Pai gay, irmão gay e eu também


Sandro, leitor que tem se tornado bastante participativo por aqui, enviou seu relato um tanto peculiar, embora imagino que haja muitos casos parecidos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, fortalecendo a ideia da diversidade sexual e de como ser gay atinge esferas muito diferentes da normatividade. Assunto ótimo para mexer no calo de certos moralistas e de enriquecer a visão daqueles que estão se permitindo a enxergar um pouco além do próprio umbigo:

“Gostaria de contar um pouco sobre minha história. (provavelmente “um milhão” de caras fazem a mesma coisa, rs).

Tenho 36 anos de vida e sou assumido há apenas três anos! Nunca casei ou morei junto com alguma mulher, apesar de ter namorado algumas e quase ter noivado. O mais engraçado é que desejo por homens ♂ sempre tive, desde a minha adolescência. Porém, como todo bom muleke, rs, criado solto na rua, jogava bola, empinava pipa, pião e etc.

Na minha cabeça durante a juventude, gay era aquela pessoa que assumia, virava travesti e morria de AIDS! Na vila onde morava tinha dois travestis, então cresci ouvindo isso e por um tempo acreditei nisso.

Como era todo masculino e gostava de transar com mulheres (era satisfatório, não prazeroso e muitas vezes gostaria de estar no lugar dela) não aceitava isso, como pode, eu ser VIADO!

Então as coisas começaram a mudar: quando meu irmão mais novo com apenas dezessete anos se assumiu, veio aquele choque na família tradicional brasileira, rs. Eu gostei da situação. Fui eu que descobri e entreguei para os meus pais; entenda não sou maldoso, só não queria ver meu irmão virar travesti e morrer de AIDS! No entanto a coisa mais maravilhosa aconteceu: ele não virou travesti, rs, e família começou a aceitar, claro, sem antes meu pai trazer a igreja toda para dentro de casa. Como eu detestava igreja foi um verdadeiro saco, rs.

Com o tempo meu irmão foi aceito e o namorado dele também. Pensei: “tenho aí a grande chance de me assumir e finalmente viver em paz comigo”.

Doce engano. Antes de mim, meu pai, tradicional homem de família, resolveu sair do armário e acabar com trinta anos de um casamento falido. Foi aquele pandemônio na tradicional família brasileira, rs. Depois de um tempo, ele e a minha mãe acertaram os ponteiros e hoje são os melhores amigos, ele namorando um rapaz e ela fazendo plásticas, silicone, academia e viajando. Tudo ficou tão bem resolvido que por várias vezes tivemos almoços em casa com minha mãe, meu irmão e seu namorado e meu pai com o namorado dele e a sua sogra. Minha mãe e o namorado do meu pai são amigos. E ninguém virou travesti, rs.

Porém eu estava mais perdido do que nunca. De repente, numa colocação muito errada, eu acabei sendo chamado de “o último macho da casa”. Meus tios sempre perguntando por namoradas ou comentando sobre a atual ser mais bonita que a anterior. Minha mãe, mesmo que inconscientemente, falava: “só o San vai me dar um neto”.

Putz, que pressão!

Tinha tudo para sair do armário dando saltos de alegria, porém sem tomar consciência acabei virando refém, de ser o HT DA CASA.

Com isso virei um cara chato, briguento, fiquei sete anos sem namorar e três anos sem transar! Resultado, um câncer testicular aos vinte e sete anos . Raspagem e radioterapia.

Curado, melhorei como pessoa, em todos os aspectos. Só faltava assumir e ser feliz de vez. Porém não tinha coragem, ficava vivendo de romances rápidos, baladas e bares tudo HT. Resultado de reprimir este sentimento: novo câncer aos trinta e três anos e desta vez um dos testículos foi amputado e entrei na quimioterapia, meses de tratamento. Fiquei curado e, com ajuda de uma psicóloga, consegui finalmente me assumir!

A família a altura do campeonato já não era assim mais tão tradicional brasileira, rs.

Assustou pois ninguém imaginava que eu era gay. Então começou um novo calvário: até hoje três assumidos, um ano vivendo as loucuras das noites gays e os incontáveis romances de uma noite, típico da vida gay. E agora, dois anos namorando firme e forte, um relacionamento sério e saudável, embora ainda escute “o San não é gay, está apenas traumatizado por ter perdido um testículo”.

Afinal, perto dos HT sempre pareci gay, bem arrumado, perfumado, gosto por filmes cabeça, mas passava despercebido por causa das várias namoradas. Perto dos gays pareço HT, de gostar de futebol, games e principalmente quando tento ser bem bicha (rs) parece que estou tirando onda. Não fico tentando fazer autoafirmação gay como eu tentei como HT. Simplesmente vivo minha vida com meu namorado, pai, cunhado, irmão, “madrasta” (rs) em alguma balada (finalmente GLS).

No entanto, não posso deixar de pensar em algo engraçado, quando reunimos toda a minha família moderna brasileira para um almoço: eu junto do meu namorado, meu irmão com o seu namorado, meu pai com o seu namorado e sogra e a minha mãe. Eu penso: “TODOS AQUI NESTA MESA GOSTAM DE ROLA!”. E eu também não virei travesti, rs.

Essa é a minha vida gay”.

8 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Flávio

    Muito obrigado pelo espaço.

    Abraços e sucesso.

  2. minhavidagay disse:

    Valeu, Sandro!
    Obrigado pela história tão peculiar. Ótimo para servir de referência para quem passa pelo MVG! :)

  3. Jorge disse:

    Sandro você tem certeza que sua mãe não é lésbica? Por que com uma família dessas eu suspeitaria de todo mundo, rs.

  4. Sandro Bonassa disse:

    Jorge, costumo dizer que ela é a única errada da casa, rs.
    E que qualquer dia vou apresentar uma amiga caminhoneira para ela.

    Ela é namoradeira, rs, teve uma vez que estávamos no carro e ao parar no semáforo, um boy parado ao lado começou a olhar e fazer charme.
    Pensei, estou arrasando, de repente o boy fala ” oi Vera, tudo bem ?”.
    Minha mãe olhou, respondeu um sim, o farol abriu o boy vazou, e eu fiquei com cara de bobo.
    Perguntei, mãe você conhece de onde?
    Do clube, sai com ele duas vezes, mais é muito chiclete, tô fora!

    Pensei, caramba pegando geral, rs.

  5. acho que tem ainda muta coisa pra contar, desta familia , mas porem creio que e´uma consequencia de tempo e pessoal entre familia.

  6. Marco disse:

    PQP !!
    hahahaha

    uma vez fiquei com ex seminarista, cujo o pai virou pastor evangélico depois que sua mae se assumiu lesbica … mas isso !
    Isso parece enredo de seriado indie kkkkk

  7. Sandro Bonassa disse:

    José, realmente temos muita história para contar, não somos os únicos gays da família, um primo de primeiro grau por parte de mãe e outro por parte de pa.
    Uma tia da minha mãe, já falecida era lésbica.
    E tenho quase certeza que um primo de segundo grau é gay.

    Marcos, realmente é enredo de série da HBO.RS.

    Como hoje não tem mais o fantasma da hipocrisia religiosa por perto é possível manter contato com todos.

  8. Que história incrível!!!! Peculiar é o mínimo.

    Mostra o quão diverso é o nosso mundo.

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