Então eu respiro


Felicidade não tem apenas um sentido

“A única condição intransponível, hoje, é a de sermos humanos enquanto vivos. No mais, são modelos e convenções que as vezes possuem intersecções e outras vezes são contrários, mas estão aí para serem desvendados e, consequentemente, darmos um sentido para a vida”.

Essa tem sido uma das máximas pela qual minha consciência me faz percorrer nos últimos tempos. Outra que tem conexão direta com esse pensamento é aquela que pincelei em alguns dos posts: “nós somos a maneira que enxergamos a própria vida”.

Rege a lenda que um casal feliz é aquele que se encontra por influências do destino, namoram, preservam a fidelidade, têm filhos e viverão velhos para um cuidar do outro. Assim tem ditado nossa cultura normativa por longos séculos e com uma elevada porção de heteronormatividade.

É como se tal modelo apostólico, católico, romano e romântico, do arquétipo da família, fosse inabalável.

Inabalável para aqueles que entendem assim, já que nós somos a maneira que enxergamos a própria vida. Muitos gays, inclusive, tem esse modelo como o idealizado. Claro, há total legitimidade nesse pensamento e não está aqui um juízo de valor.

Mas será o único caminho para a felicidade?

O fato é que a vida (de outros), desde sempre, tem proporcionado diversos modelos. E antes de lançar reflexões sobre as caixinhas que “conflitam” com esse ideal familiar, não preciso ir muito longe: se tal arquétipo fosse realmente inabalável, o que seria das mulheres, que há décadas atrás, viviam numa condição infinitamente mais restrita em relação aos homens? Um dos lados da caixinha da heteronormatividade teve que ser demolido, o espaço teve que ser ampliado e um novo lado foi construído para que a mulher chegasse ao status que tem hoje. Longe ainda de ser o ideal, mas na luta para a reinvenção da própria caixinha. Tudo isso me leva a crer numa dádiva: a estrutura orgânica que é a própria sociedade, embora – numa visão mais íntima – nos pareça tão rígida.

Nessa mesma linha de raciocínio, agora sim, posso falar dos bissexuais, por exemplo. Sejam eles g0ys ou “macho X macho” (se é que poderia incluí-los na categoria da bissexualidade, mas na ocasião farei desse jeito) vira e mexe sentem um conflito com as normas heterossexuais e, não menos conflituosa, com as regras dos modelos gays que também já tem formas.

Seja por meio da piada debochada ou pelo discurso impositivo e reativo, todos os anos ouvirei de gays (até mais que de heterossexuais) que de alguma maneira tal “categoria” é um absurdo. Absurdo expresso de maneiras diversas.

Teve uma época que eu faria o mesmo, e não faz tanto tempo assim, como há registros aqui no Blog.

Taxamos tais indivíduos como pessoas essencialmente mal resolvidas, como se isso fosse uma máxima da caixinha gay ou como se, realmente, todos os gays fossem bem resolvidos.

Somando os tempos, são 12 anos que faço terapia e a cada nova descoberta fica a consciência de que essa coisa de se resolver é algo para a vida toda. O autoconhecimento, a visão maior sobre a humanidade, são buscas que dão sentido para a própria vida.

Volto a falar do apego às coisas que nos confortam. Na mesmíssima medida que é reconfortante para algumas famílias acharem que não há um filho gay entre eles (modelo heteronormativo), é confortabilíssimo para a maioria dos gays colocar tais bissexuais num vão dos “mentalmente problemáticos”. A priori, julgamos sob o vértice da sexualidade cegamente, e descartamos qualquer sugestão da boa conduta, do esforço como indivíduo e da nobreza da personalidade em outros âmbitos. Em certa medida, filhos gays estão para a família assim como outras categorias estão para os gays.

Tendemos e tenderemos a sempre descartar, negar ou ridicularizar tudo aquilo que parece contradizer o chão das nossas próprias caixinhas.

É como se esses elementos estranhos (gays na “família margarina” e tipos de bissexuais na “família gay”) ofuscassem a nossa reputação, ou melhor, a reputação do modelo construído, acreditado, “inabalável”.

Assim, o gay que é apegado (seja idealmente ou materialmente) ao modelo heteronormativo e, por ser gay, tende a ser muito mais reativo a qualquer nuance que sinalize fora da zona de conforto, sofre mais, repudia mais aqueles que não seguem determinadas regras. A tendência é querer sufocar esses elementos. Curiosamente, o homofóbico faz a mesmíssima coisa, lembrando que a rejeição começa na mente.

Muitas vezes somos seres contraditórios e, mais uma vez, esse post serve como viés, numa tentativa de abstração dos julgamentos que, usualmente, interessam apenas aos nossos umbigos. Lembrando de novo que, no meu sincero ponto de vista, há legitimidade em todas essas e outras percepções, ditadas pelo livre arbítrio de nossas escolhas e pela maneira que entendemos a vida.

