Novos lugares


Como gay, ou melhor, como um indivíduo em fase de experiência, costumava a colocar um namorado em um lugar bastante claro (hoje). Namorar ou me relacionar tinha muito de suprir a minha carência, atender minhas demandas (as vezes não verbalizadas, como se o preterido fosse dotado de telepatia) e cumprir as minhas exatas expectativas. Tudo era muito legítimo e vívido, mas hoje noto que a própria vivência – que de maneira eficiente é nomeada de “calos” e aprendizado – me faz colocar um relacionamento afetivo em um novo lugar.

Antigamente (e não faz tanto tempo assim), uma mensagem enviada e não correspondida em minutos, era motivo para aflições e angústias. Uma ligação não atendida, então, poderia ser a morte de parte de mim!

Dois ou três encontros me pareciam altamente suficientes para certas garantias (imaginárias) de que a história acabaria em namoro, até o terceiro encontro não vir e a torre inteira desmoronar.

E era assim e é ainda assim para muitos gays, aparentemente tão carentes e tão acreditados de que um afeto é o maior canal para o despejo de nossas dores e para o combustível de nossas alegrias. Como falei no primeiro parágrafo, muito legítimo e vívido para uma parte de nós, mas ao mesmo tempo, um tanto compulsivo e definitivamente infantil.

Embora tais gestos paranóicos e intensos perante o preterido nos humanize, fui aprendendo com os começos de relações, meios e, principalmente, os fins, que as “fantasias da Disney” na vida real nos colocam em situações muito desconfortáveis por um lado, quando achamos que a correspondência do outro deve ser do tamanho da nossa emoção por ele, como se o outro tivesse a obrigação de agir/ser como nós. E, até mesmo contraditório, quando nos coloca num estado cômodo ou confortável, quando realmente o preterido cumpre as principais “funções” que esperamos, mas tal “príncipe” não dura eternamente, ou pior, dura menos tempo do que gostaríamos!

Será sempre assim enquanto você não mudar. Mudar, inclusive, permitindo-se a viver relacionamentos doa o que doer. Tal modelo é claro: será sempre algo como “sou um mocinho indefeso, fiel, carinhoso, cheio de amor para dar e o homem, que começou como um príncipe, me parece hoje um vilão” – taí o vitimismo, termo bastante aplicável quando construimos parte dessa “caixinha”. Você é responsável por esse padrão.

O interessante desse modelo é que se perpetua, as vezes, para além dos 30 anos, perpassa os 40 e quiçá alcança os 50.

Caso narrado ontem:

– Fulano de tal tinha 30 anos. Tivemos um primeiro encontro e ele já queria me levar para casa. Disse que não precisava algumas vezes, mas o cara insistiu tanto que eu topei. No meio do caminho quis desviar para um motel. Ficou insistindo daquele jeito chato e eu não concordando, deixando bem claro que não estava a vontade. Nos pegamos, na porta de casa, mas eu já estava com o maior bode daquele cara. Daí que eu resolvi nem mais me corresponder. Ele me mandava mensagens e eu nem respondia. Foi aí que, durante a semana pela manhã, estava no bus lotado indo ao trabalho e tocou meu celular. Era um número desconhecido, eu atendi e era ele dizendo assim: “nossa, você sumiu! Está tudo bem?”. Como eu ia responder aquela pergunta sem noção para uma pessoa tão sem noção quanto? Tínhamos nos visto apenas uma vez! Fiquei praticamente mudo, não respondia as perguntas e ele ainda insistia, me pedia uma satisfação dos por quês do meu sumiço.

– Pois é… é tão comum essa postura entre os gays, não é? Aceitável, até, para quem tem 20 e poucos anos. Mas ter isso de um cara com 30 anos?!

– Depois disso eu mandei uma mensagem “descascando”. Chamei ele de infantil, pegajoso, compulsivo (rs).

– Confesso que já dei esse “chega pra lá” algumas vezes também. As pessoas acham que a gente constrói intimidade em apenas um encontro e se sentem no direito de tomar satisfação da gente depois de algumas horas de contato. Se precipitam, nos colocam em um lugar estranho…

– E o outro menino que me mandava mensagem e, as vezes, não dava pra responder na hora ou eu preferia deixar para responder depois. Daí ele já vinha: “nossa, demorou tudo isso para responder?! Aposto que está falando com outros caras também”. Poutz, que preguiça!

