Out of the box


Lealdade, cumplicidade, companheirismo, amizade e, porque não o amor, expressão que abarca tudo isso, independem das convenções. Me sinto livre ao pensar assim e, não somente pensar, mas sentir de fatos consumados que a maioria das escolhas íntimas de cada um não corrompe a integridade de ninguém.

Acontece que ainda resiste um moralismo filosófico e religioso, num eterno conflito entre “o bem e o mal”, ditado inclusive por certos homens que se acham no direito de manter alguma ordem. Mas que ordem é essa, no momento em que a mesma concede certos privilégios a grupos, excluindo muitos dos indivíduos que não transitam nas tradições, mas que pagam igualmente suas contas, constróem seus vínculos de amizade, desenvolvem a relação familiar, assumem seus deveres profissionais e obrigações e possuem igualmente os mesmos direitos? Questiono esse moralismo, o mesmo que em certas épocas medievais ateou fogo aos bruxos. O mesmo que proibia qualquer mulher a andar livremente de biquini em determinada época. O mesmo que, por conceder determinados privilégios a alguns, mantinha e ainda mantém a figura feminina num patamar de submissão, ou que enforcaria Leonardo da Vinci se ele não tivesse certo rabo preso com as altas hierariquias de sua geração.

Minha mãe, ela mesma, disse recentemente ter visto um documentário sobre o Japão antigo e, na surdina da história que a convenção não quer expor, os guerreiros que iam a frente de batalha praticavam sexo entre si em orgias intensas.

Por um lado, a sociedade está mais líquida e tal termo vem com uma energia pejorativa. Por outro, a noto com menos amarras para que o indivíduo possa explorar a si e ao outro que tenha a mesma vontade. As vontades são as mais diversas e, não havendo abuso de poder em detrimento à inconsciência do outro, não havendo o estupro, por que não? Respeitemos a individualidade cada vez mais plural.

Conversa recente com meu ex Beto, muito amigo e íntimo hoje:

– Tive umas experiências sexuais bastante diferentes…

– Ah, é, Beto? De que tipo?

– “Chuva de ouro”, tapas fortes na cara e enforcamento (rs)…

– Mas em você?!

– Não, não… os caras pediram para eu fazer neles e eu fiz… foi o que apareceu pra mim de mais diferente (rs).

– Olha, vou te falar que desde que te conheci, minha intuição me dizia que você precisava desvendar muito do sexo. Coisas que inclusive o nosso namoro não abarcaria pois estaria além do que eu entenderia como instigante ou excitante. E veja que interessante: para mim não aparecem “convites” desse tipo, mas tais situações se materializaram a você. Você sabe que eu acredito bastante no lance de energia… a gente é como um imã e atrai aquilo que a gente quer, mesmo que inconsciente. Nada é por acaso…

– Pois é… foram apenas experiências. Nenhuma delas eu quero levar para a minha vida. Mas achei interessante.

– É muito legal, na verdade. Faz parte do desvendar e do descobrir que você procura. E veja só: você está aí, inteiro, batalhando pela sua empresa, conquistando diversos clientes, sendo a mesma pessoa para a sua enorme família (rs) e tendo a autonomia de conversar sobre isso numa boa comigo.

(…)

Pelas andanças da vida, pelos contatos realizados com o Blog e os diversos relatos obtidos por aqui, descobri que sou o penúltimo ou o último a julgar as preferências sexuais das pessoas hoje. Tem sido uma emancipação intelectual gradual. Bem ou mal, a inclusão da homossexualidade na cartilha normativa, de sua moral filosófica e religiosa, é precedente para que as mais diversas nuances de relações possam sair das “sombras”. Bem ou mal, a medida que o gay caminha a um lugar ao Sol, com o mesmo espledor que a heteronormatividade revela, outras variantes ganham a mesma vontade.

Retomando a conversa com a minha Cunha, não é curioso pensar que seu pai que – em comum acordo com a madrasta -, preferiu estar casado mas em casas separadas (bastante fora da convenção), tem um gay como seu melhor amigo? Apenas uma “coincidência” a ser registrada…

Sinto em desapontar alguns dos leitores, mas diante da tradição que sempre impôs “a verdade”, foram primeiro as bruxas, depois Leonardo da Vinci e sua trupe, as feministas e, talvez, agora os gays, que estão colaborando (ao meu ver positivamente) por uma “libertação sexual”. Há quem diga que o mundo irá acabar devido a esses movimentos, ou que tais movimentos sejam os sinais do “fim dos tempos”.

Eu sinto o contrário: estamos cada vez mais nos afastando de certa ganância primal, do interesse de poucos, dos “macacos espertos”, resignificando o sentido de ordem, para que a sociedade e principalmente o indivíduo seja mais feliz e livre. O que está acabando mesmo é o moralismo filosófico e religioso. Religioso? Ora, natural eles alegarem que estamos próximos do juízo final!

Lealdade, cumplicidade, companheirismo, amizade e, porque não o amor, simbologia que abarca tudo isso, independem das convenções. Disse assim o filho de Deus usando outras palavras. Mas foi o “macaco esperto” que tomou posse para se dar privilégios. Graças ao mesmo Deus estamos nos permitindo a fazer cada vez mais diferente. Fazendo do jeito que nos faz feliz.

