Teoria quântica 2

A vivência no centro

A música do Lulu Santos diz assim e tocou no carro logo depois que segui sozinho para minha casa, como um prenúncio a esse post:

“Quis evitar teus olhos mas não pude reagir. Fico à vontade então. Acho que é bobagem a mania de fingir, negando a intenção. Quando um certo alguém cruzou o teu caminho e te mudou a direção (…) Chego a ficar sem jeito, mas não deixo de seguir a tua aparição. Quando um certo alguém desperta o sentimento é melhor não resistir e se entregar”.

Ainda recorrente ao post “Teoria quântica“, quem vive nos extremos, do obcecado por namorar ou do compulsivo por sexo, não se permite a entrar na fluidez inspiradora composta pelo Lulu.

“Fico à vontade então” – para o obcecado por namorar, ficar à vontade é até um contrasenso. Entra na obsessão ou ansiedade de querer se garantir o quanto antes, esperando que o outro manifeste um desejo tão forte senão maior, as vezes, como se tivéssemos o dom da medida ou gradação do envolvimento afetivo. Não existe termômetro para isso. Por outro lado, o compulsivo por sexo é fechado para qualquer encantamento “dos olhos dos outros que nos tira a reação”. Tende a suprimir qualquer intenção afetiva para não ter que abrir a parte sentimental para o outro. Bem ou mal, a notória superficialidade carnal nos isenta de qualquer exposição emocional. E, realmente, funciona para quem está fechado.

É importante atentar: muitos obcecados por namorar podem mal interpretar os trechos dessa música, achando que estão vivendo uma situação do tipo. O obcecado por namorar, normalmente, espera a entrega ou a revelação da parte do preterido, o que põe por terra o sentido da letra. A composição deixa bem claro que, somos nós, em primeira pessoa, que devemos manifestar a entrega. Nesse ponto, acho que é bastante pertinente eu salientar um lance aqui, difícil de entender para a maioria das pessoas que vivem os polos, pois estão (altamente) centrados em seus egos: o sentimento a mais que adquirimos por uma pessoa, nessa arte dos encontros, não deve esperar – de imediato – algo em troca. Em certa medida, temos que erguer as mãos para os céus e dar graças a Deus por nos colocarmos numa posição que favorece sentir algo em especial para com um outro que pinta em nossas vidas. Em outras palavras, o preterido não é responsável pelas nossas emoções, embora seja ele o objeto que ativa certos sentimentos superiores. Taí, a mim, o verdadeiro sentido de “se entregar”. É se lançar mesmo, sem ficar tão noiado ou preocupado com a negativa.

Exemplo: antes de eu namorar um de meus “ex” eu levei uns 10 gelos por ele viver suas indecisões, inseguranças e seus caprichos. Ele nem curtia japoneses! Mas eu não queria muito saber o quanto (olha o termômetro aí) ele estava envolvido por mim. Não teria como dimensionar! Lancei a minha maneira tudo o que eu andava sentindo por ele, sem ter que ficar tentando resguardar meu ego. Tal postura é assumir um risco de frustrar? Claro, e sempre será nas mais diversas circunstâncias. Mas a gente precisa ligar um belo de um foda-se e tomar como princípio que, no máximo, levaremos uma bota. E daí? E daí que, queridos leitores, o “não” faz parte das naturais tentativas de ir além com alguém. Quem não aceita um “não”, tem evidentemente um ego inflado (por inúmeros pretextos pessoais) e dificilmente conseguirá sair do prefácio de uma história afetiva.

Daí na sequência vem a ideia, que vale a pena repetir:

“Sabe… as cores dos apps, dos boys, das baladas, das loucuras da noite me completavam até agora e sei como poderão me completar amanhã ou depois. Mas de repente te conheci por um desses mesmos meios e, pelo movimento da emoção diferente que você tem despertado em mim, tudo que estava colorido até agora parece perder a intensidade, começa a deixar de ter graça e, você, passa a ganhar uma cor diferente. Tem uma força que não controlo que me faz querer te conhecer melhor. Posso?”.

Tal parágrafo retirado do post anterior é, basicamente, a manifestação (em primeira pessoa) do trecho da música do Lulu.

As pessoas que se permitem caminhar ao centro da teoria (e sim, é uma permissão, sobre um sincero desprendimento de fantasmas, culpas, desilusões e traumas do passado) conseguem entrar nessa frequência. Aceitam a condição de autores da vida, criam situações e desconectam-se da postura de “ego fragilizado” (do obcecado por namorar), ou de “ego gelado” (do compulsivo por sexo). Lembrando que ambos os extremos são praticamente iguais: centrados no ego.

Costumo dizer que sexo, hoje em dia, não faz mais parte do contexto de intimidade. Ficar pelado na frente do outro, avaliar o físico e transar anda muito fácil, seja no universo heterossexual ou gay. Intimidade hoje, pra mim, é representado, por exemplo, com a simbologia do “dormir junto”.

Dormir junto, literalmente, humaniza a relação e, humanizar, é algo que não acontece com quem está apegado aos polos extremos (por um lado, porque o obcecado por namorar vê um “príncipe” do outro lado, imagem que arranca qualquer humanidade e, por outro, o compulsivo por sexo está tão hermético, evitando a exposição de suas próprias sentimentalidades, que trata o outro como objeto funcional para sexo).

No ato de dormir junto, o cara pode roncar ou ter uma respiração esquisita. Pode soltar uns peidos involuntários ou falar durante a noite. Pode se mexer muito e roubar espaço da cama ou ficar parado como se estivesse “morto”. Pode querer usar o banheiro no meio da madrugada ou ir ao mesmo recinto três vezes antes de deitar. Você, a mesmíssima coisa.

Para humanizar mais ainda, tem a hora de acordar: cara amassada, cabelo desgrenhado, ramela no olho e, sim, o inevitável bafo. Fora para quem acredita na parte de energia ou espiritualidade que, embarcar no sono numa mesma cama, é uma troca imponderável.

– E aí, gatão, gostou do seu final de semana junto comigo?

Para quem tenta se estabelecer ao centro da teoria, vale muito mais a vibração que estimula a fazer essa pergunta do que propriamente a resposta.

No mais, para finalizar o segundo e último post sobre a minha “Teoria Quântica” vale frisar algumas ideias: precisamos aprender a nos entregar mais para a naturalidade dos encontros ou para Deus; viver o aqui e o agora sem a pretensão de ter um controle do outro ou de si, como é tão comum para quem vive nos extremos. Desdenhar ou idolatrar os polos nos afasta da humanidade do outro e da nossa própria humanidade. Dá para viver assim? Claro que dá e, como no primeiro post da teoria, não estou entrando no juízo de valor do que é certo ou errado, bom ou mau, mesmo porque eu já transitei algumas vezes nos meus polos.

“Eu não quero evitar seus olhos, algo que – convenhamos -, é praticamente impossível de se fazer. O jeito é me render a esse momento, sem querer fingir, sem querer negar a intenção, embora a minha direção apontasse para outros pensamentos. Fico sem jeito, embora não aparente. Taí a expressão do meu sentimento, sem medo do que será amanhã, mas feliz por tê-lo assim, do jeito que tem sido hoje para mim”.

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