Eu sou cheio de melindres


Insights sobre o relacionamento gay depois de uma conversa com o Jonathan

Para um ariano, no geral, se envolver por alguém não costuma ser algo muito dificultoso. Basta vir uma verdadeira atração com um punhado de afinidades e pronto: o ariano se joga.

Claro que com o tempo, as experiências e a maturidade, o ariano tende a ser menos impulsivo; aprende a se controlar e define melhor seus critérios. Mas nessa de se jogar, eu por exemplo, acumulei doze anos de relacionamentos e não me arrependo. Pelo contrário.

Mas a maioria das pessoas, principalmente em se tratando de um contexto social atual, de uma juventude cada vez mais individualizada e voltada ao próprio crescimento, super valorizada, super protegida e mimada dentro de casa – que a faz míope quando vai enfrentar a vida lá fora – não está preparada para a entrega. Pelo contrário, espera (assim como dentro de casa) que as entregas venham com certa comodidade.

Claro que em um país como o Brasil, repartido em inúmeros “brasis” diferentes, materialmente e culturalmente, quando alguns filhos precisam ajudar a sustentar a família por um lado e, por outro, outros filhos ganham os carros do ano quando passam na faculdade, os desafios se intensificam. Todo mundo quer uma vida melhor, cultural, social e material (e vou dizer que as três são intimamente depentendes). Mas dentre tantos pretendentes que surgem por aí (para aqueles que se permitem conhecer além da fast-foda) quem seria um “bom partido” para construir algo a mais?

Nesse contexto Brasil caímos numa vala de dúvidas e indecisões. Ainda como gays, que teremos preconceitos internalizados sem ao menos nos dar conta, tudo parece mais confuso.

O fato é que somos cheios de melindres e caprichos. Idealizamos o ótimo sem privilegiar o bom e, nessa toada, permitimos também a sermos criticamente julgados. No final, ninguém se entrega a ninguém.

A carapaça é dura mesmo e diante desse contexto, o jovem gay hoje sempre vai esperar (mesmo que sem se dar conta) que o outro sinalize um gostar maior para se ter garantias. Ou, numa outra hipótese, entramos num velho modelo: “João gosta de Antonio, que gosta de Pedro, que gosta de Luiz, que gosta de Roberto, que não gosta de ninguém”. De novo, ninguém se entrega a ninguém.

Sinceramente, não sei como vocês poderão superar essas “caixinhas existenciais e individualizadas”, por Deus eu sou de outra geração e os problemas estão aí para serem enfretados. Mas posso dizer um pouco sobre os ganhos das minhas investidas, de cabeça, nas minhas relações: já convivi com um namorado que vivia praticamente num cortiço. Outro vivia há quilômetros de distância de mim e me fazia viajar todos os finais de semana. Teve um que nem os pais e nem ninguém sabiam de sua homossexualidade. Mais outro que era um maconheiro inveterado. Teve aquele que a família era tão influente em nossas vidas que acabava por namorar com pai, mãe, irmã, primo, tio, cachorro e o próprio namorado. E um último que, ao contrário do modelete-gay, era mais afastado da própria mãe e íntimo do pai.

Notem que citei apenas as possíveis barreiras ou dificuldades. Porque a nossa mente é uma armadilha danada. E aposto que a maioria de vocês entram exatamente nessas mesmas problemáticas ao julgar o outro, sem dar conta, dos potenciais que contectam as pessoas. A mente melindrosa e caprichosa pensa assim: “ah, fulano é pobre. Gostaria de alguém mais bem de vida” ou “ah, fulano é mais bem de vida que eu, não vou conseguir levar a relação”; “ah, ele mora muito longe. A distância é um problema”; “ah, o carinha é enrustido. Não vai rolar” ou “ah, o carinha é ‘muito assumido’. Isso pode ser um incômodo”; “poutz, fulano usa muita droga” ou “ah, não tem como um maconheiro como eu namorar alguém que não curta um baseado”; “puxa, é muito difícil conviver com a família do namorado”; “como assim, o cara não se dá bem com a mãe e tem mais afinidade com o pai?”; e assim por diante.