– Entendo perfeitamente (rs). O universo gay está cheio de inseguranças desse tipo (rs).

– Sim, pelo menos esse menino foi maduro e disse assim: “acho melhor a gente parar por aqui. Sou muito carente e preciso de alguém que corresponda na mesma intensidade do que eu”.

O fato é que carência e toda energia que vem com ela nos faz construir padrões de relacionamentos, colocando o outro em determinado lugar. Sei que é bastante difícil buscar uma consciência de si e notar o quanto a própria carência faz nos comportar assim ou assado, mas confesso que só vivendo essas etapas, todas alegrias e dissabores desse tipo de relação, é que conseguimos vislumbrar mais pra frente outras formas e maneiras, outro lugar para se colocar um namoro.

Buscar essa autoconsciência, sem bicos, caras ou bocas – sem o fatídico melindre que é bastante comum entre nós – é o primeiro passo para sair da mesmice, desse estado latente existente entre muitos gays que recorrem ao Blog e sofrem porque “todos os homens são canalhas”. Canalhas são proporcionais as “mocinhas puras, ingênuas e sonhadoras”. Se você é a vítima, fatalmente existirá um vilão porque você cumpre um papel que lhe cabe.

Aprender a humanizar as relações e as pessoas, tirando-as dos contos novelísticos dentro de sua própria cabeça, costuma a gerar uma consequência: relacionamentos mais maduros que nos aproximam de outros tipos de pessoas.

4 comentários Adicione o seu

  1. Nando disse:

    Nada a ver tio! (Rsrs)

    Cara eu te acho muito inteligente, mas ao mesmo tempo um pé no saco com essas suas reflexões, seus papos de estar “foa da caixinha”, meu vc pensa muito de um modo peculiar somente seu, cara VC pode ser uma pessoa maravilhosa, mas o modo que VC enxerga os relacionamentos repele qualquer pessoa que tem a intenção de se envolver com VC algum dia. Se VC continuar assim VC ficará velho, com a casa cheia de cachorros ou gatos, fumando dois maços de cigarro por dia e fodendo com os caras das saunas ou com os outros gays esquisitao como VC. Vale a pena VC pensar desta forma? De boa, a cada texto seu que eu leio te sinto cada vez mais superficial, e menos humano. Abraço M.V.G

    1. minhavidagay disse:

      Eita!
      Será que repele mesmo? O que justifica o meu primeiro namoro ter durado quase dois anos? O segundo um ano e meio? O terceiro, um casamento de quase três anos?

      Fora outro relacionamento de quase quatro anos? Será mesmo que sou tão chato assim?

      De qualquer forma, toda opinião é válida. Só não acho que as minhas visões são tão peculiares assim…

      Valeu, Nando!

  2. Sérgio disse:

    Cara…

    Parabéns pelo texto! Venho passando por situações nas quais me vi nos seus escritos. Sim! Sou o coitadinho! Construo um lugar que nem sei como sair e quando vou ver, tô fodido lá dentro. Magoado, chateado, desvalorizado e puto comigo!

    “Antigamente (e não faz tanto tempo assim), uma mensagem enviada e não correspondida em minutos, era motivo para aflições e angústias. Uma ligação não atendida, então, poderia ser a morte de parte de mim!”

    Este sou eu. E a imaginação rolando à mil. Porque se não atende, algo errado está acontecendo!

    Legal encontrar um relato assim que não parta do lado do meu namorado. A vida é desafiadora e sei que com 38 anos, ainda tenho medo de viver alguns aspectos dela!

    Abraços!

  3. Andrew disse:

    Puts! Sempre quando venho ao MVG tem um texto bacana, e esse não foge à regra. Lugar de vítima, quem nunca? Hehe, pois é, já agi assim algumas vezes e me envergonho bastante, mas ao menos tive um ‘insight’ de tomar consciência da situação, aliás de mim mesmo. E isso (como apontado no texto) obviamente leva tempo; meio clichê até, mas vem com o inevitável amadurecimento. Novos lugares, novas possibilidades, parece até física quântica rs! :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s