Zona de conforto


Até meus 34 anos era assim: quando eu estava namorando, parecia que tudo que eu fazia saia melhor. Dependência? Coisa desse tipo, provavelmente. Era algo bastante psicológico, talvez fruto da ideia de que gays, diante do sentido de autorejeição que convivem por longos anos, não se sintam suficientemente completos se não tiverem esse tipo de “bengala” emocional. Era algo bastante “louco”, que teve início após o meu primeiro namoro e foi tudo fruto da minha mente: por exemplo, como a minha empresa sempre foi foco da minha vida, quando eu namorava parecia que eu era muito mais capaz de lidar com as adversidades. Uma energia de enfrentamento se estabelecia e eu me sentia “total” para batalhar. Quando eu estava solteiro, parecia que logo teria que estabelecer uma nova história de relacionamento porque a minha “fonte de energia” parecia fragmentada. Me sentia a famosa metade.

Eu era assim até meus 34 anos! Fui tomar consciência disso antes mesmo dessa idade e morria de vergonha. Hoje mesmo comentei esse fato para a minha mãe, num almoço que tive com ela. Mamãe quase exclamou: “nossa, desse assunto eu nunca fiquei sabendo”.

Pois é, mama. Guardei a sete, oito ou dez chaves para acabar escancarando no meu próprio Blog! rs Eu já fui um cara altamente dependente dos meus namorados, inclusive para me sentir completo para tocar a minha própria vida, a minha própria empresa.

Assim, um dos motivos para eu ter namorado tantas vezes, era o fato do medo de me sentir sozinho em minhas empreitadas. Exatamente isso. Principalmente depois que tive a primeira experiência que durou, nada mais nada menos que dois anos. A partir daí essa coisa de namorar virou um vício e vícios só acontecem porque temos a ideia de faltar algo dentro da gente.

Mas esse algo mudou nesses últimos cinco ou seis anos. Adquiri nesse tempo uma autoconfiança importante, talvez fruto da maturidade, talvez fruto dos calos. Aprendi a suprir minhas próprias lacunas mais comigo mesmo. Aprendi, parcialmente, a ser sereno sem depender de um ideal de namoro. Parcialmente porque, precisei levar três porradas profissionalmente (e não foi uma ou duas) para ver que no contexto da minha empresa, também idealizei um “herdeiro do futuro” para que me estimulasse e me sentisse encorajado para chegar até onde eu cheguei. E foi aí que, tanto para a vida pessoal, como para a profissional, precisei criar alguns vínculos “transcendentais” com pessoas para acreditar em mim mesmo.

Louco não? Não… muito normal e acontece com muita gente. Talvez aconteça com bastante gays, embora alguns de nós aprendam sobre os prazeres e as dores de formarem-se parcerias – uma única vez – para depois viverem anos sem quererem mais disso. Tem gente que coloca relacionamento como algo que atrapalha o fluxo da individualidade. É ok assim também, mas não se fecha nisso.

Para mim foi ao contrário: eu aprendi a obter conquistas em parcerias, com ex-namorados (na vida pessoal), com ex-sócios ou aspirantes a “herdeiros” da minha empresa (na profissional), tudo fruto dessa impressão de que eu funcionaria melhor se eu tivesse alguém que estimulasse a minha força lá e cá. No caso da empresa, não estou me referindo a colaboradores, que são obviamente fundamentais para o crescimento de negócio. Era algo com alguém que tivesse um “plus”. E tive.

Mas foi aí que Deus falou assim: “você chegou até onde chegou com essa ‘caixinha idealizada’. Está confortável há alguns anos, não é? Hora de eu te dar um peteleco e você aprender a ser um tantinho mais inteiro”.

Plim. Hoje começo a tomar a consciência de que tudo que é a minha empresa, por mais que adquiri uma segurança psicológica estabelecendo um tipo de “relacionamento idealizado” com meus braços direitos durante esses anos, teve a frente as minhas decisões e escolhas. Prioritariamente.

“Essa empresa será sempre sua” – como citou recentemente a minha querida menina, a última a eu idealizar o repasse de propriedade. E quando ela falou, pela última vez depois de ter ouvido disso algumas dezenas, eu encarei.

Assim como meu pai buscou idealizar, durante quase todos seus setenta e poucos anos seus filhos, ainda hoje resmungado por eu e meu irmão não termos saído a sua imagem e semelhança, eu até meus 38 anos tentei fazer o mesmo com “os meus”. Mas assim como na minha vida pessoal eu mudei, revendo o sentido e o sentimento da importância de um parceiro afetivo, o mesmo se inicia no meu universo profissional.

O que quero dizer com tudo isso, queridos leitores, é que apesar de felicidade só fazer sentido quando compartilhada, estou aprendendo a rever as formas de me relacionar. É como se padrões antigos, decorrentes da maneira que eu entendia as próprias relações e suas importâncias, estivessem perdendo o sentido. Como me relaciono hoje com um namorado? Como me relacionarei com pessoas da minha empresa? Eis as mudanças, parte delas vindas diretamente de mim e outras, vindas das circunstâncias incontroláveis que me mostraram que alguma coisa eu teria que revisar para prosseguir.

Por hora me sinto sozinho, entre altos e baixos emocionais. Mas se existe uma força maior me conduzindo para que eu saia de uma zona de conforto, eu aceito e já topei o desafio.

Muita gente, nesse ano de 2015, está vivendo o mesmo. Lá vou eu.

1 comentário Adicione o seu

  1. Ro Fer disse:

    A felicidade deve depender exclusivamente de nós mesmos. Ter alguém até nos ajuda, e em alguns casos a dependência é inevitável, mas isso tende a nos prejidicar.

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