A leviandade de Yuki


Yuki, um mestiço de 27 anos, de pai descendente de japonês e mãe descendente de alemães e negros, foi um dos primeiros que saiu de um chamado no Grindr para meu WhatsApp. Na obviedade do “modelão” do aplicativo de pegação, a intenção inicial era o sexo pelo sexo. Mas entre conversas e outras, a dança (ou vibe, ou energia trocada), foi seguindo por caminhos diferentes. Diferentes dentro de mim.

Nunca o vi pessoalmente, mas em trocas de textos e telefonemas, parece que ele se tornou meu irmão mais novo, algo bastante fraternal, assexual. Não é bem assim por parte dele, que vira e mexe investe em me mandar fotos de seu bumbum torneado (bumbum mesmo, porque tem caras que têm “bunda”, outros têm “cú” e outros têm “bumbum”), mas a regra que conheço impera: “o que um não quer dois não fazem”. Inicialmente a ideia era fast-foda, mas pra mim hoje é outra coisa, do lance do “irmão” como sugeri.

Poderia tê-lo colocado nesse lugar pelo fato de ter descoberto que ele namora. Mas quem acompanha o Blog MVG sabe que isso não seria motivo suficiente para eu brochar, feito o Luiz, bissexual que namora uma menina.

Existe uma adorável subjetividade (palavrinha que tenho usado bastante nesses tempos) em cada conversa trocada com as pessoas dos aplicativos. Cada contato tende a formar uma “dança” diferente (embora o imediatismo inicial geral seja o sexual) e apesar da distância física (de metros ou quilômetros) as intenções acabam tomando contornos diferentes. Pelo menos a mim, que não estou despesperado para namorar, não estou querendo afogar as mágoas de um relacionamento anterior mal resolvido, não estou aflito por estar sozinho, já resolvi qualquer acúmulo de libido na Chilli Peppers e levo uma vontade bastante saudável de conhecer, de novo, “o mundo que é cada um que se presta a fazer alguma troca comigo”.

O menino é cantor como hobbie, trabalha desde novo no aeroporto de Guarulhos, já tem casa própria e um passado recente, de morte súbita de pai e mãe, que me encheu de um profundo respeito, pela maneira que aparentemente lidou com a situação tão destrutiva. Admiro pessoas “viradoras” e o Yuki é uma delas. Mas ele, em específico, entrou num lugar dentro de mim que não tange o sexual.

Nos últimos dias deixei isso claro a ele e, numa (aparente) mesma medida, ele quer se dispor a isso. Diz que, apesar de sentir desejos por mim, me entende e gosta de compartilhar sua vida comigo.

Tenho que assumir uma coisa, sem arrogância e sem querer esnobar: talvez por eu ser uma pessoa bastante aberta (diferente dos estereótipos nipônicos) as pessoas vão se sentindo a vontade para dividir suas intimidades. Taí a natureza do próprio MVG para comprovar. Assim, num contato mais direto, a abertura flui muito mais rapidamente (dependendo de cada pessoa, claro) e no caso do Yuki, vem esse sentimento sem vontade de sexo, nem beijo, mas certamente o abraço.

Poderiam pensar: “ah, mas esse MVG é um babaca. O menino tá dando mole e ele vem com esse papinho de irmão?” – pois é, mas convenhamos que tratar todo mundo que me interessa como um pedaço de carne e só, é bem mais prático, rápido e garantido numa Chilli Peppers da vida (quem já adentrou poderá atestar).

O Yuki tem passado por um momento bastante debatido no MVG: namora com o Japa faz três anos (um tempo considerável), não frequentam o meio gay, são super fechados à relação, trabalham juntos, mas o bicho – seu japonês -, não manda bem na cama desde sempre. Yuki projeta em mim fantasias e expectativas de que eu seja uma “super máquina” e se dispõe a dar seus pulinhos comigo (e com um outro que já realizou).

