Apenas pinceladas


4 anos depois

Demorou um tempo para que eu assumisse a mim esse título de blogueiro. Principalmente em se tratando de um espaço dirigido ao público gay e de tanta exposição com relatos pessoais e, muitas vezes, uma análise crítica sobre os diversos assuntos que envolvem a vida gay (e não tão gay assim). “Blogueiro” tinha, pra mim, um sentido de “popular”, “nada intimista”. Quando ia imaginar que textos longos, sem imagens e um Blog com design totalmente discreto poderia ter mais de 15 mil visualizações por mês? A se comparar com os que são realmente populares, isso não é nada. Mas assim se fez o Blog MVG, altamente segmentado.

As experiências mais significativas que vieram do Blog, sob o meu ponto de vista, foram aquelas relacionadas aos “amigos do MVG”, meninos que estavam no armário ainda e que hoje, depois de dois ou três anos seguem por caminhos bastante diferentes, cada vez mais distantes do casulo o qual se restringiam. Vira e mexe cito o papel de “mentoria” pelos textos e tem bastante detalhes na rádio. Tenho como relevante também o contato com centenas de leitores, narrando seus casos e me munindo de uma informação fundamental para compreender, com um olhar aberto e inclusivo, as mais diferentes nuances da diversidade sexual e de como cada um lida com a própria sexualidade. Tenho que assumir que, depois de quatro anos de Blog MVG, meu entendimento sobre sexo e homossexualidade, ultrapassaram para bem longe as bordas da minha própria “caixinha”. Não existe propriamente “o certo” nas relações humanas e esse aprendizado é particular. O que me parece certo, é que existe um pilar “principal” criado pela sociedade, da heteronormatividade e, a partir daí uma busca diversa de identificação e não identificação. Por mais que a gente relute (ou acredite que não tenha influência), as normas heterossexuais é uma das principais referências, apreendidas desde que somos pequenos. Particularmente, queremos rever isso ou não? É isso que o MVG estimula: o desenvolvimento de um senso crítico.

Me dei conta bem recentemente de uma outra influência como blogueiro e é a esse tema que esse post se destina: da idealização dos leitores perante o MVG. Só com o tempo fui percebendo isso, mesmo sabendo que, desde o princípio, uma das políticas que coloquei a mim foi de não ter o Blog MVG como um meio de ter namorados ou paqueras. A resposta a isso é bastante clara, hoje, a mim: o MVG não deixa de ser um centro de idealização de muitos que passam por aqui e não têm referenciais. Assumir um relacionamento com um leitor é bastante arriscado e delicado porque as pessoas que me conheceram por aqui e que levo para o presencial, fatalmente terão uma imagem idealizada sobre mim, o que me desumaniza totalmente. Taí certa “sina” de um Blogueiro, que não é muito diferente de um escritor, de um poeta ou de um músico. Adquiri essa consciência bem recentemente, em específico depois que me relacionei com o Japinha. Foi uma grande lição.

Acontece que, construir algo afetivo, de namoro, com um leitor tem desses riscos: a pessoa, por muito tempo, vai me enxergar como “o MVG”, um cara idealizado, e não como o Flávio, efetivamente dotado de, também, defeitos. Esse jeito gruda mesmo e exige um certo esforço e bastante paciência para mudar essa ideia.

Posso dizer que, com os próprios amigos Beto, Matheus e Sammy, algo que era idealizado por mim, foi pacientemente desconstruído. No caso, nada relacionado ao envolvimento afetivo em si, mas uma projeção de que “o MVG” era “o cara”, 100% capaz, hábil e autônomo para lidar com seus problemas sem a ajuda de ninguém, o que, na mesma medida, me colocava num patamar de idealização. Mentira que sou assim.

Vira e mexe, hoje, brinco: “agora vou assumir a função MVG”, para que eu mesmo – perante as pessoas que conheço pelo Blog -, me faça entender quando estou “totalmente Flávio”.

E quando digo assim, “totalmente Flávio”, é ter a necessidade de viver num patamar de igual para igual, humano, com problemas, fraquezas e sentimentos de vulnerabilidade. Não sou perfeito e, entre paixões e ódios, criados com alguns leitores mais assíduos, estou querendo dizer que tais relações naturalmente se formam com um Blogueiro, mesmo quando o propósito passe longe disso.

O gay, talvez pelo fato de viver se restringindo demais, se podando e tendo que lidar com rejeições por mais tempo, acaba se apegando com muito mais intensidade quando nota palavras e cenários que o acolhe. Não seria diferente com um Blogueiro que traz milhares de referências para pessoas que não aprenderam dentro de casa, nem na escola, caminhos possíveis e aceitos sobre a homossexualidade. Pessoas que ainda se sentem restringidas, confusas ou desnorteadas se encontram aqui.

O post de hoje é um esclarecimento importante, e que exige bastante atenção, principalmente daqueles que acompanham o Blog há bastante tempo e que fantasiam (positivamente ou negativamente) sobre o MVG. Por trás de um espírito positivo, acolhedor, de textos bem escritos e, as vezes, esclarecedor como uma “luz no fim do túnel”, existe um cara que falha e que acerta e erra na mesma medida que todos.

