Faltou um tempero


A minha vida gay vai bem e estamos fechando o ano de 2015. Faltam menos de três meses para deixar passar 365 dias que, numa média geral, foi bastante morna ou frustrante para a maioria dos brasileiros. E quando digo assim, não me vejo envolto de pessimismo, mas bastante atento aos movimentos reais, políticos e econômicos, cujo ponto de vista deixei bastante claro no post anterior. Um ano digno de uma frase assim: “eita ano em que o Brasil deu uma recuada e que vai reverberar em 2016!”.

Mas a vida não é feita somente de espinhos. Porém, continuando a citá-los antes de entrar nas pétalas das flores, 2015 deixou seu registro no meu pequeno universo particular, de mudanças significativas de pessoas em minha empresa. Espinhos que, definitivamente, não surgiram a ponto de ferir mas que por pouco não me atentei que estavam lá aonde estavam. Foi um ano que sai de uma zona de conforto e literalmente tirei a bunda de um lugar onde eu desejei estar e fiquei assim por três anos. Nesse ritmo, pessoas se foram, outras voltaram e novas vieram. Curiosamente, nessas idas e vindas que marcaram transformações na rotina de todos os envolvidos, quiçá meu ex-sócio – depois de um ano e meio de buscas por aí, lá fora, na vida profissional – talvez retorne à empresa. Não é curioso como as ondas fazem?

Vieram também as pétalas porque, talvez, esse ano nunca se fez tão jus a uma frase para uma maioria: “depois da tempestade há sempre a bonança”. Perdi a minha cachorra-velhota, a última companheira de uma geração que esteve ao meu lado durante 11 anos. Mas na sequência, a vida por minha própria escolha, trouxe alegria ao meu quintal com o Tango e, brevemente, haverá seu companheiro com quase 45 dias de vida: o Kibe. Formarei uma duplinha novamente, assim como um dia a Pinna esteve para o Nêgo e vice-versa. :)

Das pétalas que arranquei e atirei para serem levadas pela brisa, seguiram os amigos do MVG, aqueles que fiz por aqui. Depois de três anos de uma amizade/mentoria frequente, me vi diante de “aprendizes formados”. Mesmo o Kota, o caçula da turma, que nas últimas conversas há meses atrás me pareceu meio reticente para desvendar seus romances, tentou, tentou e decidiu dar um tempo a si por livre e espontânea vontade. Em outras palavras, todos me pareceram chegar numa etapa da vida gay onde queriam chegar até o momento, com menos mitos, tabus ou receios.

O que era comum entre eles, há dois ou três anos atrás, se traduzia em autopreconceito, rigidez e dificuldades para enxergar uma qualidade de vida, conciliando o fato de serem gays com o fato de serem as outras partes que nos fazem indivíduos em sociedade. Com um empurrão aqui e ali, muita conversa e tapas com “luva de pelica” (as vezes porrada mesmo, sem hipocrisia – rs), cada qual compreendeu o encaixe possível da própria homossexualidade num contexto maior e fluido de si. Eram todos muito parecidos quanto as questões existenciais.

Questões resolvidas, brotou pessoas tão diferentes uma das outras. Bonito de ver, mas hoje, estranho forçar uma compatibilidade.

Tive uma vontade súbita de puxar o freio como o “MVG a eles” e os encontro, one-to-one, quando acontece naturalmente. Diferente de antes, quando sempre tinham uma ou mais angústias para compartilhar e conselhos para se ouvir de minha parte. A “função MVG” naturalmente perdeu o sentido.

Não deixei de escrever o Blog MVG e nem penso em parar pois aqui há um legado. Mas nessa toada, é nítido a mudança de rumo de minhas palavras. Às dúvidas primoridais para quem é gay indeciso, confundido ou perdido, há referenciais de respostas e pontos de vista nos mais diferentes posts esparramados por aqui. Cansei sim de discursar sobre trivialidades (que não são para muitos, com todo respeito) mas que, hoje, a mim, passam há anos-luz das minhas demandas. Minhas necessidades de existência são outras agora, ou pelo menos assumem alguns novos contornos.

Das pétalas ainda, iniciei o ano de 2015 em Las Vegas para depois conhecer San Francisco (cidade incrível, digna de retorno) e, por fim em janeiro voltar para Chicago. Eu e o Japinha, meu ex-namorado, nos perdemos logo no começo do ano e, vejam que interessante, trato o tema não como espinho, mas como pétala. Quase um ano já se passou e o contato se perdeu. Bem ou mal, não era como eu gostaria, mas quem disse que temos controle sobre as escolhas dos outros? Ele preferiu assim e assim se estabeleceu.

O mundo girou para todos. Eu revisitei a sauna, fiz minhas putarias via aplicativos de pegação, retomei contato com o “amiguinho” bissexual e, para variar, deixei boquiaberto aqueles leitores mais carolas/coxinhas (os quais se ofenderam ou acharam um absurdo homens gays como eu, “formadores de opinião”, abusarem da promiscuidade, como se eu realmente vinculasse a minha integridade/sexualidade com o tema). Depois do meu turbilhão, comecei a sossegar novamente.

