Clareza de sentimentos


Três amigos gays, a princípio. Lucas conheceu o Paulo primeiro e depois o Bebeto, praticamente no mesmo período, mas em situações diferentes. Lucas estava numa fase de recém término de uma relação que durou quatro anos. Paulo tinha vivido algumas relações de meses e fugia do “fantasma” de uma última história curta, regada de frustrações e quebra de expectativas. Bebeto vivia seus primeiros casos, dando vazão ao gay que era, recém saído do armário.

Lucas queria curtir. Depois de quatro anos de um relacionamento estável e fiel, terminava com seu namorado de maneira sincera, na base da conversa, quando ambos entendiam que o tempo juntos havia acabado. Preservavam um carinho mútuo, um respeito e a amizade viria em questão de tempo. Pelo menos, era isso que Lucas e o ex acreditavam.

Paulo buscava uma oportunidade de se agarrar em alguém para que pudesse exorcizar aquele fantasma, de um rapaz que idealizou tanto. Havia conferido um pedestal para o menino e que, na real, era bem diferente do que ele enxergava. Viu em Lucas a oportunidade de transbordar a vontade de um relacionamento idealizado, bonito, de amor puro e união. Estava “trocando” de pessoa, mas visando o mesmo ideal.

Bebeto tinha Lucas como referência. Lhe parecia mais vivido e gostava de ouvir os conselhos que o amigo oferecia. Ainda novato, Bebeto conheceu seu primeiro e segundo casos pelos aplicativos. Lucas dava dicas, Bebeto ouvia com atenção e podia compartilhar conquistas e desabafar desilusões com o amigo.

Paulo começou a mostrar suas intenções para o Lucas. O segundo, numa fase declarada de curtir a vida, recém terminado um namoro longo, tendo que viver momentos de superação e – ao mesmo tempo – se dar a oportunidade de conhecer outros gays sem compromisso, logo notou o interesse mais sério de Paulo. Disse algo assim:

– Você quer algo sério e não é “tranqueira” pra eu ficar curtindo. Você vai se envolver, vai curtir e vai querer um compromisso. Não posso te oferecer isso hoje. A gente poderia ficar, se você estivesse numa fase mais largada também. É melhor mantermos a amizade.

Paulo entendeu e disse mais ou menos assim:

– Interessante o lugar que você está me colocando. Mas eu te respeito. Amigos então.

O tempo foi passando e o Lucas foi curtindo com aqueles que evidentemente estavam numa fase parecida com a dele, sem riscos maiores de rolar algum encantamento por uma das partes. Paulo focou em suas buscas, de alguém que o completasse de uma maneira mais “séria” e, Bebeto, vivia seu segundo caso, cheio de expectativas de um namoro, mas naquele período colhia algumas frustrações. Chegava ao Lucas meio triste, desabafando e ouvindo os conselhos do amigo para que focasse na superação.

Um pouco mais de tempo se passou. Para Lucas, aquela fase “tranqueira” foi perdendendo a graça. O que era divertido da curtição foi virando rotina e uma nova abertura para um relacionamento se iniciava. Paulo havia encontrado alguém, começou um namoro e podia, assim, desdobrar seus desejos de esquecer do passado e partir para um envolvimento ideal. Bebeto havia resolvido dar um tempo em suas buscas para curar as feridas de suas primeiras experiências.

Lucas e Bebeto começaram a sair mais juntos. Bebeto não pensava em noites e baladas e, assim, Lucas combinava com ele passeios diurnos: cinema, sorvete, caminhadas. Almoços e papos aleatórios sobre a vida. Foi nessa frequência que, sem querer, ambos começaram a se interessar um pelo outro. Lucas arriscou e sinalizou seu interesse. Bebeto foi recíproco e começaram um namoro.

Passaram-se alguns meses, seis ou sete talvez, e a história de ambos começou a esfriar por circunstâncias naturais da vida. O encanto para Lucas estava acabando e, apesar de Bebeto ainda estar com expectativas, o que um não queria, dois não faziam. Terminaram. Naquele contexto, Paulo também estava novamente solteiro. Seu namorado havia se distanciado e definiram manter uma amizade.

Não demorou muito tempo para o Paulo se reaproximar de Lucas com intenções. E aí, o diálogo quase que se repetiu:

– Bebeto, eu estou precisando de um tempo. Preciso curtir e viver meu desapego.

