos”, vitimado do mesmo apelo excessivo pela estética.

      O alvo da minha crítica são os excessos humanos, como você poderá notar em muitos outros textos do MVG. Faço um alerta para que as pessoas pensem sobre nossos próprios excessos, numa referência, no caso, do apelo exagerado à estética.

      MJ foi um tremendo artista. Mas a crítica está aí: se ele realmente teve vitiligo, será que precisava ter se descaracterizado da maneira que fez? Por que não conviver com uma doença incurável como milhares de pessoas fazem?

      Não vou entrar no mérito de “fratura” de nariz. Quando se há uma fratura, você faz uma operação para corrigi-la. Não 5, 6, 7!

      Desculpe se minhas palavras vão de frente a sua idolatria ao artista. Mas cá estão nossos pontos de vista.

      Obrigado,
      Flávio

  3. Jorge Zaiba disse:

    Adorei o texto, aliás, estou adorando o blogue. Estou lendo tudo e tudo têm me ajudado muito nessa travessia.
    No final do texto você diz algo que faz muito sentido para mim: ” Escancarar, …, assusta porque jorra daquilo que a gente quer deixar, …, subentendido.”
    Todos querem ser polidos, mas não em demasia. Polir demais apaga o desenho original.
    Abraço
    JZ

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