Out of the box. Now and forever.

2 comentários Adicione o seu

  1. Marcelo disse:

    Oi, MVG. Queria te pedir uma dica, conselho, enfim. Acompanho seu blog há um tempo e talvez tu consiga dar uma luz para o caso. É o seguinte. Estou num relacionamento estável há cerca de três anos e tenho um carinho muito grande pelo meu namorado. Eu realmente o respeito muito e tento fazer de tudo para vê-lo feliz. O problema é que de uns meses pra cá nosso relacionamento não está legal. Começamos a ter brigas mais frequentes e discordamos em tudo, tanto questões pequenas como assuntos importantes. Além disso, quando ele fica de cabeça quente, ele me xinga, o que acho muita falta de respeito. Em uma situação específica ele chegou a ameaçar, numa mensagem de texto, bater em mim, ameaça que revidei de imediato. A frequência sexual também diminuiu bastante, ficamos muitos meses sem sexo, ele tem se preocupado cada vez menos com a forma física, o que contribuiu para eu perder o tesão. Ou seja, está uma mer**. Hoje não vejo qualquer perspectiva de no futuro eu e ele morarmos juntos, por exemplo, que foi algo que já cheguei a cogitar por um período. Pra piorar, após uma briga particularmente difícil, instalei um daqueles apps de relacionamento gay. E comecei a bater papo com um cara desde então, conversa que tem rendido mais do que o que eu imaginava. Confesso que às vezes me pego fantasiando sobre começar um relacionamento com esse outro cara, que nem conheço pessoalmente. Por outro lado, me sinto muito culpado, porque mesmo sem ter conhecido o cara do app pessoalmente, sei que de algum modo já traí a confiança do meu namorado. Somado a tudo isso, admito que tenho muito medo de ficar sozinho, porque qndo comecei o relacionamento atual vim de mudança para a cidade do meu namorado. Ou seja, não conheço quase ninguém aqui, praticamente só a família e os amigos dele. E também tenho medo da reação que ele possa ter, porque sinto que apesar de tudo ele é muito apegado a mim. E sei que, qndo não estamos brigados, temos muito carinho um com o outro. Enfim, tem sido muito difícil lidar com tudo isso. O que tu acha que posso fazer nesse caso? Qual a saída?

    1. minhavidagay disse:

      Oi amigo Marcelo. Primeiramente, obrigado pelo voto de confiança em compartilhar seu caso.

      Aliás, teu caso é bastante comum e nada tem a ver propriamente com ser gay. Mas sem entrar a fundo nesses conceitos, vamos lá… você tem algumas opções de “saída”, sendo que a escolha acaba sendo única e exclusivamente sua:

      1) Tentar reacender o envolvimento. Três anos representam afinidades, trocas e intimidade. O quanto essa cumplicidade pesa na hora de por na balança? Vale à pena tentar revigorar a relação? Lembrando que para isso, tanto você quanto ele precisam estar abertos e dispostos;

      2) Dar um pulinhos, ou seja, algo que você já está fazendo. Embora não tenha concebido ainda um encontro físico, muito menos um ato sexual (o que inclui um beijo), a sua intenção está te levando a isso. É o caminho mais maduro? Claro que não pois, se nos acordos que você e seu namorado fizeram, está no “contrato” a variável de fidelidade, você está tanto quanto desrespeitando o namoro. No momento que ele te desrespeita com xingamentos, você o desrespeita com o desejo por outro. Zero a zero, sem bandidos, sem mocinhos;

      3) Terminar. Viver toda a dor e sofrimento da escolha. Conviver com o processo de desapego, rever toda a rotina para que ambos supram a ausência de um pelo outro. Dói, parece que vai ser uma dor pra sempre, parece que a gente vai morrer as vezes, mas o tempo – nesse processo de rompimento -, tem um poder milagroso.

      Jamais daria a “benção” para você trocar seu namorado por esse contato do app. Isso seria uma falta de maturidade da minha parte, no momento que levo essa máxima na vida: “podemos substituir pessoas, mas não sentimentos”. Você construiu 3 anos de história com seu namorado e qualquer troca abrupta vai gerar precedentes bastante negativos para ambas as partes. O “caos” é uma das maiores probabilidades.

      Você pode passar por essa sem ter que entrar no “caos”, embora as vezes, chegar nesse estado seja necessário para o nosso próprio amadurecimento. Mas se você realmente quisesse entrar nisso, não estaria me recorrendo. Então, evite ao máximo uma substituição.

      E por fim, se conselhos íntimos fossem realmente eficientes, eu já seria milionário, hehehe. O fato é que está nas suas mãos e nas mãos de seu namorado, querido Marcelo.

      Todas as opções consumirão energia e exigirão de vocês dois. Você pode postergar a escolha, ir “empurrando com a barriga”, mas o enfrentamento das dificuldades que você estão passando, pelo que relatou, são inevitáveis.

      Você, no fundo, já sabe o que deve fazer. Faça sem olhar para trás, independentemente de qual dos “caminhos” você vai seguir.

      Um abraço,
      Flávio

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