Ah, essa autoestima!


Autoestima é um lance complicado. Principalmente quando interfere em um relacionamento, seja gay ou heterossexual. Quando a autoestima se preserva mais alta do que baixa, o que corresponde a estar em equilíbrio consigo, nosso olhar sobre os elementos ao nosso entorno vê as coisas de maneira neutra ou positiva. Mas quando deixamos a peteca cair e o nível de autoestima fica abaixo da “marca de segurança” de nosso termômetro, uma série de posturas, atitudes e pensamentos (depreciativos, negativos ou tendenciosos no sentido de nos vitimizar) se manifestam. Não tem jeito: humanos como somos, podemos – no máximo – tomar uma consciência das coisas que nos colocam para cima ou para baixo para tentar manter a balança equilibrada. Mas viveremos altos e baixos por longos anos, até quem sabe um dia, na maturidade, em terapias ou até mesmo numa busca da espiritualidade, aprenderemos a viver das curvas da vida com mais serenidade.

Autoestima, inclusive, diz respeito à superação de traumas. Se carregamos dos mesmos conscientemente ou não, é certo que manter a autoestima alta é mais dificultoso.

Quando não estamos satisfeitos com nós mesmos, um punhado de “pequenos” medos residem dentro da gente. Deixamos imperar certo ar de desconfia em quase tudo, em quase todos e a chance de idealizarmos alguém é enorme. É enorme, mas a idealização vem repleta de autosabotagem. Na idealização, podemos nos agarrar a alguém e – como já citei em outros posts – enxergamos somente aquilo que queremos do preterido. Qualquer coisa que saia do círculo das expectativas frustra muito. Diante dos elementos que compõem o outro, aquela parte que não encaixa com o idealizado, a gente tende a querer mudar, mexer ou controlar, como em um ímpeto de posse. Queremos o controle para, justamente, tentar nos assegurar que o outro não vai entrar em pontos que o nosso ego não saberá lidar. E, muitas vezes, vem a autosabotagem: é tão aflitivo lidar com as partes do outro que é diferente do ideal que, muitas vezes, a-ma-re-la-mos. A autosabotagem vem para nos poupar de ter que lidar com aquilo que a gente não considera “de acordo com o desejado” e, assim, perdemos muitas oportunidades. Oportunidades de conhecer o outro, por inteiro, construir juntos fora da caixinha do ideal e, mais do que isso, oportunidades de enfrentarmos aqueles medos que nos fazem estagnar no tempo. Podemos ser hábeis profissionais, bons filhos, mas corremos o risco de deixar a parte emocional estagnada na pré-adolescência.

Como um indivíduo com a autoestima baixa sofre mais com uma negativa, contrariedade ou rejeição, poupa-se de ter que lidar com as diferenças, coloca a frente o egoísmo, e – se certa manipulação emocional não dá certo – pula para fora do barco. Pode-se dizer que uma pessoa assim busca um desvio e não encara os problemas de frente (que, na realidade, estão dentro dela).

É infantil? É bastante, mas acontece em embalagens de 16 anos, 30 ou 50. Do ponto de vista espiritual, costuma-se dizer que pessoas assim não querem evoluir. E tal querer, ao contrário do que o leigo pode pensar, é definitivamente uma escolha, ou seja, ninguém está sujeito a vitimizar a própria vida para o resto dela. É possível mudar, desde que se queira. Mas existem muitas pessoas que preferem parar no tempo, definem coisas como “o homem não presta” e institucionalizam a desconfiança, lembrando que desconfiança é insegurança, é temor.

Costumo dizer que o demônio mora em nossos medos.

Agora vem a minha parte como referência: por longos anos, inerente a quase todos meus relacionamentos (e não foram poucos, nem curtos), busquei suprir a minha baixo autoestima em namoros. Tive a “sorte” de, na maioria deles, ter vivenciado trocas necessárias para que a autoestima de ambos se configurasse e, mais do que isso, que eu pudesse conhecer melhor minhas virtudes e defeitos, vivendo os próprios relacionamentos. Mas teve um dos namoros que me levou para um “precipício”. Me atirei e fui conhecer outra parte de mim somente depois do término. Com essas experiências no formato de par ou solteiro, pela terapia, busca da espiritualidade e pela personalidade voltada a “batalhas de superação”, venho aprendendo a enxergar (com mais consciência) todos os elementos, situações e escolhas que podem comprometer a minha autoestima. Mas isso tem sido escolha, há muitos anos (se não é desde que eu nasci) e vou dizer que é bastante penoso! Mas os resultados nos conferem uma emancipação emocional, um autocontrole.