Quando ele abriu seu jogo, logo falei:

– Olha Leandro, eu nem conseguiria te julgar negativamente a respeito da situação. Mas não seria melhor conversar com seu namorado pra ver se vocês não tentam opções, como abrir a relação? Pelo que você vem me contando, espontaneamente, existe muito amor, afeto e companheirismo entre vocês.

– É… eu sei… mas ele não está preparado para isso.

– Ele ou você?

E toda vez que o menino traz sua história pra mim, levanto a mesma questão.

Durante todos meus namoros, enquanto acreditava que a monogamia seria um mar-de-rosas para todo sempre, pular a cerca não era opção, o que fazia o pilar da fidelidade ser uma base rigorosa e sempre revisada. Exaustiva até. Não conseguiria, nem consigo condenar o menino, pois já estive em sua situação algumas vezes, embora não tivesse chegado a vias de fato justamente por depositar muita energia na própria fidelidade e no compromisso. Em outras palavras, me mantive íntegro, mas sei o quanto é complicado e difícil não ter uma mesma atração por alguém de longo convívio e, ao mesmo tempo, sentir conscientemente a influência dos anos vividos, do companheirismo, da amizade, da afetividade, do amor e do carinho que são emoções importantes num relacionamento mas, por vezes, distintas do desejo sexual.

É FODA. Dessa grandeza.

O que posso dizer é que, se depender somente de mim, o garoto – entre diabruras, fantasias e uma certa leviandade para lidar com seus próprios fatos -, terá certa mentoria misturada à amizade. Mas só, o que a mim me parece um mundo. O meu mundo com leves intersecções ao dele.

Sorry, Yuki. No sex.

6 comentários Adicione o seu

  1. SAMUEL disse:

    Só uma pergunta.. e nao é ima critica, ok.

    prq seu “contatos” são sempre com homens bem mais jovens que vc?
    nao consegue se “relacionar” com adultos da sua idade ou mais velhos?
    ou é mais aquela tara de “poder sobre o mais jovem”?

    1. minhavidagay disse:

      Boa pergunta, Samuel.

      Algo que levo para minha terapeuta há anos.

      “Poder sobre mais jovens” é uma colocação interessante. Mesmo porque mesmo numa fast-foda há uma troca. Não vejo poder. Tampouco me sinto um “daddy boy” que fica financiando ou enchendo namorados ou paqueras de regalias. Pelo contrário, viso pessoas que busquem correr atrás do seu com independência.

      O que posso dizer é que existe uma atração por pessoas mais jovens. E convenhamos também que 27 anos não é mais bebê. Embora hajam 40tões infantis e meninos de 20 muito mais amadurecidos.

      Num devaneio, agora que você me perguntou, quanto mais velhos mais fechados a padrões e modelos ficamos. E como você pode notar, se tem acompanhado outros textos do blog, tenho uma personalidade que transita em modelos diferentes, sem sofrer.

      Lido com muitos jovens no trabalho, integrantes da equipe, e normalmente com mais velhos e da minha idade, clientes e parceiros.

      É isso. Não tenho uma resposta objetiva ainda e talvez, como trato na terapia há anos, é algo da minha natureza que eu poderia efetivamente mudar se atrapalhasse meu crescimento. Sejam novos, sejam velhos, sempre temos algo a aprender com pessoas.

      Respondido? Rs

      Abraço!

  2. Rogério disse:

    Primeiramente, parabéns pelo Blog!
    Engraçado como me identifico ao ler alguns de seus relatos, e ultimamente tenho me identificado um pouco mais, principalmente pela sua atual “fase”.
    Transito pela fase de ter todos os aplicativos instalados, excluir todos até desintoxicar, retornar, bem como, excluir a lista de todos os contatos adquiridos.
    Conversando com um amigo recentemente nos deparamos com a seguinte questão e gostaria de sua opinião sobre,

    – Há salvação para a “nossa” putaria?