– Tudo bem dessa vez, Lucas. Entendo sua fase e vou curtir com você o que for possível.

– É curtir mesmo, ok?

– Ok.

E assim curtiram uma, duas e três vezes. Na terceira, deu a impressão de que Paulo havia lançado uma declaração de amor por Lucas pelo Whatsapp. Mas o segundo não deu a devida atenção, ou melhor, não poderia enxergar aquilo naquele momento pois entendia, no fundo do seu peito, que não cabia um amor naquela fase. Deixou passar aquela mensagem e ficou assim.

Paulo resolveu se distanciar porque, um tempo depois, o ex estava retornando. Havia a expectativa de reconstruir um sentimento. Quando Lucas soube, não se opôs, não fez escândalo, nem ficou reticente.

Paulo chegou assim:

– Você vai ficar com ciúme?

– Talvez um pouco. Mas eu te entendo e acho ok você tentar de novo com seu ex. Eu gosto da nossa amizade colorida, mas vou me virar. Vai com fé.

E Paulo foi. Passaram um tempo sem se falar, até que Lucas resolveu mandar uma mensagem para o amigo: “e aí, está fluindo com seu ex?”.

Paulo disse assim:

– Acho que acabou o encanto. Mas estou me aproximando do Bebeto. Como é isso para você?

Lucas sentiu aquela questão, pensou um pouco e disse:

– Olha, é até engraçado você me perguntar isso. Nesse rolo, acho que bate mais um apego por você do que pelo Bebeto. Mas mesmo assim, sei que não vou oferecer o que você procura. Acho também que você e ele combinam bastante em gostos.

Naquele tempo, Lucas não falava mais com seu ex, o Bebeto, por escolha do segundo. Paulo acabou também sumindo.

Uns três meses se passaram. Lucas chegou a ver uma foto do Bebeto junto com Paulo e mais um casal de amigos do primeiro. Lucas ficou feliz, sinceramente, por notar que alguma história mais íntima poderia estar rolando entre os dois. Ele estava mais uma vez numa fase de exercitar seu desapego e, com tais experiências entre outras, aprendia a ter cada vez mais clareza de seus sentimentos: “um namorado é ‘meu’ quando estamos namorando. Quando não estamos, ele passa a ser do ‘mundo'”.

Desapego.

Lucas sempre foi diferente nesse jeito de pensar. Se tornou amigo do primeiro namorado e só perderam contato, não por intrigas e joguetes infantis de ex-namorados, mas porque depois de 10 anos de amizade, ambos eram outras pessoas. Na altura do campeonato, ele já tinha também se tornado amigo do ex, do começo dessa história e, pelas circunstâncias da vida, ia firmando cada vez mais para si que “ex-namorado passava a ser do mundo”.

Clareza de sentimentos.

Mais um tempo se passou, quando recentemente resolveu dar um “oi” para o Paulo. Curioso para saber se ele e Bebeto estavam namorando, se antecipou:

– E aí, como vai o namoro com o Bebeto?

– Não teve namoro nenhum. Somos apenas bons amigos.

– Como assim?! Me pareceu tão certo que você cultivava por ele algo a mais e vice-versa. Teve até aquela nossa última conversa, da sua preocupação por ele, das inúmeras afinidades entre vocês dois e de quanto vocês estavam se tornando íntimos.

– Não. Essa foi a sua ótica. Somos bons amigos – Paulo respondia friamente.

Lucas ficou sem entender direito aquela história. Tempos depois, se encontrou com uma amiga em comum dos três, a Ana. E foi numa conversa com ela que a verdade veio à tona:

– Lucas, você realmente pensa diferente. É impressionante o seu desapego e como tem claro os sentimentos que você constrói pelas pessoas. Muitas vezes eu te admiro, mas a maioria das pessoas não funciona assim.

– Mas eu não estou entendendo onde você quer chegar. Você pode ir direto ao ponto? (rs)

– O Paulo se aproximou do Bebeto para tentar te provocar. Na verdade ele achava que você não iria curtir a ideia dele se aproximar do Bebeto, e ele esperava que você fosse atrás.

Lucas gelou e complementou:

– Mas eu sempre deixei muito claro ao Paulo que entre a gente não ia além de uma curtição – respondeu perplexo.

– Sim, ele tentou isso também. Mas ele se envolveu no final.