Como conversei com a minha terapeuta, claro que é impossível controlar as emoções que emanam dos leitores ao lerem as palavras que aqui disponho. A ideia aqui não é ter a presunção de obter essa autonomia, muito menos ficar me contorcendo e racionalizando para não criar sensações nas pessoas, principalmente numa fase da vida que, tirar de mim certa necessidade de controle, aceitando a minha vulnerabilidade, é o que tem me tornado maior. Mas deixar esclarecido o por quê é difícil (embora não impossível) de me aproximar de leitores com segundas ou terceiras intenções. Existe sim essa consciência, e apesar de tudo do MVG ser a manifestação de meu ego, mantenho essa lucidez.

Não “casem” com essa tela, nem me odeiem só porque certas coisas que digo aqui conflitam com seus próprios ideais e expectativas. O mundo, real, está a suas costas e é a sua própria vida. Um excesso de idolatria, na mesma medida que o um excesso de ódio, é igualmente um depósito de muita atenção em uma parte que há de ser pequena: é APENAS um Blog. O que represento aqui é somente um micro fragmento do que sou e só pode ser totalidade porque tenho dado passos na minha própria vida, com olhar para fora. Aceitem: essa jornada é individual, é sua e embora tenhamos pessoas – como o próprio MVG -, para darem uma pincelada aqui e ali de motivação e/ou indignação, de referência ou senso crítico em relação ao seu entendimento de mundo, o caminhar é com suas próprias pernas.

Tudo isso aqui são apenas, e somente apenas, pinceladas.

7 comentários Adicione o seu

  1. Flávio,
    Bacana que tenha assumido esse título para você, mas definitivamente você não é o MVG em pessoa mesmo sendo o idealizador disso tudo e de cada pincelada publicada aqui, mas interessante escrever isso porque pela quantidade de visualizações as pessoas vislumbrem o autor como o super man do mundo gay. Pelo pouco que nos conhecemos e nos falamos percebemos que as vezes não estamos bem, que o dia não foi fácil, que a preguiça domina e que de fato você como eu, como qualquer leitor é um ser humano normal cheio de coisas maravilhosas, mas com defeitos e por vezes muitos.
    Na verdade o meu cometário (não que eu ache que passou pela sua cabeça em desistir) é para continuar incentivando seu trabalho que é muito bom, que apesar de pinceladas, sejam aprovadas ou não pelos leitores é importante. Como dissemos esses dias, é muito gratificante ver bom resultados nas pessoas através do que fazemos ( eno seu caso seja como Flávio seja como MVG).
    O importante são as pinceladas, são os detalhes, ninguém tropeça em montanhas e sim em pedras; entendo que o importante é fazer com que as pessoas comecem ou busquem pensar fora da caixinha, abram a mente porque não é o blog que muda as pessoas nem o autor, mas a mudança vem de cada um de nós.. o nossso muda quando nós mudamos!
    Parabéns por ser homem, por ser gay, por mvg, por ser Flávio!!

    Abraços,
    Jonathan

  2. minhavidagay disse:

    Ninguém tropeça em montanhas e sim em pedras. Gostei, Jonathan! :)

  3. Neto Silva disse:

    Nao sou de ler blogs. Na verdade, não era. Lia alguns pontualmente sobre algum assunto que me interessava no momento, inclusive sobre comportamento gay, leia-se, os não pornográficos. Mas pouco a pouco fui sendo fiel ao MVG. Hj sou leitor assíduo do seu blog. Leio tudo o que vc escreve, até oque não acho interessante. Mas seu blog mudou meu olhar de ver as coisas. Como eu disse em uma postagem anterior, vc passa a sensação de dignidade no (novo) modo ser gay: Saunas, aplicativos, encontros casuais. Mas também não nega a possibilidade de que há dignidade e até verdade nos relacionamentos conhecidos como “perfeitinhos” oque eu chamaria de relacionamentos gays com tendências hetteronormativas. Por fim, é claro que nsi tem como idealizar o blogueiro MVG. Te imagino grisalho e muito bem humorado. Quase uma Carrye Bradshow versão masculina com todos os defeitos e esperanças. Enfim, prefiro vc que Dostoievski ( isso não é exagero). Suas postagens têm alma. Nos cabe como uma luva e a leitura é bem democrática. Sem mais. Quer o MVG dure para sempre.

  4. Neto Silva disse:

    **Nsi = não

  5. Neto Silva disse:

    *******Consertando: É claro que não tem como não idealizar o blogueiro MVG.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelo comentário, Neto! Uma Carrie Bradshow só que numa versão masculina, grisalho e bem humorado. A parte bem humorada está certa, eheheh.

      Um abraço!

  6. Ro Fers disse:

    Escrever têm vários benefícios, e nada melhor do ter um escape, por pra fora aquilo que não se pode compartilhar com alguém…
    Abraços!

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