Isso é a nossa própria autosabotagem. Como se realmente fôssemos perfeitos e deslumbrantes, semi-deuses, capazes de glorificar a vida do outro! Bobagem.

O fato é que nessa toada de autosabotagem, acabamos arrancando a humanidade do outro e nos condicionando a uma prisão relacional. Ou seja, estamos sozinhos pela própria mentalidade.

A quebra de paradigmas nada mais é do que mudanças de padrões mentais. E, acima de tudo, precisamos estar dispostos a ela. Ou, simplesmente, aceitar a condição que nós mesmos nos colocamos.

Como costumo dizer: o problema não é o outro. O problema é achar que o outro tem algum problema. Somos essencialmente melidrados, mimados e nos achamos mais especiais do que a realidade.

Humanizar a si e ao outro tem disso. E pode ser uma jornada longa. O fato é que é solitária.

2 comentários Adicione o seu

  1. Jonathan Santos disse:

    Sabe aquele momento que paramos pra pensar em tudo que aconteceu antes de dormir? Eu não sei, até porque pela manhã as idéias estão ordenadas e mais digeridas.
    Hoje está um pouco mais fácil entender a idealização.
    Como humanos somos semelhantes porém tão diferentes um dos outros que se forma de pensar fosse de fácil identificação poderia substituir as digitais, somos únicos, somos diferentes.
    Acompanhar certas lógicas, determinadas visões ainda é um desafio pra mim, que vou desvendando através de críticas, opiniões e conversas como a que tive com o Flávio antes do post.
    Para que possamos nos sentir bem é preciso mesmo atualizarmos a mente e até a forma de encararmos os desafios, muitas vezes é mais fácil revoltarmos contra os outros do que olharmos para nós mesmos!
    É preciso sempre estar disposto a mudar, a somar competências a enxergar o outro com suas qualidades e defeitos e se permitir.. fácil não é, mas precisamos de atitude, as dificuldades estão ai pra todos e precisamos aprender com elas. Nossas atitudes são responsáveis pelo gosto do sucesso.. atitude de querer, de buscar, de fazer!

    Hoje sou melhor que ontem e assim espero ser a cada dia, somando experiências, críticas construtivas, promovendo as mudanças necessárias pra que quando chegar a hora de dar uma olhadinha pra trás, possamos enxergar que tudo valeu a pena!

  2. Rafael F. disse:

    Rapaz, eu hoje em dia me arrisco mais em relação a paixões, penso comigo que se não der certo tudo bem, amanhã será um novo dia e poderei quebrar ou não a cara o importante é nunca desisti. Hoje lê a seguinte frase: ” todo sofrimento provem de um desejo, enquanto houve desejo não haverá paz” achei essa frase apropriadíssima para me e outros caras que assim como eu são românticos incuráveis. Em relação a esses digamos pré julgamento que as pessoas fazem com as demais ao ir conhece-las de se fulano é pobre, rico, estuda ou não, se mora em bairro bom, se é efeminado, assumido… É algo bastante ruim já que essas demais acabam esquecendo a essência, o carácter que o individuo julgado por ter. Eu sinceramente eu me cansando de pessoas pobres de sentimentos, de tanta futilidade e não adianta vim dizer que o homem por se só pensa em sexo, em transar que isso é mentira pois existe suas exceções apenas elas estão longe daqueles que pensam que o sentimento vale mais do que apenas um sexo rápido ou talvez estejam perto e não são percebidos. De fato, todo esse contexto é complexo pois o que vejo é caras querendo apenas um coisa: Foot-foda, mas o importante sempre é nunca desisti pois por mais que demore um dia aquela pessoa aparece em nossas vidas.

    . Boa noite!

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