Arrependa-se daquilo que você faz e não por aquilo que deixou de fazer


Eis um clichê que faz bastante sentido a mim e, por escolha, muitas pessoas optam pela primeira parte, de que, se tiverem que se arrepender de alguma coisa, que seja por decisões ou atitudes tomadas e não por aquilo que se tinham vontade mas acabaram não fazendo.

Mas não são todos que param para pensar sobre isso. Muitas vezes vivemos de possibilidades, “deveria”, “poderia” e “gostaria” e para exemplificar, trago alguns casos próximos, como do meu pai e meu irmão.

Papai se aposentou muito cedo e não buscou fazer mais nada na vida. Com 50 anos poderia seguir com produtividade em sua área, prestando consultorias ou até mesmo criando engenhocas elétricas. Hoje tem mais de 70 anos e foram incontáveis vezes que dos 50 até a idade de hoje, o vi reclamando de ter parado cedo. Um lamento, dois, três ou quatro, mas sempre havia um resmungo, na ponta da língua, para justificar aquele estado de falta de produtividade.

Na maioria das vezes a gente acha que esse tipo de coisa é “coisa da idade”. Discordo e digo que isso tem muito de personalidade e, mais do que isso, de escolhas e jeito de encarar a própria condição, fazendo a minha máxima “nós somos a maneira que enxergamos a própria vida” uma das verdades que me norteiam.

Se fosse a idade, meu irmão que hoje tem somente 35 anos, não repetiria pela terceira vez uma mesma reclamação: “as vezes me arrependo de ter escolhido ser funcionário público”.

A primeira vez que ele veio a mim com esse lamento foi por volta dos 28 anos, se não me falha a memória. Na situação, rolou uma conversa:

– Flá, às vezes me arrependo de ser funcionário público.

– Mas então por que você não larga e começa outra coisa? Me parece tão simples tomar essa escolha…

– Ah, não dá, Flá… tenho um apartamento financiado para manter.

Na segunda vez, com uns 31 anos a conversa veio a mim de novo:

Flá, às vezes me arrependo de ser funcionário público.

– Pois é, você já me disse isso uma vez. Por que não tenta outra coisa?

– Ah, não dá, Flá. Sua futura cunhada veio morar comigo pra gente experimentar viver junto e ano que vem a gente vai casar.

E foi agora que, num final de semana depois do carnaval, quando fui visitar minha sobrinha recém-nascida lá no Rio, acompanhei meu irmão numa caminhada para levar uma de suas cachorras para o banho, quando ele subitamente lamentou:

– Flá, às vezes me arrependo de ser funcionário público.

– Então, é a terceira vez que você mostra essa certa frustração com a carreira. Por que não muda?

– Ah, não dá Flá. Tenho uma filha agora para criar.

Existem e sempre existirão pessoas que irão negativizar ou anular de alguma forma seus próprios desejos. Incrivelmente, também, sempre terão uma justificativa (às vezes plausível, por vezes estapafúrdia) para a retenção das próprias vontades. É como se estivessem à mercê das dificuldades da própria vida, algo como rendidos pelas condições que objetos, cenários, terceiros ou quartos “impõem”, tornando-se alheios à eles mesmos. São algo como vítimas das condições externas que sobrepujam as vontades individuais.

E tal jeito de ser reverbera em diversos aspectos: quando a gente reclama de determinados padrões comportamentais dos gays nos aplicativos e, assim, inventamos um verbo para justificar nossa falta de sucesso, em certa medida assumimos esse estado passivo perante a nossa vontade. É como se o meio ou as pessoas que o frequentam fossem as “erradas”.

Quando a gente já sabe que fulano não nos dá valor, nos menospreza e reduz a relação a algo insignificante e, mesmo assim, a gente não o larga e ainda o privilegia, assumimos o mesmo estado passivo perante a nossa vontade.

Existe um mix de lamento, vitimismo. Parece que tais perfis precisam viver disso e, sem intenções ruins ou propositais, buscam que os outros fiquem passando a mão na cabeça. Em certa medida, se alimentam do consolo do outro, embora o consolo nem sempre venha do jeito que esperam.

Convivo com um pai que, no auge dos 74 anos, é assim praticamente todos os dias. E desculpem os tolos que acham que isso é coisa da idade, pois se fosse o efeito do tempo, não existiriam senhores que servem de referência do oposto.

Não existiria também meu irmão mais novo que, nos tenros 35 anos de vida, tem e terá sempre uma desculpa para justificar sua condição de frustração.

Conviver com ambos, a minha vida toda, me fez aprender que o sentido de amor próprio, a eles, é algo de menor relevância. Sem amor próprio, não há a energia para elevar a autoestima e, com baixa autoestima, as inseguranças e medos para viverem mudanças se tornam muros muito maiores.

Eu fui assim em diversas fases da minha vida. Vim do mesmo caldo cultural familiar e, se dependesse do modelo majoritário, dentro de casa, não seria tão diferente do meu pai, nem do meu irmão.

Mas fazemos escolhas e eu decidi “me jogar” com todos os temores, medos e monstros que habitavam meu imaginário.

Não é à toa que nessa fase de “emancipação mental”, que durou anos, eu e meu pai brigávamos tanto: enquanto ele tentava me empurrar seus temores, eu estava numa luta justamente para me livrar dos mesmos.

O assunto não tange questões do que é melhor ou pior. Mas, como alguém que saiu desse modelo comportamental e cultural (pois tem total conexão com educação e é “inplantado” na gente desde pequeno) entendo que aqueles que estão cansados de serem assim, podem mudar.

O impulso começa assim: primeiro a consciência e depois o querer. Papai e meu irmão não quiseram até agora. Mas querem devorar consolos quando podem, daqueles que em seus imaginários são pessoas que conseguem ser o que eles gostariam.

“Nós somos a maneira que enxergamos a própria vida”.

2 comentários Adicione o seu

  1. nosdalf disse:

    Eu estou com meus vinte e pouco aninhos. Moro em Porto Velho, capital de Rondônia. Saboreando um delicioso tambaqui assado, com direito à arroz, farofa, vinagrete e limãozinho por cima (huuummmm! delícias da gastronomia amazônica!), estou com o meu notebook HP ao lado, publicando estas palavras. Muito obrigado, cara! De verdade! Obrigado por você compartilhar, de forma tão generosa, suas experiências de vida neste espaço! Faz uns 02 anos que eu acompanho o meuvidagay, e você é uma das vozes mais coerentes da blogosfera gay brasileira, com certeza! Em breve, eu pretendo lançar um blog pessoal e fazer grande estardalhaço na internet brasileira, e prometo que não esquecerei das pessoas boas, como você, que tem a coragem de expôr suas opiniões na rede! Eu pretendo fazer um blog basicamente texto, assim como o seu! Não conta pr’a ninguém, tá, mas você foi uma das minhas inspirações! Assim que eu lançá-lo, quero entrevistá-lo! Obrigado! E abraços da região norte!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelas considerações, Nosdalf! :)
      Boa sorte com seu Blog!

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