Como vinho


Abri um francês, tinto e encorpado, para inspiração do post de hoje. Edição limitada. Totalmente apropriado para o tema: amizade que, dizem, quanto mais antiga melhor fica.

No finalzinho do expediente, falávamos eu, Naiara e Tché sobre a amizade. Eles puxaram o assunto, dizendo que existe uma lei ou regra por aí que fala assim: “passou dos sete anos é para sempre”. Talvez se eu tivesse vinte e poucos anos, como eles, também gostaria de acreditar nessa máxima. Mas como já rodei alguns quilômetros a mais, posso dizer que tal verdade é quase certa.

Com meu primeiro namorado cuja relação durou quase dois anos, os oito na sequência foram de amizade. Assim, foi um relacionamento fraterno que durou 10 mas acabou depois. O Tché levantou a bola:

– Ah, mas vocês se viam sempre?

– Todos anos a gente se via algumas vezes.

– Mas não era frequente. Por isso que acabou.

Em termos. Acabou porque algumas relações acabam mesmo. Com 38 voltas da Terra a gente aprende a aceitar e conviver com a ideia de que algumas pessoas ficam e outras vão. Pelo menos isso aconteceu a mim e que, de maneira nenhuma, há de ser uma regra. Mas de repente, quando vi meu ex e ele me viu, notamos que a gente não tinha muito mais a ver. Plim.

Ao mesmo tempo, que curioso, pelo menos uma vez por ano me reencontro com uma amiga, a Letícia, que conheço nada mais, nada menos que 30 anos. Ela tinha 6 e eu 8. Eu vivo na capital e ela em Valinhos. Temos toadas de vida diferentes e uma distância física que justifica em partes a baixa frequência de contato físico. Mas nesses encontros, de uma a duas vezes por ano, passamos o dia juntos e, como dita a sensação inegável, “parece que foi ontem a última vez que nos vimos”. É uma intimidade que envolve, abraça, aperta e afaga.

No sábado passado me reencontrei com meu ex-sócio depois de alguns meses. Cansado de certos vícios da relação profissional, sugeri a ele um dia juntos como nos “velhos tempos”, focando apenas na amizade que tínhamos antes de entrarmos na empreitada de sociedade. Foi incrível, como nos velhos tempos, e pudemos ter a leveza da amizade, da camaradagem e do humor em comum para celebrar o sábado inteiro. 16 anos de amizade, também de bom tamanho. Ele, apesar de ser deveras preconceituoso e machista, por algum motivo divino, me colocou em outro lugar.

Está aí nessa conta mágica e orgulhosa de falar, a relação com um amigo e uma amiga do colegial. São praticamente meus vizinhos por todo sempre. Nos conhecemos desde 1993, ou seja, 22 anos. Esse meu amigo é o maior dos meus confidentes, dividindo posto com minha mãe. Se quiserem saber quem eu fui, quem eu sou e quem possivelmente eu serei, ele é uma das pessoas mais apropriadas para dar um palpite. Nos distanciamos em algumas fases da vida, quando eu entrei na faculdade, por exemplo, mas perpetuou-se a confidencialidade. Com a minha amiga, japa também, já tivemos altas brigas, dela querer ficar meses sem falar comigo e, assim como se nada tivesse acontecido, ela voltar. Ela não é a minha maior confidente, mas a pessoa mais responsável pelos meus bichos que já foram e, atualmente, pela minha preta-velha-cachorra de 11 anos, essa última, sem dúvidas, a que já me ofereceu uma amizade centenária! :)

Antigamente, como idealizador principal de meus encontros com os amigos, me orgulhava de contabilizar as dezenas de pessoas nos churrascos do colegial. Depois, um pouco mais recentemente, fazer minhas memoráveis festas de aniversário, reunindo de 60 a 80 convidados (incluindo todos os ex-namorados de uma só vez), me enchia de orgulho e era um tapa no meu ego. Eu me sentia com muitos amigos e quanto mais, menor seria a minha baixa autoestima.

Mas aí cruzei os 33 anos, a idade de Cristo e, quando me percebi, cansei. Alguma “função” havia perdido o sentido.

De lá pra cá contabilizo amizades que permaceneram e se contam com os dedos. Mas são daquelas amizades que se tornaram encorpadas como um vinho, embora poucas. E será que eu me ressinto por isso? Não, se ressintir por isso é papel para quem ainda tem 20 e poucos anos.

Bom saber que essa sede passa com bons e exclusivos vinhos. Depois de um tempo, todo mundo tem, no mínimo, um desses amores para degustar.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s