Day by day

A melhor das hipóteses para saber que a gente superou um ex-namorado, no sincero ponto de vista do MVG, não é quando não se tem mais raiva, muito menos quando se tem algo como uma indiferença. Sentimentos desses, de fato, não deixam de ser consequências do orgulho ferido. Tais feridas, pelos ideais que não se realizaram, pela perda daquilo que aparentemente se tinha o controle e pela frustração de algo não ter dado certo, do jeito como gostaríamos, são legitimamente humanas e, o que nos dignifica no final, é como lidaremos com as mesmas para, de fato, cicatrizá-las.

O que é socialmente normativo, criado culturalmente, é a ideia do ex bom que é morto. Porque é também humano preferir deixar aquilo que é difícil de resolver, morrer. Nosso ego, salvo raras exceções, não suporta a ideia do “ex-vivo”, compartilhando outras histórias, convivendo com outras pessoas e experienciando outras realidades que nos substituem ou substituem a rotina de convívio enquanto namorados. Para relacionamentos que findam, a maioria das pessoas exalta o egoismo. Em maior ou menor grau, assumimos um namoro junto com uma bagagem de posse e quando perdemos o ser querido, preferimos acreditar que ele evaporou da face da Terra porque imaginar que o ex está se virando bem sem a gente pode ser massacrante.

O Japinha, meu ex-namorado, vive seu processo de desapego e não me sinto mal (ou vigarista) por estar em “etapas” mais avançadas de superação. Perdemos o ritmo naturalmente o que não faz nenhuma das partes ser vilão ou vítima. Se Deus quiser chegaremos num novo momento, onde uma amizade presencial e leal poderá dar prosseguimento a tudo que nós caminhamos até hoje. Isso é um tipo de fé e nada mais posso fazer para que esse ideal se realize.

Escrevi até aqui para chegar ao meu ex, anterior ao Japinha. A minha relação com o Beto, hoje, pode ser o cúmulo para aqueles que acreditam na cremação dos ex-namorados. Mas agora que estou solteiro e ele também, e diferentemente da mentalidade normativa (a maior desculpa) de que ex-namorados sempre têm a chance de voltar (me digam em dedos contados quantos casos realmente conhecemos), compartilho com o Beto suas desventuras íntimas, suas preferências atuais por fisionomias, corpos, pintos, orifícios, acertos e perrengues que essa vida solteira ativa proporciona às pessoas (ou gays, no caso) que se “arriscam” fora da própria concha, de casa, dos aplicativos e das telas.

Natural falarmos desses assuntos, eu numa busca de entrar numa vibe do tipo. O fato é que passou tanto tempo que terminamos e aceitamos com desapego e consciência nossas substituições que, quando o vejo, não enxergo mais o ex-namorado. Enxergo apenas uma pessoa, muito íntima, que torço para ser feliz e, na medida do possível, estamos lá para compartilhar acertos e cagadas. A lealdade, acima de qualquer outro valor, se manteve intacto.

Um outro amigo Beto disse assim por esses dias:

– No dia do seu aniversário reparei que vocês mantêm alguns códigos por olhar, do tipo, conversam entre si sem precisar dizer.

– Natural, Betildo… foram praticamente 4 anos e essas sutilezas devem ficar por bastante tempo ainda. Tais conexões só deixam de existir caso um dos dois mude muito.

Com essa sintonia natural conquistada pelos anos de intimidade, inevitável, qualquer assunto entre nós é benvindo, incluindo as conversas de todos aqueles que obviamente nos substituem hoje.

Meu ex mostrava algumas fotos dos carinhas que ele andava pegando. Embora bonitos, poucos me despertaram o sexy appeal. Não pude ter a tal da “inveja branca”, mas para meu consolo, imaginar que tais fisionomias são possivelmente semelhantes ao meu perfil, encheram levemente o meu ego numa fase que, solteiro de novo, preciso relembrar do meu sentido de atraência para o outro.

Numa dessas furtividades, ele dispara:

– Ai, Flá… descuidei… depois de você e do fulano, transei uma vez só sem camisinha, recentemente… e peguei um troço aqui! Me fudi!

