Nos bailes da vida


Conheci recentemente um menino, 27 anos e, embora de passagem fugaz, tive algumas identificações imediatas. Anterior a essa idade, com uns 23 anos se sentia um nerd (“alma” que ainda mantém pelos gostos por animes, filmes característicos, mais caseiro e de essência preguiçosa a baladas). Parte disso eu tenho em mim.

Nessa idade anterior, ele era magrelo, “corcunda” e definitivamente se achava feio, coisa que ainda está resignificando pela maneira em que se tratava quando se apresentou. De fato, o menino que conheci era lindo. Apesar de baixo, 1,68m (o que ele definia como “ser um Hobbit”) apresentava um rosto bonito, jovial, corpo musculoso e definido e tatuagens bem colocadas, estampadas numa pele branca que só fortaleciam ainda mais seu sexy appeal.

– Não me preocupo em lidar com o Frodo.

– Não… prefiro o Pippin.

– Ok, então é o Pippin.

– Belê.

Fiquei imaginando, levemente encantado, quais seriam os estímulos e incentivos que aquele menino teve para transformar-se do “magrelo, conrcunda e feio” numa pessoa que definitivamente chamava a atenção. Tive meu tempo dessa mesma metamorfose também e privilégio meu por ele ter puxado a conversa, o que reforçou um importante momento da minha vida, de (bem ou mal) estar me sentindo realmente bonito.

O rapaz estava há seis meses solteiro, de um namoro que durou nada mais, nada menos de seis anos. Primeiro e único relacionamento que havia começado aos 21 anos e que perdurava até bem pouco tempo atrás. Pela minha experiência, tinha total certeza de que seis anos não se curariam em seis meses e logo o assunto fluiu assim:

– É, o meu ex, dois anos mais velho do que eu, já vinha dizendo pra mim que tinha vontade de conhecer outros caras.

– Entendo… sei bem o que é essa necessidade, principalmente sendo a única referência de namoro que vocês tiveram. E como você ficou com isso?

– Ah, eu sou sossegado… a gente já vinha conversando. Sou bem tranquilo mesmo.

O fato é que diante daquela aparente tranquilidade, reservava em si uma frustração por “ter sido trocado” pelos “caras” que o ex queria ficar. Seis meses, definitivamente, ainda não tinha curado o término.

Logo que nos aproximamos, me abordou cheio de um discurso de “pegador putão”. Minha intuição, a velha e boa, ou a minha experiência dizia que alguma coisa parecia forçada. O que aparentemente vinha de uma tentativa de fast-foda, do sexo pelo sexo, foi enveredando para assuntos mais triviais, de vida, gostos, estilos e expectativas. Naturalmente e, não demorou para aquela máscara de “putonildo” transformar-se em algo muito mais humano:

– Sabe que não é comum a gente humanizar tanto a nossa conversa pelos meios que nos conhecemos, né? – comentei para ver se ele entendia o nível do meu discurso.

– Ah é… o esquema aqui é de “sex machine”.

Fui notando que o rapaz ainda estava “perdido”, vivendo um conflito entre duas “facetas” dele mesmo. O “puto”, talvez sob algum estímulo até mesmo do ex-namorado e/ou de fantasias de como ele deveria se forçar naquele contexto, denunciando certo amadorismo. E o “nerd”, remanescente.

O fato é que fui surpreendido. Aquele menino me ajudou a traduzir emoções que venho sentido, num certo conflito entre o meu “eu puto” e “meu eu nerd”. Por um lado, da loucura, do sexo pelo sexo, do ímpeto e de certa libertinagem. Por outro, do caseiro, algo como romântico e do envolvimento processual. Ambos eram ele, ambos sou eu.

O Pippin certamente seria um prato cheio para aquelas paixões que grudam: lindo, corpo todo certo e um espelho de partes em evidência hoje, dentro de mim. A identificação foi instantânea, embora a elaboração venha apenas agora, no MVG.

Mas com 38 anos e como mamãe bem disse recentemente, existem calos de vida que não deixam a gente escorregar de novo: o belo jovem ainda estava vinculado ao ex-namorado. Não era um tipo de história que gostaria de entrar de novo.

Mas fora incrível me entender um pouco por intermédio dele. O gostinho de quero mais talvez seja o bálsamo ao que, ao léu, pode vir. Se vier.

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Leandro disse:

    Nossa, agora quem se identificou sou eu! A pessoa descrita é do mesmo jeito que eu: tem estilo meio nerd, curte anime, não gosta de balada, é caseiro, tem papo cabeça, é meio corcunda, magrelo (atualmente nem tanto, desenvolvi nos últimos meses uma leve “pança” que tá me tirando o juízo!). Poxa, que ótimo q ele evoluiu a ponto de se tornar um cara atraente. Tô tentando trilhar o mesmo caminho: em breve, espero estar passando por uma mudança radical em meu visual, mas, do jeito q eu andei descuidado nos últimos anos, eu acho que vai levar um bom tempo (só pra vc ter uma ideia, eu precisaria nesse momento de uma consultoria de moda, com personal stylist e shoper inclusos, sessões de fonoaudiologia e fisioterapia, consultar uma nutricionista e entrar numa academia).
    Eu gostaria de ter começado isso bem antes, mas no momento, eu prefiro lutar por ascender financeiramente primeiro e depois, dar um trato geral, do que fazer as coisas aos poucos, correndo o risco de passar aperto depois. Sem contar que teve tbm a questão ideológica: passei um bom tempo me rebelando contra “o sistema”, mas já cheguei à conclusão de que não adianta ficar a vida toda nadando contra a maré: vou viver eternamente estressado, e não vou conseguir realizar alguns de meus sonhos e fantasias.
    Eu tbm guardo essa dualidade: tenho o lado romântico/ingênuo e o lado puto. Gosto muito dos dois. O lado puto levanta minha auto-estima e me faz sentir atraente, coisa bastante rara pra mim (diferente da maioria dos gays, eu tenho um longo histórico de baixa auto-estima e insegurança exacerbada). No entanto, minha maior frustração nesse momento é nunca ter podido mostrar totalmente meu lado romântico. Infelizmente, não tive a sorte de engatar um namoro! Nem de 6 anos, nem de 6 meses, nem de 6 dias! heheheheheehehe. E nas atuais contingências em que eu me encontro, vai ser dificílimo conseguir isso a curto prazo. Fazer o q, né? Agora é cuidar de mim, conseguir a aprovação no concurso q eu tanto desejo, fazer meu extreme makeover e, quem sabe, eu não consiga minha alma gêmea antes dos 30? Tô torcendo!

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