A masculinidade nos gays


No final de semana li um artigo desses portais voltados ao público gay. Se referia, com certo humor debochado, que existem muitos gays por aí que fazem o tipo machão, praticamente “héteros” e sugere que, se o próprio homem heterossexual tem que ficar se policiando quase que a todo momento para evitar as piadinhas de “bichinha”, “viado” e etc, não teria porque um homem gay do tipo machão entrar nessa redoma estreita e apertada.

O texto sugeriu que todos os gays deveriam se soltar mais, incluindo o próprio colunista do portal (com quem já trabalhei tempos atrás, por sinal) que comentou que no passado preferia fazer o tipo macho e odiava, em certa medida, qualquer adjetivo que o colocasse como um gay mais “solto”. Por meio de uma amiga em comum, sabia que ele vendia esse tipo mesmo.

Em certa medida concordei com as ideias do post e realmente me dá uma preguiça alguns machões gays que vivem nessa redoma heteronormativa, principalmente quando o colunista se referiu a essa tendência do “gay macho” se sentir superior aqueles gays que não são.

Mas o artigo me levou a uma reflexão: o buraco é mais em baixo e, como esses portais tendem a ficar na superficialidade da graça, em certo tom de humor, natural não quererem ir mais a fundo.

Eu me considero um gay masculino, mas longe de fazer o tipo machão que tem lá aquele punhado de características imaginárias que formam o estereótipo. Tenho voz grave, que é perceptível na Rádio MVG e, na semana passada, voltei atribulado da rua, entrei na empresa e “cheguei chegando” na produção, embora tranquilo, para saber como andavam os projetos em relação aos prazos:

– E aí, está dando tudo certo com tal projeto?

– Aí, calma… está tudo sob controle! – falou minha assistente logo se sentindo pressionada.

Naquela hora pensei: “mas eu estou calmo. Será que meu tom de voz impõe um certo autoritarismo?”. Tive um insight naquele momento e comentei:

– Mas eu estou calmo. Acho que o problema é a minha voz. Vou fazer um teste agora: vou repetir a mesma frase fazendo voz fina, na mesma entonação e você me diz se a impressão muda.

Daí, lá estava eu brincando:

– E aí, está dando tudo certo com tal projeto? – soltei a frase fazendo falsete mas sem mudar a entonação.

De súbito a sala toda começou a dar risada e, claro, lá estava certa comprovação de que o tom de voz exprimia determinada percepção. Minha assistente logo disse:

– Pelamordedeus! Faz sua voz normal… não precisa fazer assim!

O que quero dizer com isso é que determinadas características não se mudam. Até onde eu sei, em mais de uma década convivendo com gays em São Paulo, em algumas cidades fora da capital paulista e percebendo gays fora do Brasil, os homossexuais que não têm um jeito de “machão” nascem ou adquirem muito cedo certa desenvoltura, jeito de falar e determinados gestos. Por que os tais “machões” seriam diferentes?

Da minha parte posso dizer o seguinte: muito bichinha ou muito machão me incomodam mesmo, o que não quer dizer que não tem meu respeito e minha compreensão sobre a forma natural de ser. Ou seja, ninguém é isso ou aquilo na maneira de se apresentar, se mais solto ou mais travado, porque vestem máscaras para tirar antes da esfoliação facial, trancados no banheiro.

Outro ponto que acho importante e vejo como extremamente influente nessa interminável discussão do gay ser assim ou assado na forma de se apresentar, é um fator cultural: o machismo, um dos estigmas da nossa sociedade, como discutido na entrevista com Ela, influencia diretamente nossa identidade de gênero nos mais diferentes graus, de pessoa para pessoa. Identidade de gênero diz respeito a aparência, a forma de se apresentar e nem sempre tem correlação óbvia e direta com a sexualidade.

Até que provem o contrário, a mim ser afeminado ou ser másculo, tem é muito de naturalidade. Claro que os extremos, que alimentam os estereótipos e compram diretamente essa cultura machista, dão preguiça. Porque tendem a ter a voz da verdade, seja grave ou estridente. Ah sim, e tendem a se excluirem num contexto de superioridade e ego. Ponto para o artigo.

Como minha amiga Ela comentou, determinadas lésbicas se afastam abruptamente da identidade feminina e delicada, justamente por uma cultura machista enraizada em nosso subconsciente. Será que tal ideia não se aplicaria ao homem gay que teme assumir uma identidade do “sexo frágil”?

Nessa superfície do gay feminino ou masculino, de quem tira vantagem ou não, o buraco me parece ser muito mais em baixo.

7 comentários Adicione o seu

  1. João disse:

    Houve um tempo em que eu me preocupava com essa questão de trejeitos, especialmente no que diz respeito à minha voz que é um tanto quanto arrastada. Mas hoje em dia eu meio que me tornei fruto do meio. Meu companheiro sempre me diz que meu nível de “viadagem” varia de acordo com o grupo que eu estou. Mas já escutei de alguns amigos que são mais afeminados e que estão solteiros que a coisa não está fácil pra eles porque, hoje em dia, parece que os gays estão dando preferencia para esse tipo de gay machão. Um deles me disse que só o que se vê nesses apps de encontros é “não sou/não curto afeminados”. Será essa uma nova tendência que chegou pra ficar? Do meu ponto de vista, não tenho problemas com isso. Para mim não importa se o cara dá pinta horrores na rua, desde que ele seja homem na cama.

