Uma nova semente na família


Filhos. Será que a ideia de filhos passa na cabeça da maioria dos gays?

Afinal, tal tema segue um pouco longe da homonormatividade.

Acontece que ontem nasceu minha sobrinha. Não tinha expectativas de como seria, assunto que deve transitar a mente dos pais prestes ao nascimento. Ainda mais em se tratando de uma boa mistura: do lado da mãe, italianos e portugueses, do lado do pai – meu irmão – descendentes de japoneses 100%, até onde se sabe da história.

Eis que meu irmão, ontem mesmo, minutos depois do nascimento, me ligou e rapidamente enviou uma foto da menina pelo Whatsapp. Surpresa: ao ver aquele semblante, ainda inchado de recém nascido, vi o meu irmão. O vi, vi meu pai e me vi. Um sensação estranhamente boa, emocionante. Naquele instante, minha mente me remeteu a uma conversa que tive com aquela amiga cuja amizade completa 30 anos. Foi algo assim:

– Sabe da minha história meio traumática com os homens. Tentei dois casamentos, naquele esquema tradicional, festa, buffet, igreja, véu e grinalda. Filhos. Todas as minhas amigas estavam casando e era o que eu também queria! O primeiro praticamente me deixou esperando no altar. O segundo pulou fora logo que a ideia surgiu.

– Lembro bem… já tinha recebido até o convite de casamento para o primeiro.

– Pois é. Superei todas essas histórias, deixei de lado a ideia, fiz muita terapia e hoje me tornei uma mulher independente.

– Não tenho dúvidas. Estou para ver uma mulher, ou até mesmo um homem, que tenha coragem de alugar um carro e fazer a Costa Oeste dos EUA em carreira solo.

– Os homens hoje me cansam. São machistas. Qualquer sinal de machismo me irrita e você sabe que eu não meço palavras.

– Sei bem… sei há 30 anos! (rs)

– Minha mãe veio com uma conversa esses dias: “filha, talvez você realmente não case. Mas e filhos? Não pensa em ter? Me preocupo com você… vai viver sozinha”.

– Eu respondi a ela: “Mãe, por que isso agora? Superei dois relacionamentos traumáticos e estou bem!”. E ela disse: “é que você já tem 36 anos. Daqui a pouco não poderá ter mais filhos”.

– Daí falei pra minha mãe: “Olha, se lá pra frente eu não conseguir encontrar ninguém, eu já pensei em falar com o Flávio. Eu teria um filho dele, numa inseminação artificial, sei lá”.

– Olha, é uma ideia… – comentei a ela enquanto me narrava o diálogo com a mãe.

– Mas vamos deixar para quando chegar no seu limite, ok? Porque ainda eu gostaria de viver um pouco mais a minha independência. Filho é um sacerdócio, uma devoção – completei.

– Ah sim… eu quero viajar muito ainda, viver minha independência.

– Então, você teria um filho meu? – perguntei.

– Por que não? Você é uma pessoa decente, a gente se conhece há muito tempo.

– Certo… só vou torcer então para que não puxe o gênio da mãe!

– Ah, vai se fuder, ô!

(risadas gerais).

Filho é algo que já pensei e penso nas seguintes condições: quando tiver, é para ter a maior parte do tempo para acompanhá-lo, acompanhar o crescimento, oferecer educação, transmitir valores e oferecer companheirismo. Não consigo conceber a ideia de “família moderna” deixando o filho para ser educado por uma babá, uma empregada ou enfurnado numa instituiçãozinha, como uma escola. Eis a minha única e exclusiva preocupação quando o assunto é filho: o momento certo para se ter, quando eu tiver tempo para destinar a criança.

Ontem contei essa história para Meu Japinha e a sua reação imediata foi: “nossa, muito legal”. “Muito legal” no sentido de romper completamente com o modelo heteronormativo e as possíveis expectativas que as pessoas (e que até mesmo nós) criamos quando pensamos num rebento. Falei para meu namorado:

– Essa criança poderia ter tranquilamente três pais e uma mãe. Eu, meu companheiro, minha amiga e um possível companheiro dela.

Ele completou:

– Realmente, bem legal essa ideia.

Bem legal, sim, porque se tal ideia plural incomoda ou se recaímos num fatídico pensamento de “mas e essa criança? Como ela vai ser tratada numa situação dessas”, só tenho um parecer: o autopreconceito é ainda internalizado, ou, se acredita muito ainda que o normal é seguir a cartilha. Na prática da vida, depois de uma idade, o que os outros pensam é desculpa.

No final, me ver no semblante da minha sobrinha me faz querer dessas coisas. Filhos.

 

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