Somos todos vulneráveis


Sometimes when you loose you win

Juventude e potência parecem temas indissociáveis, principalmente em se tratando de gays e de uma sociedade cada vez mais fixada à linguagem visual. Quando me refiro a linguagem visual, estou tratando do apreço estético, normalmente sugerindo saúde e virilidade. Mas o fato é que somos todos emocionalmente vulneráveis, no momento em que temos expectativas e elas nem sempre se realizam como desejamos.

Nesse tema falo um pouco do leitor Sandro, um novo “amigo do MVG” que conheci faz duas semanas e, nesse tempo, seu grande dilema é o fato de – há seis meses -, estar num relacionamento à distância. Falo também sobre mim, que me senti vulnerável logo que me percebi apaixonadinho pelo Tché e, um mês depois, vulnerável pela quebra de expectativas: “eu não quero assumir um namoro” – e era o que eu idealizava.

Em ambos contextos vivemos vulnerabilidades, algo que um indivíduo, principalmente o masculino, seja gay, afeminado ou masculinizado, aprende culturalmente a suprimir: “homem engole seco. Deixe as questões de vulnerabilidade para as mulheres”.

Durante mais de 30 anos da minha vida, como primogênito de uma família de orientais (e traduz-se aqui um punhado de referências tradicionais que certamente irão além da sua imaginação, caso não seja oriental), aprendi direta e indiretamente que as questões de vulnerabilidade teriam que ser engolidas a seco. Mas foi graças a Deus, a minha terapeuta e a mim – no sentido de me dar conta sobre tal modelo do “engolir a seco” -, que tenho aprendido, à duras penas, que as questões de vulnerabilidade não dizem respeito a fraqueza, embora “fraqueza” seja um ponto de vista da cultura normativa. Curioso pensar sobre o tema hoje, ainda ensaiando as minhas mudanças, e entender que a vulnerabilidade que faz parte da natureza humana é, de fato, a força. Em outras palavras, aceitar que fraquejamos, gays ou heterossexuais, homens ou mulheres, que nos sentimos vulneráveis em relação a outro, nada tem a ver com direcionamentos de gênero. A sociedade tem feito acreditar assim há muito tempo e arrisco dizer que desde que o homem vivia em sua recôndita caverna.

Por que um fora dói tanto e, no universo dos gays, parece doer muito mais?

Primeiramente, o fora – no gesto simples de quebrar nossas expectativas -, nos coloca de frente a um espelho, quando notamos que somos frágeis. O homem gay pode ser um modelo de beleza, sexualmente viril, de corpo totalmente torneado, alto e bem dotado. Mas se deixe envolver por outro alguém, criar expectativas e tomar um fora? Vai doer no ego, vai nos nivelar a qualquer outro indivíduo, homem ou mulher e vai nos “presentear” com a sensação da vulnerabilidade!

Claro que a partir daí a reação em si é particular. No meu caso, ontem, preferi viver meu momento de luto: fiquei um dia inteiro de moletom e meia. Por vezes me larguei no sofá, comi a beça (rompendo um pouco com a minha dieta), joguei bastante videogame, pulei pra cama e fiquei olhando para o teto, tirei umas selfies novas para “esbanjar” nos apps e resolvi ficar quieto, solitário. Mas em outros tempos eu poderia ter “engolido a seco” como um verdadeiro “macho” e, por exemplo, ter me atirado no meio da 19o. Parada e feito muito sexo.

Nesse mesmo contexto, eu ontem cabisbaixo e curtindo certa fossa, o Sandro veio a mim com um discurso, desconfortável com a posição que se encontra hoje com o namorado (à distância há 6 meses):

– (…) Porém, ao mesmo tempo, estou quase terminando com tudo para voltar a viver uma liberdade descontrolada – rs.

– É legítima a sua carência. Seja no último mês ou além disso. Não tem nada de errado por estar assim.

– Eu não gosto… detesto me sentir vulnerável (…).

– Quem gosta de estar vulnerável? Note que tenho passado por isso já há meses. Primeiro foi a vulnerabilidade de estar apaixonado, o medo do incerto, do novo. Depois, agora, é a vulnerabilidade por ter levado uma bota – rs. Tudo é o nosso ego gritando, querendo voltar a um patamar de soberania. Mas temos que aprender a deixar esse ego tomar umas porradas mesmo… pra gente ver que não tem controle de muita coisa. A gente não controla o outro, Sandro, muito menos as nossas próprias emoções.

“A solução para suas angústias atuais com o seu namoro tem que ser a confortável e conhecida certeza da ‘liberdade’ descontrolada?”. A medida que o amigo ia expondo seu caso e eu ia o orientando, trabalhava certa “cura” em mim, sobre as situações do meu momento. A gente não quer sair de um altar, seja lá qual ele for em nosso imaginário.

Em segundo lugar, no meu ponto de vista, o gay sofre ainda mais com questões da vulnerabilidade pois nascemos num contexto social normativo de rejeição: “Ah, é gay? Então vai ter que aprender a se virar, lidar com muitos ‘nãos’ para colecionar meia dúzia de “sims'”. Tendemos a receber negativas por muito mais tempo. Daí, além da sensação de um mundo que nos rejeita, ter um fora (representação do “não”) da pessoa desejada, pode ser muito mais dramático. Se já é ruim qualquer um lidar com vulnerabilidade, imagine um gay? Embora não goste de expressar comparações, deixei esta aí para quem se identifica.

Está aí, nessa dificuldade de lidar com a rejeição, o problema e a solução. Os caminhos para nos libertarmos de certas amarras culturais, de gênero, são totalmente específicos, particulares e dificilmente estão nas expectativas que temos pelo outro, quando é que há realmente uma consciência dessa necessidade de libertação. Mas hoje, como um gay e oriental (duplamente da minoria), tenho entendido melhor o que é lidar com a minha própria vulnerabilidade, da autoaceitação de que sou um ser falível e as vezes falível em detrimento à não correspondência do outro.

Evitar me relacionar ou me entregar pelo medo implícito que tenho da minha vulnerabilidade, é a minha verdadeira fraqueza.

“Sometimes when you loose you win”.

1 comentário Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Bacana o texto.

    Muitos dos meus grilos vem da minha própria dificuldade em aceitar minha vulnerabilidade.
    Deixar correr mais solto e esperar que a vida mostre os caminhos.
    Viver o momento.
    A tentativa de controlar tudo, pessoas e sentimentos, sempre acaba passando os limites, quando isso acontece, pronto lá estou eu vulnerável, frágil e com medo.
    Mesmo quando enfrentei minha doença de frente, buscava forças sabe Deus de onde, foi útil vence a doença, me tornei um Ser Humano, melhor em muitos aspectos.
    No entanto durante minha infância e adolescência acabei vivendo situações dentro e fora de casa que ser vunerável era ser fraco e consequetimente sofrer.
    E alguns desses fantasma, ainda estão por perto.
    Eu demoro para me entregar, justamente por medo de perder o controle e ficar vulnerável, quando entreguei corpo e alma, ele partiu para trabalhar fora, minhas tentativas de controlar a situação não deram certo e em muitos momentos até o controle sobre minhas emoções eu acabo perdendo.
    É onde acontece o fato de ontem….. Acabo vendo demônios onde talvez tem tenha.

    Escrever este texto… Falando da minha fragilidade foi difícil.

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