    1. minhavidagay disse:

      Oi João… bastante interessante seu comentário.

      No meu ponto de vista não quer dizer que esse novo estilo de “gay machão” chegou para ficar. A mim, me parece que esse perfil sempre existiu, mas vivia mais invisível e calado em meio a uma sociedade muito mais preconceituosa.

      A diferença é que, com a tolerância cada vez maior, gays que se enquadram mais na heteronormatividade, resolveram também assumir.

      Me parece que antigamente, aquele que se assumia era apenas o que dava pinta e não teria como se esconder. Hoje, o que não dá pinta não precisa se esconder mais também.

      Assim, assumir nada mais é do que ter voz, aparecer e também ser um interlocutor da classe, o que não quer dizer que os valores sejam sempre os mais sensatos.

      No atual processo em que vivemos, com tudo isso, notamos o quanto o machismo está impregnado em nossa cultural, até mesmo entre gays. Menosprezar gays afeminados em relação aos “machões” não deixa de ter influência desse pensamento depreciativo, de que a figura feminina é mais “fraca” que a masculina (mesmo entre homens).

      Até mesmo quando você fala “(…) não tenho problemas com isso. Pra mim não importa se o cara dá pinta horrores na rua, desde que ele seja homem na cama”, não deixa de ter uma pitada de machismo “homem na cama”, no sentido de mandar bem. De ser macho, viril…

      Quem disse que o homem gay, afeminado ou machão, ou o homem hétero, tem que sempre mandar bem na cama? Não seria uma cobrança de um modelo cultural com forte influência do machismo?

      Taí… estamos cercados…

  2. Ricardo disse:

    MAs pelo oq entendi vc é um machão rs! Olha eu tb faço um discurso de seja oq vc é! Mas no final a maioria quer e admira o machao! Sem hipocrisia.

    1. minhavidagay disse:

      e no final, gays também vivem de uma influência: mais gays machões no mundo, mas gays feministas.

      estamos presos a uma heteronormatividade?

  3. João disse:

    Na verdade a ideia de ter dito “macho na cama” foi mais no sentido de dizer de intensidade e não de obrigatoriamente ter que mandar bem todas as vezes. Um das coisas que mais me agrada no sexo entre homens é exatamente essa intensidade, quase como se fosse a última vez que você estará fazendo sexo. Pelo menos é pra mim pra mim é assim. Como lhe disse eu tenho alguns trejeitos mas, na hora do sexo, eu acabo me transformando quase inconscientemente. Fui criado em uma família matriarcal e penso não estar imbuído de um machismo excessivo. Mas concordo contigo que talvez algumas nuances podem tomar conta de algumas das minhas ações. Me perguntei até quando o gay dito másculo é melhor aceito na sociedade do que aquele que não é e me lembrei de um caso. Meu companheiro tem um sobrinho que também é gay e aos 17 ele estava em uma fase digamos bem afeminada. Meu sogro, que oficialmente não sabe do meu relacionamento com o filho dele ( ou prefere não declarar publicamente), emitiu o seguinte comentário durante uma reunião de família: Porque ele não pode ser igual ao tio e o João? Precisa ficar de viadice o tempo todo?

    Enfim, acho que é um exercício diário esse de se policiar para evitar essas nuances de machismo que às vezes tomam conta de algumas da nossas ações. Dessa forma teremos a possibilidade de estarmos menos cercados.

    1. minhavidagay disse:

      Concordo, João! Suas colocações me inspiraram para um outro post.

  4. Marcos Allan disse:

    Muito interessante esse artigo.
    Não sei se me encaixo no quadro do “gay machão”, na heteronormatividade, nem no dos “afeminados”. O que sou?
    Falo manso, suave, tenho uma postura mais tranquila, longe do “machão-brutamontes”, e naturalmente uma postura mais delicada, o que sempre foi o suficiente para que mais da metade da família, amigos e vizinhos fizessem a famosa pergunta “será que ele é?”. Mas também nunca fui afetado, feminino, “bichinha” (sem preconceitos com o uso dessa expressão). Meu estilo mais moleque, meio crianção, me levou a viver numa espécie de fronteira.
    Depois, com o tempo, para sustentar o meu armário, comecei a embrutecer meus trejeitos. Fiz um esforço boçal para me masculinizar na forma de falar e nos comportamentos rotineiros. Meu armário, do Ipê-rosado passou pro Jacarandá Selvagem. Até consegui, mas me sentia absurdamente artificial.
    E está aí o que realmente me incomoda nessa situação, os esteriótipos, porque eles sempre me parecem ridiculamente artificiais.
    Não gosto mesmo de esteriótipos, como se existisse um padrão normativo de conduta (já vivo isso na minha vida profissional!), no estilo “gays sentam, falam, se comportam dessa forma” ou “nossa, nem parece que você é gay”.
    E, apesar de não ter nenhuma experiência no mundo gay, já percebi que assim como no mundo hétero, as cobranças também são bem exageradas.

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