Pra que lado eu vou


Ontem tive o prazer de encontrar o Matheus, amigo do MVG que começou sua trajetória “out of the closet” ao mesmo tempo que lia os posts do Blog. Falo de 2012, há exatos três anos atrás que, curiosamente, bateu a marca por esses meses, entre setembro e outubro.

Dentre tantos assuntos que lançamos num agradável momento no jantar, como os cuidados com cães (algo que ele tem vontade de ter), minha viagem para NYC, trabalho e suas sensações novas em seu apartamento recém adquirido, claro que falamos sobre um dos temas mais abordados nesse universo, nas mesas de bar, nos sofás e nas rodinhas entre amigos, sejam gays ou heterossexuais: relacionamento.

Relacionamento tem esse poder mágico de atrair, de nos motivar a pronunciar palavras ao outro, esperar um comentário em troca e iniciar um efeito bumerangue que, se fosse possível, não teria fim. Talvez porque as sensações que envolvem o tema nos colocam, no geral, numa eterna antagonia: relacionamento é bonito e feio, bom e ruim, de posse e desapego, de nos jogar ao alto e de nos colocar no subsolo, de egoísmo e altruísmo, de querer bem e de querer mal, medo de ter e de perder e de fidelidade e traição, este último, quase que normatizado na cultura nacional.

Creio eu, mas posso estar equivocado, que tal antagonismo se estabelece até os 30 e poucos anos para uma média geral hoje. Como atualmente nos tornamos “adultos” bem jovens e, ao mesmo tempo, perpetuamos um espírito de adolescente para além dos 30, essa sensação de paradoxo também perdura pois é inerente às práticas dos relacionamentos, expondo nossas sentimentalidades e que, invariavelmente, fará parte da equação do crescimento e amadurecimento individual. Por causa de um trocinho chamado ego, o ser humano morre de medo de se tornar vulnerável. Por causa desse trocinho, de uma baixa autoestima de ser brasileiro (que nos revela uma cultura carente, dependente e muitas vezes dramática) e, no caso de gays, pela dureza que é construir um referencial normativo do que é “ser gay”, amamos e, ao mesmo tempo, odiamos nos expor em relacionamentos, com medo de sofrer a tão indigesta desilusão.

Para muitos essa gangorra é quase que um consolo de si pois, aparentemente, com todo mundo acontece assim. Então tem um sentido de inclusão também, que supre a baixa autoestima cultural: “está acontecendo com fulano, acontece comigo e com o beltrano. Então está tudo certo”. E continua como consolo até que a própria vida, num determinado período de tempo, começa a apresentar outros sentidos e outros referenciais. Taí, a mim, o processo de autoconhecimento e amadurecimento.

Será que relacionamentos afetivos precisam ser uma eterna gangorra, que nos colocam sempre num estado de calor e gelo, que nos arrebatam e nos despejam “como lixo” de tempos em tempos a ponto de soltarmos ao vento: “nunca mais vou me entregar a ninguém!”?

Notam o tom de “E o vento levou”? A reatividade? O drama?

Como reflexo para tentar validar minhas palavras, estão aí as novelas brasileiras. Mudam atores, linguagem visual e formato, mas a dramaticidade das cenas de traição, paixão intensa, amor e ódio são fatalmente aquelas que darão maior audiência. Na mesma toada, na timeline do Facebook, adoramos acompanhar a maioria dos casos dramáticos das vidas alheias, de crianças vivas e acéfalas, de portadores de deficiência física em superação e assim por diante. Adoramos cobiçar o sentido de superação do outro, as vezes como referência positiva, as vezes como se aquela virtude, da superação, não existisse dentro da gente ou, até mesmo as vezes (da maneira que eu acho ruim) comparando consigo e pronunciando em silêncio: “poxa, tem gente numa situação pior que a minha” – a comparação nivelada por baixo.

Comparar nivelando por baixo, no meu ponto de vista, não tange o plano de ser humano. É algo cultural, próprio de nossa bolha e de outras também. Mas no caso, vale o que acontece aqui dentro.

Acredito sim que dá para tirar um relacionamento afetivo desse patamar. Mas como na maioria dos exercícios de superação, não exige apenas força física e mental. É necessário fortalecer uma energia espiritual.

Vivemos num país em que “ter” qualifica o nosso “ser” e, desde muito jovens, somos impactados por essa mensagem. Compramos a ideia gratuitamente e achamos que assim é que funciona. Exemplo básico: há uns dois anos se iniciou um negócio: uma empresa começou a alugar iPhones para que jovens (que não conseguem comprar o aparelho ou não se submetem a parcelas de valor de um carro) possam ostentar em momentos sociais, baladas, bares e encontros com amigos. Não menos conturbada é essa relação do “ter” com o “ser”, no Brasil algumas pessoas vivem em casebres sem acabamento, mas darão os mais de R$ 300,00 ao mês para carregar consigo um desses aparelhos.

Vivemos, assim, num país em que boa parte das pessoas acreditam, com todas as forças, que se tiver um iPhone será uma pessoa mais querida, mais legal e mais interessante. É o “ter” qualificando o “ser”. Se uma pessoa acredita, compra a ideia e vive a vida pensando assim, que será alguém mais querido, legal e interessante pendurando um iPhone no pescoço, uma tevê de 120 polegadas numa casa sem acabamento e um Audi parcelado em 56 vezes, quais são os critérios e percepções que ele tem sobre o outro, sobre si, quando bate aquela vontade de construir uma relação?

Não quero dar as respostas, mas o objetivo do MVG é exatamente esse: fazer refletir. Então repito a pergunta: quando a gente aprende nesse país que, para ser querido, legal e interessante a gente precisa ter um iPhone, vestir Abercrombie & Fitch e ter um Audi na garagem, como se estabelece o sentido de se relacionar com o outro?

Embora esse exemplo seja extremado (mas não impossível em terra nacional), o sentido do “ter” qualificando o “ser” reverbera em vários níveis (dos extremos como esses, aos sutis) em todos nós, brasileiros.

Nos falta sim desenvolver a espiritualidade, a autoestima e novos referenciais. E por onde começar? Bem, de certa forma, esse texto já é a vara e o anzol para aqueles que notaram sentido.

Uma coisa eu aprendi na vida: ninguém arranca um refém desse modelo se a própria pessoa não se tocar.

1 comentário Adicione o seu

  1. Lobo Solitário disse:

    É minha primeira vez aqui no blog. Achei edificante as postagens. Eu sou um cara que nunca amou ninguém. Moro sozinho, vivo sozinho. Não tenho ideia do que é ter alguém pra chamar de meu. Já procurei em muitos lugares. Na net, em baladas. Nada. Somente corpos sarados e papos vazios. Mesma coisa no Face. Tudo legal até vir para o real. O príncipe vira sapo na hora. As mentiras contadas. Tudo eu vejo e sorrio amarelo. Desmoronou mais um castelo. Porque é tão simples o que eu sempre quis: um homem para um homem.

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