Terços e temperos


Estive hoje com um dos amigos que conheci pelo MVG e diga-se de passagem, o mais “velho”, mas que costumo dizer que, apesar desse fato, é o que tem o espírito mais adolescente quando os assuntos são relacionamentos afetivos.

Meu amigo se aproxima dos 50 anos e começou sua jornada de relacionamentos gays faz um pouco mais de doze meses. É alguém que teve uma base religiosa Cristã muito presente e acredita, com bastante convicção, nos valores que o Catolicismo transmite quando o assunto é relacionamento.

Nosso encontro hoje foi bastante representativo: faz uma semana que findei um namoro e estou com fortes perspectivas de rever os modelos que há mais de uma década deram os contornos aos meus relacionamentos. Um tanto normativos, como os leitores mais assíduos já puderam conferir em passagens e textos (inspiradores, a quem procura) aqui no Blog MVG. Por outro lado, meu amigo Fernando, está apenas começando sua jornada de “relacionamento ideal”, o mesmo que pude exercer por anos e anos e que serviram, inclusive, de referências a ele.

Fernando bem sabe, não só como leitor do MVG, mas também como amigo, que ideologicamente meus anseios e perspectivas sobre relacionamentos conflitam atualmente com os dele. Mas o mais interessante – que inclusive confirma a civilidade e o respeito tanto em falta entre as pessoas que pensam diferente hoje em dia -, é que dividimos nossa atenção, um ao outro, algumas horas apresentando pontos de vista, mostrando nossas discordâncias e, nem por isso, configuraram-se “bandidos e mocinhos”. Tal situação é bastante provável quando – no caso – pessoas com os meus ideais de relacionamento aberto ou multiplicidade de pares “agridem” a moral das pessoas cuja cultura normativa prevalece. Tem gente que repudia sim e não são minhas palavras “bem escritas” que fariam essas mudarem de ideia.

Meu amigo Fernando, finalmente, viu um raio de luz no “pântano” (palavra utilizada por ele mesmo) que se encontrava. Conheceu um novo rapaz pelos meios tecnológicos modernos (de nossa sociedade líquida), mas cujos interesses, invariavelmente, o inspiram a ideais mais tradicionais. O amigo objetiva legitimamente (e acho importantíssimo isso estar assumido) um namoro duradouro, quiçá um casamento e um companheiro para toda vida, seguindo os valores mais íntegros e fiéis ditados, porque não, pela heteronormatividade.

Tal qual um adolescente de 18 anos, ainda inseguro e com algumas questões de autoestima para resolver, não conseguiu largar uma paixonite (um traste, um parasita e tais julgamentos se fazem valer com unanimidade perante nossos amigos em comum) até ver tal luz num outro menino. Pulou de um galho para o outro.

Disse assim:

– Flávio, sabe… parece que eu finalmente me desprendi de um anzol que estava preso.

– Sim… e como muitos jovens fazem hoje, você precisou de um outro bonito para desencantar da ameba. Na verdade, Fernando, tudo que você projetava de ideais em alguém que, evidentemente, desdenhava da sua boa fé, se materializou numa nova referência. Mas veja bem, hein, pega leve! Não vai querer casar com o rapaz em uma semana…

– Eu sei, Flávio, eu sei… estou com dois pés atrás agora. Mas vou te dizer que a brincadeira que fizemos ontem no carro foi fantástica!

– Que bom, Fernando. Vai levando então sem criar expectativas.

– A gente vai se encontrar hoje. Você conhece um bom motel?

– Olha… faz mais de 10 anos que eu não preciso de motel, Fernando. Sei que na Raposo Tavares tem um monte de opção…

– Um monte de opção, Flávio?! Me dá um nome!

– Ahahah… vamos ver no Google então porque eu não lembro…

Na medida que oferecia ao meu amigo a minha visão de relacionamentos, como o percebia ao se relacionar e quais de suas próprias manias poderiam “entornar o caldo”, meu amigo oferecia sua atenção para a minha realidade atual:

– É engraçado, Fernando… faz uma semana que terminei meu namoro de maneira consensual, cordial e, ao máximo, sem orgulhos feridos e crises existenciais. Até o momento não fiz nada, nada de nada para ir atrás de meus ideais. Vivo o luto, mesmo que com menos apego. Mas existem certas coincidências que chegam a impressionar: lembra do menino bissexual que eu pegava as vezes antes do meu namoro?

– Sim, sim… lembro.

– Pois é… fui jogar tênis hoje bem cedo e quando espiei meu celular, depois da aula, estava lá uma mensagem dele. Não falo com ele há mais de 10 meses e, exatamente agora, ele resolveu dar um “oi” para saber como andam as coisas. Lembro bem que as situações que vivi com esse menino foram uma primeira “pontinha” para minhas sensações de relacionamento aberto…

– Pois é Flávio… tem coincidências que parecem sinais mesmo. Lembra que eu comentei que os terços que eu dava para o ameba sempre arrebentavam?

– Lembro… que tem?

– Comprei um último pra ele e dei de presente faz alguns meses. Um bem resistente que sabia que não estouraria facilmente. Acredita que ele me mandou mensagem, dizendo que arrebentou, bem no dia que eu conheci o outro menino?

– Pois é, Fernando… esses sinais são bastante representativos. Acho que a maiora das pessoas não presta atenção nisso…

Enquanto um sugeria a simbologia de um objeto religioso, outro notava o retorno inesperado daquele que representava algo bem longe de terços. Por um lado, um adolescente de 50 anos vibrava, finalmente, por uma independência emocional de seu primeiro caso passado e mal resolvido, um amigo cheio de expectativas por um namoro sério, duradouro e “eterno” representado (ou não) por um novo menino. Por outro, o “vivido” de 38 anos, de milhares de referências vindas de tais relacionamentos duradouros, especulava sobre múltiplas formas de se relacionar.

Se a vida fosse de meras convenções, tempero faltaria.

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Acredito que, primeiramente se busca um modelo convencional de relacionamento mas depois que se percebe que é diferente o contexto de namoro hétero e namoro gay, esse ideal vai aos poucos tendo que ser repensado, revisto e aí que deve estar o relacionamento aberto, onde as pessoas ficam mas à vontade para se descobrirem, provarem as coisas e talvez, de repente, sem querer, chegar onde queriam no início.
    Isso é um grande dilema, Liberdade x Segurança, e realmente não sei como se resolve; pelo lado da Segurança, o sujeito é fiel, quer algo estável e de repente o relacionamento faz água e a pessoa fica depressiva, revoltada; já pelo lado da Liberdade você fica com alguém, gosta mas nunca tem certeza de nada, o cara pode estar pegando tantos outros…

    1. minhavidagay disse:

      Exato, Le Beadle. É por isso que a mente e tais percepções devem estar muito bem ajustadas. Antigamente eu vivia esse conflito, da segurança e da liberdade.

      Não acho que a maneira que percebo as relações hoje é uma consequência óbvia é única para todos os gays.

      O que sei é que modelos e padrões se desgastam. E quando isso acontece, não quer dizer que o caminhou findou, mas que outros virão. Porém, quanto mais apegados somos à determinados ideais, mais enxergamos um único caminho.

      Ideal deixa de ser ideal a medida que vivemos, na prática, as diversas experiências. Só a vivência individual e a bagagem que cada um leva são capazes de transcender certas dualidades.

      Cheguei num momento da vida que onde você diz “segurança” eu poderia sugerir “apego”. Onde você diz “liberdade” eu diria “desprendimento”.

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