Levei um fora


O ato de se relacionar traz disso também: o fora. Tal gesto acompanha as estatísticas da intenção de uma aproximação, de um beijo e de um próprio relacionamento. Quem busca algum tipo de contato mais íntimo com alguém está sujeito a isso.

O fora também é uma manifestação que acontece em todos os meios hoje em dia: em baladas, bares, ruas, supermercados, aplicativos, WhatsApp e etc. 

Fazia um mês que estava “ficando fixo” com o Tché, o último menino que havia conhecido pelo Hornet até então. O sentimento que veio após conhecê-lo foi capaz de me “arrancar” o interesse pelos apps de pegação, saunas e qualquer outro meio que caracterizasse o meu jeito casual de me relacionar. “Mudou uma chavinha”, mudou a direção e algo mais forte me fez focar no menino.

Nosso último encontro foi na quinta-feira do feriado, com direito a cozinharmos juntos, muitos beijos gostosos, abraços, sexo, conversas, momentos ao piano, cochilo agarradinhos e partidas bem humoradas de Wii U. 

Tal período, como deixei expresso em outros posts, denunciava a minha paixão por ele. O delicioso início.

Tudo parecia evoluir bem, com vontades e expectativas, mas pés no chão, em meio a conversas diárias e frequentes por Whats. Quando pessoas estão nesse ritmo, me parece que um namoro é o ponto de chegada. Pelo menos se tornou a mim.

Começava a clarear não somente o desejo, a química e a afetividade, mas algo de amizade, leveza e humor que sempre achei importante para uma relação entre namorados.

Estava aparentemente tudo bem, quando ontem, “plim”, tomei um fora! Eu estava na casa do Matheus e havíamos programado um encontro dos amigos do MVG. Foi de lá que comecei a receber mensagens do Tché que basicamente terminou assim: “te adoro, te admiro, mas não quero algo sério nem com você, nem com ninguém”.

Embora tal afirmação tenha vindo de súbito, a minha intuição que já me avisava, concedeu legitimidade.

Estava bêbado na festinha com a turma e, de imediato, veio tudo aquilo que normalmente vem ao gay com intensidade: tristeza, orgulho, vulnerabilidade, inconformismo e frustração. Veio tudo isso sim, mas veio de leve, sem querer levar tal momento aos extremos, sem querer me martirizar ou colocar o Tché como um vilão.

Essas coisas acontecem e fazem parte de uma naturalidade, daqueles que se dispõem a se relacionar. Não “ganhamos” todas, muito menos podemos ter a pretensão de achar que temos o controle das vontades ou complexidades alheias. Tampouco temos um termômetro para garantir o quanto o outro realmente sente pela gente. As vezes, nem o outro tem essa consciência. Eu posso garantir por mim: estava na dele.

Na arte de se relacionar, o fora não deixa de ser um gesto não desejado, mas necessário para nos reconhecermos melhor.

Nessa experiência com o Tché, tive um ganho muito importante: vinha de um contexto fechado, questionando os apegos e os vínculos, com medo de me amarrar por outro alguém e aberto, somente, as cores da casualidade. Estava fechado para balanço, o que não representava necessariamente um ostracismo, mas a permissão de viver a informalidade que o “mundo gay” nos oferece, longe de juízo de valor moral, normativo, e me permitindo a conhecer pessoas, no plural, na sauna, nas baladas e nos apps.

O Tché mudou a minha rota, me pegou pela emoção e essa força me concedeu uma vontade de querer conhecer somente ele, no singular. Parti para uma entrega, com os pés no chão, mas com a sensação de estar nas nuvens, efeitos dignos da paixão.

Foi um mês delicioso, com gostinho de quero mais a todo final de semana que se aproximava. Quis ver o que poderia dar e foi assim. Sem arrependimentos. Claro que fica uma melancolia e uma tristeza no ar, até que apropriadas para um domingo. Mas pouco me interessa os “por quês” dele ter preferido assim. Das especulações que costumam rondar a nossa fantasia nessas horas, me dou o direito de não construir nenhuma.

Sigo em frente, ainda com um gostinho de quero mais, mas que – talvez -, seja concedido para outra pessoa. Eu funciono bem em par e não há nada de errado nisso.

Obrigado, Tché. Obrigado mesmo. Com você eu redescobri minha capacidade de amar. <3

9 comentários Adicione o seu

  1. Daniel disse:

    Ola Flávio,
    Nada a dizer sobre os sentimentos que surgem com um fora. Poucas palavras conseguem derrubar um mundo de expectativas. Mas essas experiencias de frustração e fracasso são fundamentais no nosso caminho, para tornarmos mais amadurecidos e viver a vida com mais serenidade. Lamento por vc mas lhe cumprimento pela reação amadurecida como assumiu o fora. Parabéns!! . Torceremos para que na próxima tentativa possa realizar o desejo de amar.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Daniel.
      Obrigado pelo comentário. Assim é a vida, não é verdade?
      Agradecido pela torcida!

      Um abraço,
      Flávio

  2. Nando disse:

    Muito bonito seu relato Flavio.
    Confesso que admirei muito sua maneira de lidar com o fora, com toda certeza fruto de sua experiência e serenidade adquiridas a penas que eu nem imagino.