Lucas ficou confuso por alguns dias. Pensou e repensou sobre o assunto e entendeu a ideia de como a grande maioria faz, das pessoas quererem provocar e gerar ciúme para despertar a atenção do preterido. Mas chegou a conclusão que tais gestos tangiam a infantilidade e reconhecia que até algumas pessoas mais velhas, de 30 ou 40 anos assumiam esse comportamento. Mas ao mesmo tempo, em suas reflexões, definiu que seria incapaz de gerar sentimentos ruins, como o ciúme, para que alguém viesse até ele. Durante sua vida e suas experiências, aprendeu às duras penas que aflorar tais emoções negativas só alimentaria o gênio ruim das pessoas, a insegurança. Não valeria a pena construir mais relações pelo medo mas, sim, pela paz de estar junto a alguém.

Assim, o protagonista dessa história não tem arredado o pé. Segue convicto em sua postura e tem construído a si algo que considera fundamental em qualquer relação: a clareza de sentimentos.

Achar que temos um controle sobre uma pessoa é saudável até a página dois. Querer provocar o ciúme no outro nos dá essa falsa sensação controladora, mas são por essas e outras que muitos casais não escrevem um livro inteiro.

2 comentários Adicione o seu

  1. André Galvão disse:

    Oie rsrs..olha eu aqui novamente.

    Bom Flavio, entendi perfeitamente o contexto e acho que ficar com jogos que isso pra mim nada mais é do que um joguinho para tentar chamar a atenção e envolver o outro de alguma forma, acho de total falta de noção e sensibilidade também para com a outra pessoa que de certa forma sem saber está sendo usado para tal.

    O Lucas foi super sincero desde o inicio e de fato ao meu ver ele agiu corretamente, afinal ele foi sincero e não quis que a outra pessoa colocasse expectativa alguma referente a um relacionamento. Hoje falta muito nas pessoas a sinceridade e franquesa do que quer ou não, seu amigo Lucas teve uma atitude de poucos, se o outro quis algo mais mesmo ele tendo falado isso já é um problema dele, e este deveria saber administrar sem jogos e usando uma terceira pessoa, e com isso sou totalmente contra, porém, é uma visão minha e cada um age como bem entende.
    Hoje passei por uma situação de que já estava conhecendo um cara a um mês, saimos, curtimos algumas coisas juntos e eu estava de fato investindo em um possível relacionamento, até porque ele estava sendo total reciproco a isso e falando “n” coisas que de fato eu acreditei e achei que estavamos na mesma pagína.
    No entanto, isso não passou de mais uma experiência, pois, simplesmente há pouco mandei um whats para ver como a pessoa estava e tudo mais e saber como foi a festinha que ele foi da filha de uma amiga…. A resposta foi seca, então perguntei se havia ocorrido algo, e simplesmente me veio a resposta que ele encontrou com o ex, conversaram sobre eles e resolveram voltar… Oi??? Como assim? A pessoa te rasga elogios e que quer algo com vc e volta do nada com ex? Mas enfim, o da nada foi pra mim né, porque ele já bem provavelmente estava maquinando isso…

    Sou um cara que jogo limpo e falo quando estou a fim ou não, pq como já disse varias vezes o que eu não quero pra mim, não faço para os outros. Estou triste mais passa, mais uma para aprender né rsrs afinal a vida é uma caixa de surpresas e estamos nessa vida pra viver e nem tudo será flores. Por isso digo ser sincero é tudo, ninguém gosta de jogos e ninguém merece isso.

    Bom acabei desabafando um pouco né… mas é isso precisava desabafar um pouco também….e quem sabe eu encontre alguém bacana…

    Vamos viver tudo que há pra viver….

    Abraços

  2. Somos ideologicamente iguais e praticamente únicos, 7 bilhões de pessoas diferentes, cada um pensando de uma forma, agindo de outra, com sentimentos diferentes.. clareza de sentimentos, humildade consigo mesmo e com os demais, distorção de entendimentos fora os encontros e desencontros nos faz ainda mais diferentes uns dos outros.
    As vezes penso que a pessoa que eu quero nunca venha a gostar de mim, ou já tenha alguém como nesse “triangulo” de relacionamentos, um dia terei alguém, idealizado ou não, o que realmente importa é a reciprocidade entre os dois e que seja verdadeiro sem os joguinhos de conquistas e controle.

    Que venha alguém que possa escrever um livro até o final, se é que é assim que tem que ser.. se não for mais uma história sem fim.

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