Nesse giro de quase um ano, o que definitivamente mudou foram meus valores e meu olhar para os formatos de relacionamentos afetivos os quais havia estabelecido até então, certo de que havia uma preguiça e cansaço de algumas convenções e modelos já exaustivamente vividos. O namoro com o Beto, por quase quatro anos, tinha sido o ápice de um ideal normativo. Foi lindo e suficiente. Com o Japinha, também pelo fato dele ser descendente de japonês, já se entoava alguma coisa diferente.

Assim, ao meu lado estava um caminho certo, percorrido algumas vezes e dotado de pequenas nuances com cada ex-namorado. Mas busquei (e confesso que a sensação é de que ainda busco) por modelos novos ou, talvez, pessoas diferentes daquelas que eu havia convivido. Foi uma mudança mental, sem dúvidas.

Como eu acredito fortemente em energias e que tais fluxos vibram em frequências diferentes quando nós mesmos mudamos, tenho notado algumas intrigantes situações, subjetivas ou até mesmo “bobocas”, porém situações: até o Japinha eu havia namorado três virginianos. Não bastasse, fiquei com um punhado de rapazes do mesmo signo.

Tais seres de Virgem desapareçeram do meu radar desde então. O que é um certo alívio pois, elaboração por elaboração, convenção por convenção, era inevitável notar semelhanças comportamentais nesses seres, mesmo ciente de que astrologia é muito mais.

“Diz a lenda”, segundo meu ex-Beto que é um amigo frequente hoje (e um dos virginianos), que tanto ele como eu sempre “pagamos pau” para loiros caucasianos. Confesso não me recordar dessa afirmação, mas ele jura de pé junto que eu sempre gostei desse perfil.

Acontece que até então, tais especificações estéticas não me pareciam tão possíveis assim. O ponto era estatístico: estamos num país cuja a maioria da população é mulata/mestiça. Espanhóis com portugueses, índios, italianos e negros formam a misturinha básica geral. Assim, não tinha grandes expectativas.

Mas foi a partir do Tché, loiro de olhos azuis, que veio em seguida o Julio, dois dos meninos que pintaram na minha vida quando a minha toada já não era mais tanto a da putaria. O Tché veio trabalhar comigo, criou-se uma relação profissional quando as vezes a gente “abre parênteses” para trocar ideias pessoais. O Julio desapareceu e, nesse fluxo todo, tentei dar a mim a oportunidade de me aproximar ou me interessar por pessoas em torno da minha idade, 36, 37 anos e o resultado não foi animador: água com açúcar. Mas já tenho argumentos para responder aos amigos pentelhos: “não foi por falta de iniciativa”.

E por intermédio daquele mesmo tipo de aplicativo, como o Hornet, o mesmo que estabeleci contato com o Tché, com o Julio e que é sinônimo de pavor, desgraça e maldição para muitos gays que acham “impossível” encontrar alguém sério nesse tipo de meio, conheci o Rafa, que tem sido assunto frequente nos últimos posts.

Posso dizer que estamos numa relação leal há três meses sem citar a palavrinha “namoro”. Ele, igualmente causasiano, loiro e de olhos azuis. Para resumir a pétala que contém o Rafa, de maneira que materialize bem o sentimento, digo assim: “me sinto em paz”.

Assim, filhos novos: O Tango dentro de casa e o Kibe que deve andentrar nas próximas semanas. Uma pré-disposição total para enfrentar qualquer interpérie, a frente da minha empresa, que a nossa chula governança está provocando enquanto se atentam aos próprios umbigos. Uma sensação de “missão cumprida” por ter conseguido realizar a viagem para NYC em setembro, planejada desde o começo do ano, podendo conduzir minha mãe de 70 anos, meu amigo adoentado e sabendo que os novos gestores estavam há apenas 2 meses na minha empresa. E por fim, mas não menos importante, algo gostoso e sereno que vem dessa relação com o Rafael.

Mesmo assim, entre pétalas e espinhos, eu, Flávio, ariano, sinto que falta ainda algum tempero em 2015. Odeio anos, situações ou casos mornos, quando certas complicações que fogem de nosso controle (tal qual a condição economômica, terrivelmente mal administrada pelos nossos eleitos) anulam as cores das pétalas. O que me consola é que, nesse estado de banho-maria, eu só tenho acumulado energia. Para quê? Vai saber… mas assim como um dos amigos do MVG, que vou me encontrar amanhã para colocar os papos em dia, eu também sou um foguete.

Só sei que na minha nave tem muito combustível. E a ideia, claro, é seguir em frente.

2 comentários Adicione o seu

  1. Lucas disse:

    Identifiquei-me bastante com a parte do seu texto que aborda as mudanças que você observou nos amigos do MVG. De fato quando eu conheci o blog, há quase três anos atrás, eu estava num momento muito conflituoso, cheio de preconceitos, inseguranças… Através das referências que vi no blog e um pouco de ousadia fui me permitindo viver a minha vida. Tenho conseguido que enxergar que a minha sexualidade tem passado para um segundo plano na minha vida, não é mais com ela que me preocupo todos os dias. Primeiro vem família, depois amigos, depois a vida profissional e depois a vida sexual. A homossexualidade quase não me causa mais sofrimentos. Enfim, minha tem se tornado mais leve. E o MVG ajudou a tirar uma parte dessa carga das minhas costas. Obrigado Flávio por esse seu trabalho social.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s