Gays machões e gays feministas


A gente pode até tentar relutar, buscar uma reinvenção de convenções e modelos. Mas muitos de nós, quase que inconscientes, estamos vinculados a uma cultura heteronormativa.

O post anterior gerou comentários inspiradores sobe essa dicotomia que é tema e cotidiano de tantos gays. Gays afeminados sofrem mais preconceito?

Se sim, qual o por quê?

Questionar o por quê das coisas é hábito de filósofo, como a maioria das crianças faz quando está descobrindo o mundo. Coisas também do MVG.

A mim, a pergunta pode ser respondida de duas maneiras:

1) Com a mentalidade machista em evidência: gays afeminados sofrem mais preconceito, inclusive de gays, porque é estranho (ou feio) ver um homem com jeito de mulher. Traduzindo em miúdos essa maneira simplista de falar, as pessoas ainda se chocam com a identidade de gênero por valores culturais herdados.

Tenho que concordar que a identificação com o gênero se inicia quando somos muito novos, numa correspondência entre o que o mundo apresenta (externo), com aquilo com que nos identificamos (interno). Tem um fator cultural sim, pois é a sociedade que define atos e “coisas” de mulher / atos e “coisas” de homem (externo), mas há uma correspondência inata, de cada indivíduo (interno). É nas trivialidades da vida que o homem julga sem entrar em questionamentos.

2) Com uma mentalidade mais libertadora: ora, se cada indivíduo se afeiçoa a essa ou aquele modo por influências e características inatas, um homem pode ser mais feminino e uma mulher pode ser mais masculina, sem que a identidade de gênero influencie sua sexualidade.

Fato. Embora mais raro, conheço homens heterossexuais mais femininos e mulheres mais masculinas. Muitos desses amigos, homens, não deixam de sofrer um certo preconceito geral, levantando a “lebre” de que possam ser gays. Aliás, até gays duvidam quando um homem é afeminado e diz que não é gay, como se a feminilidade fadasse a pessoa à homossexualidade. As mulheres, claro, passam mais despercebidas porque a própria cultura permite elas serem assim.

Todos esses pensamentos (e outros) me parecem ter um envólucro duro e difícil de quebrar: o machismo, aquele mesmo que tantas mulheres se colocam contra, as vezes de maneira legítima e as vezes tão radicais que passam a ser igualmente machistas.

Dentro dessa bolha de camada dura e espessa, me parece até lógico a existência de gays machões que se sustentam em valores heteronormativos (que inclui o machismo) e gays feministas (que não necessariamente são sempre afeminados).

A “culpa” é de quem nesse caso? Teremos sempre que projetar nosso ódio em nosso oposto contrário? Se eu sou um gay com trejeitos masculinos tenho que culpar o gay feminino por algo negativo da minha condição ou vice-versa? Não, não deveria e quem o faz não deixa de alimentar (exatamente) a mentalidade do tópico 1 desse post, seja qual dos “lados” se encontre.

Algumas pessoas reclamam de um mundo tão binário, mas somos nós mesmos que nos condicionamos culturalmente a isso. Extrapolar o envólucro é bastante difícil e exige de um indivíduo um desapego, uma consciência e certa aptidão para desenvolver um pensamento abstrato.

A esmagadora maioria dos textos que vejo por aí, que tratam desses assuntos sobre gays “machos” e afeminados normalmente são partidários e, consequentemente, buscam sugerir alguma superioridade de um em relação ao outro. Ganham audiência sim porque, também de natureza humana, a gente se sente melhor se algum tipo de formador de opinião ergue a bandeira de glórias e adjetivos positivos para o time o qual (achamos que) pertencemos. Porque a síndrome de baixa autoestima não deixa de ser um problema cultural nacional. Todo mundo pede por um “tapinha no ego”.

Mas do ponto de vista do MVG, embora um ou outro transeunte virtual teime em dizer que o “escritor” aqui puxe sardinha para um lado (ou outro), batalho bastante para desenvolver a minha mentalidade libertadora.

A princípio, não temos nada a ver com a vida do outro e, se determinada característica incomoda, seja a masculinidade de um gay ou a feminilidade, deveríamos abaixar nossos bloqueios e barreiras e, da mesma forma, não achar que todos desses ou daqueles grupos são assim ou assado.

Se for assim, você não deixa de estar rendido às trivialidades competitivas do machismo, enaltecendo uma possível supremacia ou autoafirmando uma não-submissão.

Vá tentar descolar.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. André Galvão disse:

    Esses dias mesmo, postei algo á respeito, na minhá pagina no Face. A sociedade em si, encontra-se fadada as condições impostas á nós… Por mais, que tenhamos pessoas como você (me incluo nesse grupo de “mentalidade libertadora”), infelizmente a cultura do Brasil é retrógrida e por muito esta ultrapassada, vejo alguns sinais de mudança, porém, é um caminho arduo e cheio de obstáculos até chegarmos num patamar onde as pessoas não se importem mais tanto com essa questão em ser homem ou mulher, mais masculino ou feminino!
    Devido a nossa cultura, sim os gays mais femininos e mulheres mais masculinas, tendem sim á sofrer mais preconceitos e julgamentos erroneos, simplesmente por sua forma de ser e agir, o que na minha opinião é totalmente irrelevante, porém, eles acabam ficando mais expostos á isso.
    No meu caso eu sou assumido, para família, amigos enfim, para todos ao meu redor até mesmo no trabalho, e em muitas vezes levanto sim a bandeira, pois, me julgo como Gay, e ao meu ver não tem distinção entre nós (mesmo sabendo que muitos ainda fazem separações).
    Cada um nasce de uma forma, seja gay ou hetero e possuem os seus trejeitos, isso é algo que se vem construindo desde o nascimento, assim como aprendemos a falar…

    Porém, existe um outro ponto que observei que: nós também, temos as nossas preferências no que se diz respeito as nossas preferências, seja com amizades e relacionamentos. Eu no caso sou gay/masculino, porém, tenho grandes amigos que saio com eles e frequentam a minha residências que são mais femininos e em nada me importo com isso, pois, não me vejo melhor que nenhum deles e tão pouco menor, afinal, somos todos iguais. No caso de relacionamento, sim eu tenho a minha preferência, por pessoas parecidas comigo (masculinos), porém, somente por isso não vejo como certa discriminação, e sim apenas uma questão de gosto e meu gosto não foi formado pela sociedade e sim por mim. OK pode-se pensar de certa forma que existe uma contradição “talvez”, como disse não vejo por esse lado, até porque pode ser que um dia eu conheça alguém que seja mais femino e eu venha á ficar e até mesmo namorar, e não verei problema nisso e caso alguém me questione á respeito, simplesmente responderei: E o que você tem com isso? rsrs

    As pessoas na realidade, precisam se preocupar menos com os de fora, e cuidar e se preocupar mais consigo mesmo, porém, é mais divertido olhar o quintal do vizinho do que o próprio!

    Abraços! André

  2. minhavidagay disse:

    Exato André… o final do seu texto traduziu muita coisa: o do outro ou é “melhor” pra gente invejar (ou nos sentirmos inferiorizados) ou é pior, para ser alvo de crítica e nos sentirmos em condições “melhores”.

    O cada um no seu quadrado sempre exige mais… mais cultura, mais educação, mais consciência, mais respeito… mais postura… mais…

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