Estou expondo a minha, hoje com 38 anos, alguém que já depositou muita alegria (autoafirmativa) nas famílias de namorados. Era intensamente bom ser aceito nos núcleos familiares como gay e repeti tal experiência mais de cinco vezes. Hoje, sinceramente, tanto faz porque a minha busca não permeia mais esses sentidos. Já é algo conquistado, vivido múltiplas vezes, mas nem por isso tiro a legitimidade daqueles que procuram se alimentar dessas experiências. Acontece, somente e simplesmente, que dessas experiências eu me fartei, o que não quer dizer que não as vivo. Apenas as coloco num patamar de menor representatividade.

Não poderia deixar de finalizar o texto citando algo que já vem como manifesto em minha mente faz algum tempo, mais de um ano talvez. Algo que para as convenções heteronormativas e para alguns gays (principalmente aqueles que não viveram 15 anos de vida ativa homo) é notado com vistas grossas pois esbarra, de novo, nos fundamentos dessas caixinhas que nos impregnam desde o primeiro respiro. Me refiro ao relacionamento aberto consensual, algo que falo com total naturalidade, livre de possíveis culpas ou julgamentos. Algo que tenho compreendido de uma maneira diferente, diferente inclusive de potenciais frustrações, traumas e desilusões acumuladas que acometem tantos gays a experimentarem essa outra caixinha. Me sinto motivado a isso num processo de evolução pessoal que, bem ou mal, para desconforto ou tranquilidade de alguns leitores, é uma continuidade instigadora e desafiadora da minha própria vivência. Que está sim aberta às críticas negativas de alguns leitores na medida que as exponho e na medida que os mesmos idealizam o escritor do Blog, mas que ao mesmo tempo me sinto protegido e resguardado pela lealdade aos meus sentimentos.

Eu já disse e há quem diga ainda que temos que nos controlar de nossos instintos do homem primata. Que essa coisa de relacionamento aberto só serve para alimentar o ser rudimentar, sexual e animal dentro do homem. Mas aí coloco em questão também o ponto oposto: não seria tão rudimentar e primal como o senso de família que vem, tão originalmente como, da necessidade de preservação do grupo e da perpetuação da espécie, instintos igualmente legítimos de nossos ancestrais? A natureza até hoje apresenta tais comportamentos primais: manadas de elefantes, ninho de abelhas, etc.

Pois bem, a desculpa básica é a mesma para ambos os casos. A diferença é que o homem heteronormativo e seus seguidores (heterossexuais ou não) jogam uma luz branca e abençoada no conceito de família, principalmente em solo latino, cuja religiosidade Cristã reforça tais pensamentos.

Ainda, filosoficamente, família não seria também um consolo meio que óbvio para um futuro mais leve diante da velhice, solidão e morte? Será que todos são obrigatoriamente levados a temer esse Trio de Dementadores?!

Mais uma vez, não tiro a legitimidade do valor familiar. Mas repensar o arquétipo, em tempos como hoje, a mim se faz necessário se quisermos dar mais de uma solução às nossas dificuldades para nos relacionar. A sociedade líquida é esta, vigente, e não adianta permanecer apenas no resmungo.

Onde fica o amor em todos esses contextos? Eis a pergunta que talvez só Deus saberia responder. Mas acreditar que “amor verdadeiro” só se emana da família ou dos modelos heteronormativos não deixa de ser uma miopia, fruto também daqueles que não querem enxergar que amor pode transitar nas mais diversas caixinhas, que o amor transcende as condições seguidas confortavelmente por uma maioria.

Relaxem e gozem. É possível respirar outros ares. Mas para isso é crucial sair de uma das maiores zonas de conforto estabelecidas pelo homem: a heteronormatividade.

PS: não posso deixar de citar que o MVG não visa enaltecer modelos corruptos, tais quais a pedofilia, o incesto ou a necrofilia. Essas “modalidades”, no meu ponto de vista, transitam em outras esferas, principalmente quando uma parte se utiliza de abuso de poder perante o outro, o que a mim é a real cusparada contra a ética fundamental e atira para longe a legitimidade dos relacionamentos . É bom deixar registrado.

1 comentário Adicione o seu

  1. Sabe, ainda estou nas condições confortáveis da heteronormatividade. No meu consciente e seja por ter um conforto na velhice ou mesmo atual, acredito e tenho a vontade do casamento, filhos e uma vida tranquila (meio sonho essa última rs).
    Quando falamos de sair da caixinha, respeito e admiro o seu pensamento sobre relacionamento aberto, mas isso ainda precisa evoluir no meu subconsciente, não que eu julgue ou ache errado, mas atualmente não se encaixa ou não entra na caixinha das escolhas que tenho feito para mim.
    O fato é que hoje sou solteiro, à procura de alguém e talvez por isso ainda não me permiti respirar novos ares neste quesito, mas outro fato e inicialmente o motivo do meu comentário é parabenizar o seu trabalho e a forma de expor o que vive e pensa sem ofender ninguém e mesmo que não aceite, respeitando cada ser humano na sua forma de ser enquanto vivos.

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