Criptografia


“Foi na pré-adolescência que tive a oportunidade de saborear o amor mais genuíno, puro e até mesmo heroico. Sei que sou homossexual desde aquela época, 11 ou 12 anos. Trocava mensagens de carinho, de um jeito indecifrável para os outros, só para evitar o flagrante. Mas o meu menino, ah sim, esse sabia traduzir. Falávamos em códigos.

A vida foi dura comigo, logo de início, e nunca entendi direito essa coisa do destino: como uma pena de passarinho que vai com o vento, bem alto, igual a cena do começo e do fim de ‘Forrest Gump’, levou meu menino para longe de mim. Por mais que tivesse meus meios, o céu eu não alcançaria.

Foi chocante, foi a tuberculose. Eu, jovem consciente, não queria que as pessoas soubessem e, assim, engoli a dor para tão fundo de mim que me marcou para sempre. Era uma semente, mas cheia de espinhos.

Poderia ter sofrido violência na escola, os meninos me achavam diferente! Talvez isso me marcasse tanto quanto a distância do meu menino. ‘O homem sente prazer com a dor do outro’ – frase que eu sempre dizia.

Cresci, alcancei meus 27 anos e, na soma mágica de coisas que fazem a gente, me tornei genial. Em 1951 existia muito espaço (ainda) para ser brilhante, principalmente na época em que a guerra mundial escurecia tudo e todos.

Eu iluminava com as minhas ideias, com a minha profissão, mas não me dava conta que a semente do meu menino, virava dentro de mim, uma árvore espaçosa, áspera.

Já não estou mais na Terra e consigo ver tudo por cima. O que aconteceu é que depois, mais adulto, descobriram a minha sexualidade. Naquele tempo me forçaram a tomar remédios para controlar minhas ‘obscenidades’. Era assim mesmo que a sociedade acreditava, que era doença para ser tratada. Mas a doença, na verdade, vinha da cabeça das pessoas e preferi me atirar ao vento. Não suportei. Virei mais uma pena aos 41 anos.

Notando os tempos de hoje, daquilo que eu criei e que outros homens recriaram melhor, me pergunto: ‘por que as pessoas ainda preferem seguir com seus espinhos?’. É possível ser diferente hoje em dia…

No meu tempo, traduzi tantas coisas em prol da vida de milhões. Fiz mesmo, fiz o bem e hoje há o registro. E de lá pra cá, a cabeça das pessoas mudou, a homossexualidade tem muito mais tolerância e existem meios para que qualquer espinho machuque menos. E mesmo assim as pessoas parecem preferir seguir com seus espinhos.

Eis algo que não consegui decifrar até hoje”.

A. T.

6 comentários Adicione o seu

  1. Marcus disse:

    Olá, MVG!

    Acompanho o blog com frequência há 3 meses, gosto do trabalho, não costumo fazer comentários. Não pude resistir a esse a texto, ele me tocou, aí vai minha consideração sobre o assunto.

    Ele era um gênio e nasceu em uma época (e país) que simplesmente ser gay era ilegal. Fez muito por nós e foi impedido de dar continuidade a seu trabalho, terminando sua vida de forma humilhante, deixando para trás, além de um grande legado, uma maçã mordida que todos nós conhecemos.

    Muito do que foi desenvolvido até hoje e me inspirou a ser programador, foi graças a ele. Se eu falar o nome dele perde a graça, mas já dei dicas valiosas para quem estiver interessado.

    Eu sou apaixonado por certos aspectos da computação, então imagina como eu fiquei quando li esse texto (rsrs), fiquei imaginando como as coisas poderiam ser diferentes, se ao menos uma chance fosse concedida, enfim…Esse filme eu não vou perder!

    Continue com esse ótimo trabalho, até!

    1. minhavidagay disse:

      Matou a charada, Marcus! :)

      Agradecido pelo comentário.

  2. Lucas disse:

    Quase acreditei que o texto fosse do próprio, rs , sem ele, as poderosas máquinas que desfrutamos hoje ainda estariam a décadas de distância, e você mesmo MVG teria que esperar bem mais para fazer seu blog, realmente um homem a frente do seu tempo, admirável, como sou químico, sempre procurei saber de outros homens gays na ciência, o que eu não achava comum ler sobre, quando achei esse cara devorei a biografia dele, tomara que o filme faça jus a sua história , continue com as excelentes postagens, elas elucidam bastante coisa, um abraço forte !!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lucas!
      Recomendo o filme. Excelente produção, excelente atuação!

  3. Paulo disse:

    Olha sigo o blog pelo facebook a um tempo e vcs do mvg são grandes quebradores de tabus… Vcs lidam com o universo gay de forma objetiva e muitos que acompanham se enquadram nos textos postados. Agradeço por ter pessoas que entendem os nossos anseios e traduzem de forma tao clara… Parabéns a todos.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Paulo! :D
      Baita elogio!

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