– Vai no infectologista, Beto! Faz exame de sangue para as DST’s e não descuida. Pelos sintomas parece gonorreia…

– Pois é… minha “prima número 15” disse que parece sintoma disso mesmo.

– É, pelo que você me fala, parece mesmo… sua prima 15 é médica, ela manja.

Pode ser arrogante dizer isso, mas amplificar o amor que um dia foi de namorados para uma amizade de alta intimidade, tem muito de altruismo, sim, cujo benefício mútuo e exclusivo continua sendo meu e do Beto.

Inevitavelmente, todos nós seguimos padrões comportamentais ditados pela sociedade, assumimos reações involuntárias, sem ao menos pensar a respeito: hoje estava jantando na padaria perto de casa, quando o chapeiro mudou da Globo para outro canal na hora que ia começar a tal da Babilônia. Um dos homens que estava no balcão, bem próximo a mim, soltou um resmungo:

– Essa merda de novela, cheia de putaria e viadagem…

Em seu repertório cultural é tão normal tratar as “putarias e viadagens” com tal inconformismo agressivo, que mal passou pela sua cabeça a hipótese do vizinho ao lado ser gay e nem sequer parou para refletir se o chapeiro, que trata todos bem inclusive os evidentes gays que frequentam a padoca, tinha a mesma percepção de rejeição. A mim, era um resmungo, de um dia cansativo e estressante expressos em sua fisionomia e na maneira que devorava a sua comida.

Refletir sobre nossas atitudes, frutos de percepções e sentidos involuntários, aparentemente, pode tirar a nossa naturalidade. Mas as vezes, quando não fazemos, nos deixa burros, numa inércia cultural puramente individualista.

“Não quero me fazer de vítima”, mas já sendo, o problema é seu. O que posso fazer é esse texto.

4 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    É bem verdadeiro isso de querer anular o outro da própria vida, acreditar que a vida dele não está bem porque a gente saiu dela, mas vejo isso de outra forma, afinal há pessoas tão legais que vale a pena “ficar amigos sem rancor”, pessoas que tem condições de ir além com a gente apesar do fim do namoro, MVG, acredito também que a análise ajuda muito nisso, pois a gente passa a ficar mais consciente do lado obscuro das nossas ações, afastando-nos um pouco do Narciso que há em cada um de nós, o que acha ?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Le Beadle, costumo dizer que todo mundo deveria fazer terapia e marketing. Terapia para dar uma organizada na vida pessoal. Marketing para que o lado profissional seja aprimorado.

      Abraço!

  2. Renan disse:

    Acredito Eu, Que o amor verdadeiro nasce entre a amizade, Pois, ambos se conhecem bem. Também acredito que, Se dois amigos que tiveram um relacionamento e ambos se amaram muito e por algum motivo terminaram o relacionamento, concerteza podem ser amigos sem rancor (ou algo do tipo).. Pois sempre compartilharam tudo juntos. E o Respeito é fundamental. sempre é (rs) …

  3. Leandro disse:

    Vou ser bem sinceiro: eu nem posso falar de ex, pq nunca cheguei a ter um ex de verdade. Nunca cheguei a namorar sério e tenho pouquíssimas esperanças de conseguir isso a curto prazo. Não sou lindo, não sou sarado, não sou estiloso, então minhas chances de conseguir namoro são ínfimas. Até consegui alguns peguetes, mas nenhum deles prosperou para algo sério. O meu último ficante era meu amigo, e acabamos tendo um rolo, mas quando eu quis namorar sério, ele recusou. Fiquei mto frustrado e triste com isso e o clima entre a gente acabou ficando meio tenso. Depois, passei por alguns perrengues, perdi uma parente próxima, e ele nem sequer foi capaz de dizer uma palavra de apoio pra mim! Fiquei tão puto com a frieza e a insensibilidade desse FDP que cortei papo com ele na hora! Hj em dia, eu sou da seguinte opinião: não irei atrás de mais ninguém, todas as vezes que tomei (ou tentei tomar) alguma iniciativa, eu só me ferrei, então quem me quiser, que venha até mim! Eu vou agora é cuidar de mim e de minha carreira, já que homem não me traz felicidade e nem me enche a barriga!

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