Como é que faz, Geni?


Há 27 anos a Geni trabalha para a minha família. Na verdade, para os meus pais ela deixou de realizar seus serviços de limpeza faz 3 anos, quando depois de mais de duas décadas não tolerava mais o perfil autoritário e radical de papai e pediu as contas. Dizia ter levado todo esse tempo em consideração a minha mãe, mas que havia chegado seu limite. Continuou comigo, depois que estabeleci minha casa própria, quando antes já não fazia algum serviço na época em que eu morava de aluguel.

Diante do contexto político e econômico no qual vivemos, fiquei um pouco abalado com a história que ela me trouxe hoje:

– Ai, Flávio… o meu filho vai ser pai de novo só que com uma outra mulher. Eu falei pra ele tantas vezes: “Zê, esposa é uma só e filho só com a mesma mulher!”.

– Mas Geni, me conta essa história direito.

– Faz duas semanas que ele me contou que tem uma amante por quatro anos. E agora a mulher está grávida. A vizinhança já sabe, todo mundo já sabe, eu desconfiava e a esposa dele já deixou bem claro: “Se eu descobrir que ele tem outra eu acabo com o casamento”.

– Poxa, Geni… que situação. Justo agora que você está se livrando do seu marido que fez a mesma coisa com você.

– Sabe Flávio, o Zê falava comigo faz tempo: “mãe, não sei quanto tempo eu vou aguentar. A Lalá não passa as minhas roupas. Olha isso, mãe. Chego do trabalho e não tem comida pronta, a casa fica toda bagunçada. Olha a minha roupa mãe, não está passada…”. E sabe, Flávio, eu conversei com a Lalá. Disse a ela que tinha as obrigações de esposa com o Zê, mas ela nunca quis saber.

– Mas desculpa, Geni… é a sua vida, são os seus sentimentos pelo seu filho. Mas não tem nada a ver uma coisa com a outra. Se ele estava insatisfeito com a mulher, porque não separou antes? Sua religião proíbe, né?

– Ah, proíbe… proíbe, mas se a mulher não cumpre com a parte dela tem que separar. Sabe, quando o Zê era pequeno e eu quis separar do pai dele, eu falei assim: “Zê, você precisa escolher se vai ficar com seu pai ou com a sua mãe”. Daí ele disse assim: “Ah, mãe, eu queria ficar com os dois” e aquela resposta cortou meu coração. Não separei e esperei todo esse tempo para fazer isso agora.

– Eu entendo, Geni. Mas olha só o que aconteceu agora: você não separou, não fez seu filho tomar uma decisão, embora fosse dura naquela época, e agora ele está fazendo a mesma coisa com a esposa e com uma outra mulher. De um lado, você está se libertando hoje de um homem machista e que te tratou com submissão e desrespeito por todo esse tempo. Mas na hora que você acolhe seu filho nessa situação, não toma uma atitude mais firme, você deixa ele ser igual ao pai.

– Mas eu não vou acolher, não! Ele pediu, pediu, pediu para eu ir até a casa da mulher por causa no neto. Mas eu não vou.

– Sei, Geni… não vai até a hora que nascer seu neto. Por que você acha que ele guardou essa história por quatro anos, de ter uma amante, e agora que vai ser pai com a outra mulher resolveu te contar?

– (…)

– Sabe por que, Geni? Porque agora ele vai ter mais um filho, vai ter trabalho e vai precisar da mamãe pra ajudar! E você vai ajudar, Geni. E se você ajudar, você vai aceitar que seu filho seja como seu marido foi com você. Ele vai ser igual para essas duas meninas. E, se a criança que nascer for menino, bem capaz que ele seja a mesma coisa para as mulheres que conhecer quando for adulto, porque ele vai crescer vendo que tudo isso é permitido: que a vovó Geni sofreu com o vovô mas não largou e que apoiou o pai, no final, cuidando dos dois netos. Pra seu neto, Geni, tudo isso vai ser normal.

—————————

Minha querida Geni, em sua ingenuidade, humildade e compaixão, mal se deu conta que o modelo machista que foi sua tormenta por mais de 30 anos em sua vida, estava sendo concedida por ela para seu filho. No calor de mais de 30 graus do dia de hoje e depois de uma semana corrida, me veio um mal estar muito grande – um enjôo – perante a situação difícil a qual minha querida Geni tem passado. Por um lado, humanista e até mesmo de valores cristãos, entendo o papel que ela tem como mãe de ajudar o filho nesse contexto tumultuado em que se enfiou. Por outro, ela assumindo esse papel de meio de campo em todo esse enrosco, consente ao próprio filho que perpetue uma cultura machista e autoritária e que, do ponto de vista social, tantas instituições, organizações e profissionais vêm batalhando para transformar. Que do ponto de vista emancipatório, é umas das variáveis que mantém o Brasil no estado de subdesenvolvimento e desigualdade.

Que difícil, que chateação. Fiquei bastante mal por essa história, obviamente, pelo sentimento que carrego pela minha Geni. Ao final, ela questionou:

– Flávio, você acha que estou fazendo errado? Como você acha que eu deveria fazer?

– Olha, Geni, para você ter cortado com todo esse machismo e ter educado seu filho diferente, você teria que voltar no tempo e, lá naquele dia, quando o Zê era pequenininho, ele teria que ter decidido se ficaria com você ou com seu marido. Agora, como você teve a compaixão por ele e o rapaz, com 29 anos, se tornou igual ao pai, seria ideal ele terminar com a esposa e ajudar as duas mulheres a criarem os filhos.

– Ah, mas ele não vai aguentar viver sem a filha…

– Pois é, Geni… nem ele, nem você sem a sua neta. Nem você, Geni.

Taí as nuances de realidade de um Brasil que é a maioria e que, as vistas da minha classe medíocre, não faz sentido ou, de fato, passa desapercebido.

Como é que faz, Geni?

 

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