Esse teu olhar


Dizem que é na troca de olhar que gays reconhecem gays. Aquele olhar fixo, que tenta desvendar por dentro e que ativa químicos dentro da gente.

Mas mesmo que isso seja apenas um mito ou uma aptidão apenas de alguns, o olhar é poderoso e, quando bem treinado, tem a força de influenciar diversos âmbitos da vida, no trabalho, entre amigos ou entre namorados.

O olhar traduz também a intimidade que as pessoas constróem. A intimidade, as vezes, não precisa do verbo ou de gestos mais expressivos. As pessoas se conhecem o suficiente para que naturalmente criem códigos por intermédio do olhar, que correspondem a ideias, valores, impressões ou opiniões.

Estive falando desse assunto nesse Carnaval com alguns amigos. Me juntei a aqueles que têm preferido passar distante do fervor e do sexismo escancarado dessa época do ano e falamos, nesses dias, sobre o olhar.

Pela experiência que tive em outros países, posso dizer que o brasileiro gosta de olhar. Gays mais ainda, principalmente nos ambientes correspondentes a esse tipo de público, como a Rua Augusta, o Shopping Frei Caneca e a Avenida Paulista, aqui em São Paulo. Nos finais de semana e em feriados como o Carnaval, a maioria está com os olhos atentos, observando o outro, buscando reconhecer um interesse mútuo, fitando em níveis diferentes. Mas uma grande maioria, como é de costume, detém um olhar fugidio no final, daquele que prefere olhar quando o outro não percebe e quando esse outro se dá conta, a tendência é desviar. Timidez? Eu diria que timidez é sintoma de orgulho…

Assim se fazem os jogos de olhar, praticamente a todo momento quando é possível avistar pessoas. A mira muitas vezes invade, o que também é uma assinatura bastante brasileira. Descobrimos assim que um olhar, quando mal dosado, pode ser invasivo.

A verdade é que adoramos esse ato. A verdade é que muito de nós adora também ser visto. Mas uma grande maioria acha que ninguém nos repara ou, quem nos repara, não é quem a gente gostaria.

Estão aí algumas das subjetividades e antagonismos desse ato que poderia ser até uma arte, do olhar.

3 comentários Adicione o seu

  1. Rafa disse:

    prefiro esses seus textos mais “poéticos” do que as bravas de ordem e progresso …

    1. minhavidagay disse:

      rs… Porque talvez ninguém goste de levar bronca ou um chacoalhão, né? Embora as vezes sejam necessários!

  2. Eu passei a ler o blog desde o final do ano de 2014 e tenho achado muito bom, matérias interessantes e discussões que fazem o povo acordar um pouco pra vida. Além dos textos que discutem que sermos gays é apenas o fato de gostarmos sexualmente de outra pessoa do mesmo sexo, adorei este post por justamente apreciar o olhar, e sim o considero como uma arte mesmo ante às suas subjetividades e antagonismos.
    Acredito que com a era das redes sociais, aplicativos entre outros, a prática da paquera ficou condicionada a aplicativos seja qual for e as pessoas deixaram de “olhar” mais para o próximo.
    Sendo aplicada de uma forma singela a arte de “olhar” pode gerar ótimas consequencias, já tive experiências boas e ruins, mas não é por este motivo que a prática do “olhar” seja para paquera ou admiração tenha que ser banida pela tecnologia. Gostaria de ver um post discutindo o assunto “tecnologia vs. ato pessoal” tipo “Quem sabe faz ao vivo” ou alguma coisa do gênero.
    Grande abraço e ótimo trabalho.

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