A maior idealização da minha vida


Parece que eu acordei do meu sono mais profundo.

Quando tinha 23 anos iniciei a minha primeira empresa. Junto com meu ex-sócio, logo agregou seu irmão mais novo com apenas 16 anos, tornando-se um “aprendiz”. Ajudava-nos com afazeres básicos, como atender telefone, no começo.

Vejam só que curioso: com essa minha idade, vinte e poucos anos, idealizava conquistar o mundo. Provar um pouco para mim e um pouco para meu pai que eu seria capaz de ser dono do próprio nariz, que um gay poderia ser empreendedor sem precisar dar satisfação a ninguém. Que eu poderia ter meus clientes e minha própria equipe.

Que eu seria capaz de deixar um legado para que outras pessoas perpetuassem uma história.

Talvez essa tenha sido a maior idealização da minha vida: estabeleceria a minha empresa e depois de algumas décadas, passaria a mesma para o irmão mais novo do meu sócio. Tinha um outro ideal no pacote, de que eu seria amplamente capaz de fazê-lo a minha imagem e semelhança, lapidá-lo a ponto dele assumir tudo.

Ledo engano. Por volta de dois anos e meio atrás, não por falta de esforço dele que prevaleceu na empresa por 12 anos e meio, não por falta do meu esforço, tentamos. Talvez tenha sido o meu “casamento” mais longo, “more than twelve fucking years!”.

Mas foi aí que uma das partes da maior idealização da minha vida desabou: primeiramente, me dei conta bem aos poucos que não existe muito disso, de lapidar uma outra pessoa. Cada um dessa terra é dotado de aptidões específicas e muito de suas qualidades não batiam com o espaço para assumir o meu “legado”. Demorei uma década para aprender sobre isso.

O aprendiz foi bater asas em outros terrenos depois de dois anos ensaiando. O apego existia por parte dele também e claro que foi legítimo, mais de 12 anos juntos. Queríamos acreditar, no plural.

Mas foi nesse mesmo período, quando fomos dando conta que talvez o ideal não se contretizaria, que a Naiara pintou – nesse tempo de dois anos e meio – e, “essa sim”, me parecia com os potenciais e aptidões necessários para seguir com meu negócio, dando gás para a parte do ideial que se manteve firme dentro de mim, de transferir a empresa para um “descendente” e perpetuar meu legado.

Entre conquistas e muitas discussões, o que ela amadureceu nesse tempo, talvez, levaria dez. Alguns até ousaram a dizer que era coisa de vidas passadas com ele e com ela. O apego pelo ideal se estabeleceu, dessa vez eu e ela, e a tratei por todo esse tempo como se fosse a minha esperança, para alcançar o ideal que não havia estabelecido com o irmão do meu ex-sócio.

Ela tentou, ela batalhou. Eu me esforcei e entre entendimentos e discussões, na virada de 2014 para 2015, ela pediu para sair. Foi algo súbito, sem pedir licença. Um tiro! Foi um susto, um tremendo de um imprevisto, daqueles que gelam a espinha de ponta a ponta. Fiquei sem chão e relutei para acreditar que meu ideal de “deixar meu legado” se perderia. Fiz vistas grossas, elegemos alguém para substituí-la, mas foi um desastre e, depois de um mês, numa conversa aberta e franca entre nós dois, a Naiara voltou para tentar de novo.

Nos reconectamos e o alicerce do meu ideal se recompôs. Seguimos em frente por seis meses, até ontem, quando de súbito novamente, sem pedir licença, num imprevisto, ela entrou na minha sala e disse assim: “precisamos conversar”. Desceu gelado, minha espinha novamente esfriou de ponta a ponta, mas no momento que a vi, eu já sabia. Ela sairia da empresa:

– Flávio, nós tentamos. Mas eu perdi o encanto. A paixão acabou.

E curiosamente, assim como foi com o menino daquela vez, com ela, foi uma história de paixão. Paixão, ideais, desejos mútuos de crescimento e, por ser o maior ideal da minha vida, muitíssimo apego. Mais de uma década amarrado a tal expectativa.

Eu tive que levar uma primeira porrada há dois anos e meio atrás. Tive que levar uma segunda porrada na virada desse ano e uma terceira ontem, muito bem dada, em cheio no meu estômago, para finalmente hoje surgir certa iluminação: “por que, por cargas d’água, durante todo esse tempo de empresa, eu tive como maior ideal da minha vida passar o negócio para um ‘pupilo’?”.

Realmente, por que!? Durante 14 anos que levo a frente essa empresa, eu idealizo passá-la para um herdeiro.

Lá atrás, com 23 anos, eu idealizei o mais difícil, quase utópico. Já é uma batalha traçar metas financeiras para uma empresa e gerir riqueza para si e para sua equipe. Imagine então, idealizar um projeto de repasse para alguém igualmente idealizado!?

Olhei hoje para mim e disse: “que loucura, Flávio”.

Ao ter esse insight enquanto estava na academia, recebi uma ducha de alívio que ainda nem sei como irá reverberar nos próximos dias, meses e anos. Uma cobrança interna acumulada por 14 verões começou a se esvair, sugerindo uma leveza para as minhas costas, sugerindo uma mudança de visão sobre o que construí nesse tempo. O projeto que eu estava idealizando, depois de três árduas tentativas, foi ao chão. Eu não tenho que manter uma empresa na esperança de transferí-la para alguém, num cenário fantasioso de deixar um legado e perpetuar a minha história. Ela é, simplesmente, a minha empresa.

Que loucura…

Nesse tempo, fui sócio de três das quais, duas, estão se consolidando pelos anos no comando de meus ex-sócios. Me provei muita coisa com isso, coisa que eu nem sei.

Eis um momento, e já vem sendo, para resignificar 14 anos de vida profissional. Parece que eu acordei do meu sono mais profundo.

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