    Coloco o nossa entre aspas fazendo referência aos diversos aplicativos, visto que após algumas idas e vindas aos aplicativos, me deparo muitas vezes com as mesmas pessoas e que alguns inclusive cheguei a teclar, de modo que o papo seria mais de cunho sentimental ao sexual, pois no fundo toda puta carece de acolhimento, afeto e companheirismo. (É da natureza humana essa necessidade, né!)
    Digo as putas dos apps, claro. Não as pessoas que cobram pelo uso do próprio corpo. E sim, os gays masculinos insaciáveis e que ofertam de graça mesmo.
    É deles que eu mais gosto. Com quem me divirto. Rio e choro na mesma proporção. Pois a diversão e a dor são inimigas intimas, e não se largam.
    Mas, no fundo, mesmo que em bando, parece que todos permanecem solitários em suas “tentativas inúteis, mas tão sinceras de acertar, de fazer do melhor jeito” (Caio Fernando Abreu).
    A solidão não larga uma puta. Eu que o diga. O tempo muda o olhar para a realidade dos fatos. É inevitável. Mas até que ponto se muda efetivamente?

    Abraços!

    1. minhavidagay disse:

      Comentário muito rico para o MVG, Rogério. Começo agradecendo!

      Como você pode notar, se estiver lendo os demais textos, entrei na caixinha da putona, mas sei sair dela. Talvez eu seja uma pessoa apropriada para te aconselhar.

      Você já soube amar? Não da paixão que nos cega, que é sexo, desejo, compulsão e vício. Mas da serenidade, do companheirismo, de não precisar quantificar pessoas, corpos, apresentar fotos para amigos ou colecionar a si como se fossem troféus? Do sentimento de continuidade, de alguém para contar que tira um pouco do sentido da individualidade? Que nos aquieta? Que nos tira dos extremos exaustivos?

      É possível amar desse jeito, mas a dúvida é: você quer? Parece ter graça a falta de intensidade em detrimento a construção em par? Ou apenas lhe parece “fofo”, gostosinho mas muito morno?

      Você não deixa de estar na sua zona de conforto, no seu modelo cujas etapas são todas previstas. Se você se sente preenchido assim, não há problemas. Mas se toda vez lhe falta algo, dando um vazio no domingo que não se realiza e requer rapidamente uma foda para se sentir mais feliz, talvez seja o momento de pensar que o “fofo” mereça entrar na sua vida.

      O jogo do sexo é viciante, concordo. E por consequência gera uma abstinência quando se tenta sair do hábito.

      Mas vou te dizer que não há sentido de plenitude maior de poder viver isso, mas poder viver um relacionamento com autonomia. Ter controle de si, dos próprios impulsos. Isso sim nos completa. Do contrário, estar refém de apenas um vértice da vida, compulsiva, é apenas metade.

      Até que ponto você quer efetivamente mudar, amigo?

      Até o ponto que você mesmo se permite a se encantar pelo outro lado? Quem dera que os “lados” soubessem exercitar mais a própria autonomia! Você é refém de suas escolhas, assim como aqueles que são rigorosos demais com um modelo “moral, apostólico romano”.

      Um abraço,
      MVG

  3. emilio disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

    Achei muito interessante as diferentes terminologias para aquela parte bem interessante da anatomia masculina

    A pergunta que não quer calar : qual a diferença, na sua definição, entre bunda, bumbum e cu ? ;-P

    Abraços !!!!!!!!!!

    1. minhavidagay disse:

      Que bom que alguém perguntou, ahahah. Tem gay que mostra a bunda, aquela coisa masculina, às vezes peluda e sempre meio discreta ou meio tímida. Tem gay que mostra o bumbum, super torneado, quase feminino, normalmente arrebitado e liso e, por fim, tem gay que já arregaça e mostra direto o “olho”, no desejo mais fast-foda da putada!

      É isso, ahahah.

      Abraços!

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