    Faz pouquíssimo tempo que aceitei a minha realidade homossexual (ou homoafetiva que acredito que abranja mais aspectos da vida) e sei que não tenho muitos atrativos – nem estéticos e nem de personalidade – mas as rejeições são bem duras pra mim.

    Espero chegar num nível próximo ao que você alcançou!

    Um abraço!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Nando,
      Tudo bem?

      Primeiramente, não existe pessoa no mundo que não tenha atrativos. Na realidade, é a maneira que nos enxergamos que vai enfatizar o lado bom ou ruim de nós mesmos e sei que exige um esforço para encontrarmos nossos próprios atrativos.

      As rejeições são bem duras para todos. Nos abre a vulnerabilidade e talvez a vivência nos ensine a dar a volta por cima, ou a aprender a lidar com tal dureza de maneira diferente.

      De qualquer forma, machuca mesmo, desilude e, como disse, até o mais belo dos caras, quando se põe envolvido, sofre a mesma dor que qualquer outra pessoa.

      Beleza, riqueza não nos resguarda plenamente de nossa humanidade.

      Um abraço!

  3. Nando disse:

    Nossa, muito gentil da sua parte responder ao comentário.

    Sim, estou num trabalho de “busca dos meus atrativos”, que não é lá muito simples mas é extremamente necessário. Minha psicóloga diz que devido ao tempo em que fiquei fechado a relacionamentos por não me aceitar gay, impedi que as outras pessoas me apontassem meus atrativos, e agora eu tenho que encontra-los um pouco tardiamente.

    Engraçado pensar dessa maneira que você colocou, que o mais belo dos caras também passa pelo mesmo sentimento que a gente, pois quando estou “na bad” a única coisa que penso é que todo mundo está bem e ninguém deve passar pelo que estou passando. Enfim, armadilhas mentais que nós mesmos nos armamos… Somos mesmo criaturas complexas!

    Obrigado pelo texto e mais uma vez obrigado pela resposta ao comentário. :)

    Um abraço!

    1. minhavidagay disse:

      Armadilhas mentais que armamos para nós mesmos… É bem por aí, Nando!

  4. Guto disse:

    Incrível o seu relato Flavio,
    confesso que admirei, e até senti inveja (pq não?) da sua maneira de lidar com o fora, isso demonstra uma experiência singular adquirida (se é que pode se falar isso) ao longo de sua vida. A pouco tempo resolvi aceitar que sou homossexual ao me apaixonar aos 24 anos por um outro homem pela primeira vez, confesso que foi a pior coisa que me aconteceu (sim os lados negativos superaram de longe o que poderia ter sido muito bom). Eu sei que o meu forte não é a aparência física (não que eu seja um Shrek, apesar de que eles também tem direito de amar), porém em questões de personalidade acredito que tenho uma beleza que perpassa as questões físicas, não é dedução minhas mas das pessoas que já puderem me conhecer de verdade. Porém as rejeições são bem duras pra mim, eu me apego demais. Nunca fui um rapaz de querer curtição e apesar de não ser assumido me agrada muito a ideia de ter um compromisso mesmo que escondido e acabo depositando nisso todas as minhas esperanças. Após essa primeira ‘paixão’ confesso que cheguei a acreditar que não seria capaz de sentir isso novamente, mas consegui. Infelizmente, ou não, como sempre aconteceu em uma velocidade recorde e acabei metendo os pés pelas mãos, uma vez que em 9 dias já queria estar namorando. Aprendi muito com a primeira mas ainda cometo alguns erros. Espero que dessa vez eu não tenha estragado tudo e que consiga adquirir a capacidade de não depositar todas as minhas esperanças em uma outra pessoa e não entre de cabeça em qualquer relação.

    Um forte abraço e muito obrigado por fazer esse blog. Talvez vc não tenha noção de quantas pessoas vc ajuda com ele mas fique certo que um dia vc será muito bem recompensado por esse gesto.

  5. Robert disse:

    Ainda bem que você reaprendeu a amar, né, Flávio, assim, é menos um gay fútil e vazio para partir o coração de caras gays que realmente se apaixonam. Aliás, não gostei da forma como o Tché terminou com você, que ridículo, terminar por SMS! Isso mostra que ele é um covarde, incapaz de te dignificar com uma conversa madura entre dois homens, olho no olho, para terminar o que começou com bastante olho no olho e muito mais! Não sei porque este texto exaltando-o e agradecendo-o…Tché, se estiver lendo isso, espero que seu desejo se realize, meu querido, e você não tenha nada sério com ninguém…nunca.

  6. sa0n disse:

    Admirável sua atitude. O que falta em muitos gays é amor próprio, aceitar um fora é onde vc pode confirmar se a pessoa realmente se ama ou não, claro que não é algo fácil de aceitar, mas é preciso que não nos deixemos levar e abaixar a cabeça, é vida que segue. Amar é algo complexo e sem receitas, impossível escolher quem vc Qr amar, o sentimento apenas acontece, o fato de existir esses apps de pregação já diminui muito as chances de encontrar alguém para amar , a magia se perdeu, então acabamos nos apegando a quem aparece e preenche nosso coração, nem sempre pelo amor de verdade mas tb pela carência.

    Parabéns pelo blog, Flávio. Tão bom conhecer pessoas bacanas nesse universo, algo tão raro ultimamente.

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