Quando relacionamentos gays são referências para casais heterossexuais

O Matheus me enviou uma matéria bem interessante que pintou no Catraca Livre, site de cultura e comportamento, com uma “pegada” bem zen e, porque não dizer alternativa. A reportagem relacionava um grupo de nuances em relacionamentos entre pares gays que serviriam de referência positiva para casais heterossexuais.

Inspirado nesse artigo, resolvi dar um tom MVG para o tema, lembrando um ponto importante: não existem regras absolutas e, se a gente não cuidar, encaixota o gay num punhado de costumes e hábitos, assunto que “brigo” bastante aqui para que homossexualidade não seja apenas a tradução de comportamentos. Falaremos então de algumas possíveis tendências, colocando acima de tudo a multiplicidade que é um indivíduo e que, consequentemente, reverbera entre as partes de um casal:

– Assim como a matéria que inspira esse post, acredito realmente que existe uma abertura maior entre os gays para olhar e comentar sobre homens que parecem bonitos. Não que esse ponto seja de alta relevância para a qualidade de vida de um casal gay, mas a desenvoltura para “brincar” sobre o tema costuma ser comum. Tal tópico não quer dizer que casais héteros não façam também: hoje mesmo estive num parceiro da minha empresa. Os donos são um casal e os conheço há anos. Numa das situações da conversa, o marido comentou sobre determinada mulher, de ser “gata” e etc. A conversa evolui tranquilamente com a esposa ao lado. Mulheres, as vezes, entendem essas posturas como machismo o que, na prática, nem sempre é. Entre casais gays o assunto não costuma entrar nesse mérito;

– O segundo tópico talvez abranja uma realidade mais comum entre casais gays: a amizade se estabelece de uma maneira mais definida (fato é que existe uma recorrência alta de gays que preservam a amizade com ex-namorados depois que terminam). “Erramos” muito em tentar, as vezes, heteronormatizar um relacionamento gay. Mas quando, finalmente, conseguimos tomar consciência que entre dois homens algumas nuances da relação podem tomar outros contornos, a amizade e certa camaradagem são perceptíveis entre gays. É muito difícil ouvir de casais heterossexuais que ambos são amigos. Para falar a verdade, ouço muito de companheirismo, mas não de amizade. E porque não assumir e valorizar a amizade entre o homem e a mulher, mesmo como casal?;

– A ideia de independência e individualidade tem se estabelecido de maneira geral, entre homossexuais e heterossexuais. Tal fluxo é decorrente de certa cultura moderna e líquida, na qual os jovens estão cada vez mais individualizados e – num contexto de relacionamento – não sabem direito a medida para se conciliar independência e comprometimento com o par. Mas passada essa fase juvenil, com acertos e erros durante uma ou muito mais tentativas, costumamos a aprender sobre um denominador comum, ou pelo menos esse tende ser o ideal. Por exemplo: estou namorando com o Meu Japinha. Presencialmente estivemos próximos por um pouco mais de dois meses e o fato é que estamos distantes a maior parte de nosso namoro. Ele está estudando fora do país e deve regressar em maio. Em setembro ou outubro devo desfrutar de uma nova viagem para NYC para reapresentar a cidade a minha mãe (que esteve por lá há mais de duas décadas atrás) e para um amigo. Meu namorado já sabe que as chances dele ir são pequenas pois, individualmente, irá focar suas energias para finalizar os estudos no Brasil e tocar a carreira. Essa viagem, de desfrute a mim e resignação a ele não virou questão em nosso namoro;

– Cartilhas, convenções, modelos e caixinhas sociais não são obrigações para um casal gay. Nesse ponto, lembro muito como aquela minha amiga (de amizade que completa 30 anos) entrou num tipo de obsessão para casar, ter filhos e a casinha, porque suas amigas, em determinada fase, estavam todas entrando no altar. As vezes, parecia buscar um homem para preencher um modelo. Frustrou-se duas vezes. O que quero dizer com esse exemplo é que, para quem ainda não percebeu, essas convenções, não são mais regras rígidas e inevitáveis para se alcançar segurança e felicidade. Com um pouco mais de flexibilidade e atenção, é possível perceber que o mundo de hoje (ou pelo menos em grupos que talvez não sejam os seus) está criando outras possibilidades. Por outro lado, há gays que querem seguir o modelo e a pergunta é: “existe algum problema com isso?”. Claro que não… é totalmente compreensível homens gays idealizarem tal convenção. Basta ver meu amigo Tiago e Michel: ambos devem casar com festa, buffet, padrinhos, padre e tudo que o modelo tradicional tem direito.

Para concluir certa releitura do texto do Catraca Livre, o que de fato acredito é que nem as normas sugeridas acima são regras para casais homossexuais. Existem algumas tendências e probabilidades, de casais gays serem mais “assim” e pares heterossexuais serem mais “assado”. Mas o que de fato existe nos tempos de hoje, doa a quem doer, é a tal liquidez nos relacionamentos, tema de crítica, estudos e análises intermináveis. Nessa liquidez, o que entendo como uma vantagem, é a possibilidade de criarmos ou recriarmos modelos. No final, sofrem mais aqueles que são idealistas individualizados, apegados a valores e que colocam como “certo” um padrão. O cerne hoje, das relações, é a flexibilidade, a consciência de concessões e o comprometimento sobre “pequenos contratos” que um casal estabelece, contratos estes que são íntimos, pessoais e intransferíveis.

 

 

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