O que você faria nessa situação?


Pedro, mais novo, estava começando a se aventurar em sua homossexualidade. A princípio conheceu um primeiro rapaz pelo Tinder, quase da mesma idade. Ficaram no cinema, se pegaram um pouco por lá e, assim, Pedro iniciava suas aventuras afetivas na busca de um relacionamento estável. Já não era mais “virgem de boca”.

Não deu certo com esse rapaz, que parecia ser muito infantil e não demorou para Pedro conhecer o Roger, no mesmo aplicativo. Ah, com esse aí parecia que tudo ia dar certo, que ia virar. Roger era mais velho e mais vivido. Morava sozinho, tinha um trabalho cheio de responsabilidades e uma vida mais estável. Pedro começou a lançar todas as suas expectativas nesse menino, ideais potencializados em 24 anos de desejos.

Dividia com um amigo, o Paulo, suas aventuras e experiências.

Paulo, naquele tempo de iniciação de Pedro, tinha acabado de terminar um namoro longo. Foram quase quatro anos e mais um ciclo de muitas experiências formando casal. Era seu quarto relacionamento, desses que contradizem as tendências atuais e que duravam mais de dois anos, no mínimo.

Solteiro, Paulo adorava a sauna porque ele sempre foi de ir direto ao ponto sem vaidades, melindres, pudores ou imagem a zelar. As encenações, carões e máscaras que as pessoas costumam exercer nas baladas o enchiam de preguiça. Paulo dizia assim naquele tempo: “a sauna tem uma virtude incrível que nenhum outro espaço para o público gay tem: de toalha e chinelo não importa cor, credo, idade ou classe social. Todos ficam iguais”.

Foi depois de três semanas de histórias de Pedro com o Roger que os problemas começaram a surgir. Roger, de fato, seguindo certa “tradição moderna”, não estava muito atento as vontades do Pedro. Desdenhava do menino muitas vezes, sem perceber, o que deixava Pedro muito triste, chateado e desiludido. Para Pedro, tudo parecia se encaminhar para algo perfeito, até cair sua ficha e notar que Roger, de fato, era mais um, dentre tantos gays que ele ouvia falar, sem aquela sensibilidade esperada, da atenção, da prestatividade, de uma energia que as pessoas focam ao outro e ao próprio relacionamento quando há o interesse.

Pedro ia confidenciando a Paulo essas “surpresas” e Paulo, na medida de suas experiências, ia ajudando a dar um chão para o amigo.

Pedro havia se entregado tanto para o Roger que acabou descuidando. Enquanto o segundo parecia ser a pessoa certa para os ideais mais românticos, Pedro acabou transando algumas vezes sem camisinha. Como num tipo de castigo ou alerta dos deuses, no afã da entrega, Pedro mal sabia que já incubava uma doença transmitida pelo Roger. Não era a AIDS (graças ao bom Deus), mas era mais uma daquelas de nome feio e de sintomas igualmente assutadores se não tratada em tempo.

Se Pedro mal sabia que já reservava por dentro um “presente” de Roger, imagine então o Paulo que via Pedro começar sua jornada afetiva e sexual tão inocente?

Paulo enxergava Pedro com muitos bons olhos na verdade. Admirou desde o princípio o caráter de Pedro, embora o segundo fosse mais novo e inexperiente. Admirou sua vontade de querer algo sério, seu jeito comunicativo, da positividade e da força de vontade que levava a vida. Tanto admirou que, num sopro quase que encantado, se viu envolvido por Pedro. Depois de quatro meses de amizade, Pedro e Paulo se perceberam apaixonados e tudo aconteceu depois que Pedro se afastou de Roger.

Era uma história que começava mais uma vez recíproca para o Paulo e de reciprocidade inédita para o Pedro!

Até então, para o Paulo, não passava pela cabeça que Pedro havia se descuidado daquele “tamanho”.

Os dois estavam juntos e no mesmo afã da química que se estabelecia, Pedro quis sem camisinha e Paulo, embora tenha refletido no exato momento da penetração, concedeu a transa sem proteção. E assim, muito juntos e em sintonia de propósitos, fizeram sexo sem camisinha por mais de duas, três ou quatro vezes…

Foi aí que, num fluxo óbvio (embora oculto), os sintomas em Pedro começaram a se manifestar. Eram manchas na pele, no corpo todo, principalmente no peito e no abdomen. Era uma certa descamação nas mãos. Eram o mal estar e a dor de cabeça. Coisa boa não era.

Em apenas um mês que ambos estavam juntos, não havia um namoro formalizado, mas havia uma doença fincada entre eles. Curiosamente, Paulo mais experiente, sugeriu a Pedro que ele fizesse exames de DST porque sua intuição já lhe confirmava uma impressão e claro que, naquela situação, seu temor era também ter pegado tal doença:

– Faz então um teste de DST. Estou achando que pode ser sífilis e, se confirmar, eu faço também.

– Ok, vou fazer – confirmou o Pedro com aparente serenidade, mas de fato assustado com a doença e com a possibilidade do Paulo o deixar pelo ocorrido tão constrangedor e, em certa medida, ingênuo e contagioso!

