Raio gourmetizador


Hoje não adianta só chupar. Tem que dizer que chupou.

Dizem que gays adoram coisas e assuntos refinados. Claro que isso não deixa de ser um estereótipo, mas hoje resolvi partir para um tema paralelo ao MVG que, não deixa de ser uma boa crítica social.

Sou formado pela ESPM, hoje sinônimo de status, reconhecimento e alta classe. Mas em 1995, embora a faculdade já tivesse uma reputação na área de propaganda e marketing, de dez pessoas, duas a conheciam pelo nome. Eu mesmo fui ter ciência que a ESPM poderia ser uma boa opção apenas no momento em que a jornada de vestibular se iniciou. Era o começo d@ URV / Plano Real, instituído pelo nosso ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso que, depois, tornaria-se o presidente. Assim, meu pai iniciou pagando R$ 250,00 ao mês a faculdade e, ao final de quatro anos, a conta chegava nos R$ 370,00/mês. Bons tempos, não é mesmo? Sim, muito bons, principalmente para um jovem gay (e enrustido na época) que acabava de ganhar seu primeiro carro novinho, um Ford KA por R$ 4.000,00! Isso mesmo… esse exato valor, sendo que, quando vendi, pagaram 7 mil! O Brasil que a Dilma vendeu para ganhar as eleições existia naquele tempo. Bem diferente do que vivemos hoje. Naquele tempo a história de “carro popular” fazia sentido.

Acontece que a ideia de sustentabilidade, terceiro setor e ONG’s teve um nascimento evidente em torno de 1999 e 2000, época em que eu estava me formando e, assim como a Internet, se apresentava como um setor repleto de potenciais. Parte dos meus amigos, literalmente os mais chegados, enveredaram para essa área, fato é que meu trabalho de conclusão de curso foi do Instituto Victor Civita, fundação da Editora Abril. Em outras palavras, apesar da Web parecer mais a minha cara, não deixei de colocar um pé nesse mercado da sustentabilidade para entender o que era isso que borbulhava. Hoje, alguns desses amigos são “bã-bãs” ou quase “bã-bã-bãs” do segmento.

De lá pra cá, o mercado de sustentabilidade se consolidou. Centenas de instituições e organizações sérias se formaram e, nesse mesmo contexto nacional na qual a corrupção é cultural, umas outras também vieram para a pura prática de lavagem de dinheiro. Dentre as diversas frentes que avançaram, tal qual o terceiro setor e a Internet, o mercado também criou o hábito de gourmetizar as coisas. Desde as artes, como acusam o Romero Britto (talvez, hoje também Os Gêmeos), até um sorvete, a tal da paleta mexicana. As vezes, ostentar um iPhone Plus dourado vazando pelo bolso, chupando uma paleta dessas em meio a “food trucks”, nos enche de um sentimento de status e poder.

A gourmetização das coisas tornou-se um termo bastante usado de 2014 para cá. Tal conceito nada mais traduz que uma tendência de agregar determinados valores (duvidosos) em certos produtos commodities como sorvete ou alimentos. Pagamos o dobro, senão mais, para ter o prazer de dizer que consumimos tais itens. Hoje não adianta só chupar, tem que dizer chupou. Esse é um pouco do espírito de consumo acachapante que eu condeno, discurso inclusive de um cara formado em marketing. Mea culpa. Consumidores alheios às técnicas de persuasão, caímos como patos, gansos ou marrecos.

Acontece que essa cultura de ser “descolado”, “do bem” e “antenado” veio muito antes do sorvete. O marco para o texto de hoje será o produto orgânico, esse sim, um dos “pais” da gourmetização ao meu ver.

Parte daqueles amigos do terceiro setor, começou a vir com um papo de alimentos orgânicos, isso, em meados dos anos 2000, uma década atrás. Eram “bravos guerreiros” contra o uso abusivo de agrotóxicos e buscavam me fazer compreender de onde surgia tal conceito de “alimento orgânico”. Falavam, falavam e falavam e tudo me remetia exclusivamente à minha infância e adolescência, época em que vivia na casa dos meus pais e cultivávamos uma horta no fundo de casa, aqui mesmo numa capital cinza como São Paulo. Alface, cenoura, tomate, brócolis, acelga, salsinha, cebolinha e outras verduras e legumes que a família consumiu por longos anos. Na época, lembro bem que ter a horta no fundo de casa, um limoeiro e ajudar meus pais a plantar, colher e lavar os vegetais no tanque perto da horta, eram motivos de curiosidade para alguns amigos e deboche para outros, que achavam isso “coisa de japonês”, estranho e esquisito para se ter no fundo de casa. A diferença, algo que fui entender um tempo depois, era o preço: “por que cargas d’água tais produtos orgânicos custam o dobro ou mais em relação aos alimentos, ditos, tóxicos?”. Com uma base de formação em marketing, não demoraria para notar que tais “orgânicos”, garantindo o frescor e a saúde, longe da toxina aplicada de maneira “maquiavélica” em produtos comuns, seria algo para dar contorno a tal da gourmetização de hoje, alimentando uma cultura de classes e de acesso apenas a uma camada da sociedade.

O tempo passou, cheguei aos meus 38 anos e perguntem se a Geni, moça que trabalhou na casa dos meus pais, que ajudou a colher muito dessas plantinhas e hoje trabalha em casa, compra os tais produtos orgânicos? Nunca… tais itens, fatalmente, recheiam as mesas dos mais endinheirados e será assim para sempre, ou perto disso. Confesso que, como um consumidor frequente do Pão de Açúcar, poderia utilizar somente de tais itens. Mas não faço porque, a mim, não faz sentido nenhum a alface que eu mesmo plantava e colhia em casa, custar três vezes mais que a “verdura do mal”.

Esses mesmos amigos, assim como eu, estão mais velhos hoje. Um ou outro sugere que a minha geração está perdida, que vamos viver no máximo setenta anos devido a tantas toxinas que ingerimos na infância e na adolescência. Diga-se de passagem: eles, não eu! Juro que essa discussão se gerou no último encontro. Falam quase que de maneira acalorada que “a esperança está nessa nova geração que nasceu entendendo sobre questões sociais e ambientais”. A mim, como acontece de geração em geração, é uma cambada de quase quarentões em um discurso repetitivo, depositando muitas expectativas em seus rebentos como num ciclo normativo e humano. Eu não consigo pensar assim, por mais que tente corroborar com tais mentalidades.

Entendo que a ideia humanista e pró-vida tenha a sua legitimidade, claro. Eu vivi a minha infância e juventude descalço, subindo em árvore, pulando na cachoeira e criando girinos. Mas tais produtos orgânicos, de conceito criado há mais de uma década atrás, seguiu os mesmos caminhos tacanhos e capitalistas que repartem a nossa sociedade. A Geni vai envelhecer e morrer se alimentando de produtos “do mal”. Já os meus amigos descolados, do bem, e “hypados” – que fazem parte de uma ponta minúscula da sociedade -, se dão ao luxo de erguer tal bandeira e utilizarem detergente biodegradável em suas respectivas cozinhas gourmet.

Se esses vão salvar o nosso planeta? Ah, duvido muito…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s