Dito e feito: era a sífilis. Paulo acompanhou Pedro no dia do exame de sangue, na doutora e em duas ou três passagens no pronto socorro para que Pedro fosse devidamente medicado.

Paulo era mais experiente e, por mais que alguns jovens contradigam, a experiência e, consequentemente, a maturidade que vem no pacote, fazem a grande diferença. Claro que Paulo não ficou feliz em saber que havia 80% de chances de estar também sifilítico, principalmente porque no sexo oral as pessoas ficam muito mais suscetíveis a contrair dessas doenças. Ademais, Paulo confiava em Pedro e, até onde as histórias contavam, a “puta” era o Paulo!

Em dois momentos na vida de Paulo, ele havia sido contagiado com a gonorreia, outra maldita sexualmente transmissível, chata para tratar. Curiosamente, não fora nas saunas da vida, mas foram nesses momentos junto com Pedro, queridos leitores, que as vivências de Paulo concederam a ele (e ao próprio Pedro) uma serenidade e uma racionalidade para lidar com a situação. Tal história possivelmente seria diferente se Paulo fosse tão “iniciante” como Pedro.

Paulo foi na mesma médica que Pedro: Pedro estava “sujo” e Paulo, pela mesma interferência divina, limpo. Mas para prevenção, a doutora havia sugerido uma dose de benzetacil para Paulo. Sabem daquelas doloridas que vai direto na bunda e fica ruim para sentar por três dias ou mais? Pois bem… três dias ou mais sem poder sentar direito…

Entre exames, aplicações de remédios e fortes reações físicas dos medicamentos para curar a doença de Pedro, Paulo compareceu. Foram dois ou mais meses.

E Paulo que seria a “vadia da relação” esteve ao lado de Pedro a todo momento.

É para a gente não esquecer que, até onde se sabe, Maria Madalena era puta.

6 comentários Adicione o seu

  1. RPS disse:

    Eu passei por uma situação semelhante, graças a Deus não contraí a sífilis, mas fica a lição para não se entregar ao afã da paixão e só fazer sexo seguro. Foram momentos de medo, tensão, apesar de saber que há tratamento para sífilis, ninguém quer ficar doente. Há um certo achismo de que somos “semelhante aos heróis” ou até mesmo imunes a qualquer tipo de mal, utopia.
    Fica a lição para a vida, melhor aprender na teoria do que na prática.

    1. Kessy Jones disse:

      Com certeza, transava com o meu ex sem preservativo, nas nossas ultimas transas fiquei com algumas suspeitas(Dores Anal,Dificuldade Em Defecar, Dores Na Bexiga) como tento ser honesto, chamei-o para uma conversa e relatei todas as minhas reclamações com o meu corpo, disse tbm que suspeitava que fosse alguma doença “DTS”. Num ato que me surpreendeu, o “desafeto” me desdenho, me julgava e me dizia coisas horríveis, mas contornando a situação, “Desesperadamente por ser eu a sentir os sintomas”, disse claramente que se eu estivesse com alguma doença provavelmente foi passada por ele,já que eu tinha sido fiel a este relacionamento. Fui ao médico, fiz exames, e no resultado graças a Deus era nada, apenas tinha machucado o meu reto anal, depois resolvi dar o fim na relação, e com a experiencia que o momento nao vale a pena, já que depois você mesmo se tornar o Errado. Em questao a ele, nao sei se tem algum tipo de doença, nunca mais o vi.

  2. Ferreira disse:

    Verdade! Muito legal a crônica!!!

  3. Kessy Jones disse:

    Vejo Claramente Que Essa Historia Foi Mais Uma De Tantas Outras. Nem Todo Mundo Tem A Sorte De Paulo, Tanto Em Não Contrair A Bactéria, Quanto Em Não Ser O Virus “HIV”. Isso Serve Mais Como Um Exemplo, Devemos Usar Mais A Razão, Por Que Nem Toda Historia Tem Um Fim Bonito. ” Já Transei Sem camisinha Sim, Me Arrependo, Sou Grato Pela Oportunidade De Estar Limpo, Mas Cometer O Mesmo Erro Não, Depois Que O Amor Acaba E Os Fantasmas Do Medo Te Persegue,Você Sai De Uma Comédia Romantica E Passa A Viver Um Drama Com Direito A Votos No Oscar”. Espero Que Vcs Tbm Tenha A Mesma Sorte.

  4. Muito bom! Mas respondendo a pergunta do que eu faria: Bom, é um caso de paixão, por terem um relacionamento de amizade e envoltos nisso, conseguiram enxergar a química que existiam entre eles, e diante dessa mesma paixão, eu faria a mesma coisa, estando ou não infectado, acompanharia da mesma forma até a conclusão do tratamento.
    As pessoas achando ridículo ou não, a orientação desses centros de exames é ter relacionamento sexual seguro por um período de 06 meses fazendo exames a cada 03 meses para identificar alguma doença.

    1. Kessy Jones disse:

      Mas depois de um susto desses, momento algum é capaz de fazer voce dizer nao!

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