Passei por traumas, muito deles, queridos leitores. Desilusões e decepções? Não cabe nos dedos das mãos todos eles, a começar pelos conflitos intensos e confusos que tive com meu pai, antes mesmo da minha homossexualidade se revelar. Mas soube me colocar nos trilhos e reconfigurar a minha mente. Tenho desenvolvido a minha espiritualidade, a ponto de compreender pelos sentidos, que eu não dependo hoje de um namorado para encontrar paz, embora algumas pessoas que cruzamos em vida, nos transmitam esse mesmo sentimento. Posso ter fases de aplicativos ou sauna, mas tais “compulsões” cessam na medida do meu autocontrole e, principalmente, quando me permito me envolver por alguém.

Tudo isso não são meras justificativas. Se estamos aqui só de passagem, a minha ideia é fazer valer a pena. O que mais tem me valido nas últimas décadas é o protagonismo e a busca (eterna) do autoconhecimento.

Para quem ainda não percebeu, a vida para mim é uma batalha e, na maioria das vezes, estou disposto e apto para o enfrentamento. Só não há como doar dessa energia para aqueles que, exemplificados neste post, não largam da zona de conforto e não querem reconfigurar a mente. Não é à toa que, vez ou outra, pintam alguns leitores extremo-xiitas, abominando as minhas palavras e julgando a minha pessoa com 200 adjetivos depreciativos. Porque “sem querer” eu remexi o esconderijo, e se o esconderijo guarda medos íntimos e profundos, eu estou literalmente cutucando o diabo. Mas dou graças a Deus pela maioria que presa o MVG, pois esses, talvez, tomem as minhas palavras para suas próprias procuras.

As vítimas da própria vida sempre buscarão culpados pelas dificuldades pessoais, seja quais forem.

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Erlon disse:

    Excelente postagem, abordando uma coisa que de fato, faz parte de todos nós, porém, não abordada especificamente em muitos locais na internet, a auto estima. Excelente, estou passando por um momento em que a leitura deste texto foi adequada e agradável.

  2. Neto silva disse:

    Bom, eu aprendi ( ou estou aprendendo) que pedir a chancela de um namoro para se ter paz de espírito é um equívoco. Sabe por quê? Bem, primeiro que quando estamos namorando e (pior) estamos apaixonados, ficamos fracos, inseguros e insuportavelmente ciumentos. Segundo que, paz de espirito é um termo muito forte, a coisa não é tão simples assim. Pra mim, paz de espírito somente depois da morte. Enquanto houver vida haverá dúvidas, contradições, inquietações, críticas. A vida é sofrimento e temos que entender isso como um processo positivo. So crescemos na dor. Só mudamos (pra melhor) no sofrimento. Isso não é uma opinião pessimista. Mas consigo viver um pouco melhor e com menos ansiedade e mais tranquilidade menos buscando paz de espirito e mais enfrentando a vida!!!

  3. Flávio disse:

    Nossa, Neto! Pior que faz bastante sentido, mas você não acha que possa exisitr um meio termo, um certo equilíbrio, Flávio, o que você acha? Pra fala a verdade, acredito que nem precisa está em um namoro pra saber o quanto podemos ser tóxicos com nós mesmos e com o outro, eu por exemplo que nunca namorei, e não vejo a menor perspectiva, arrisco dizer, para os próximos anos, já sinto isso na pele, e sei o quanto se mostrou prejudicial para a minha personalidade. Crises de ciumes, instabilidade emocional, discussões por bobagens e etc.

    Eu falo isso por que me vi recentemente, pois até então não queria assumir pra mim mesmo o que estava sentindo durante praticamente o ano inteiro, estamos cursando matemática, o clima é extremamente machista e preconceituoso, de repente, notei-me perdidamente apaixonado por um amigo da faculdade, nos conhecemos esse ano. Acredito que o clima de competitividade e cooperação, a necessidade de fazer alianças, me aproximou dele de uma maneira que me fez idealizá-lo demais, lembrando que somos apenas amigos, tudo não passou de uma paixão platônica de minha parte, gente tem coisa pior que aquela dúvida infernal: nossa, eu conto ou não conto, será que a amizade vai continuar a mesma coisa? Será que ele vai entender?

    O aprendizado disso tudo é que ter nutrido esse sentimento se mostrou demasiadamente tóxico para o meu rendimento em vários aspectos, talvez como Flávio falou, isso talvez esteja associado a algum trauma ou esse incessante desejo de preenchimento que almejamos que seja por alguém.

    Lendo esse texto do Flávio, foi como se estivesse lendo o roteiro do drama que deixei que minha vida se tornasse esses últimos meses. Baixa autoestima, autosabotagem, pessimismo, enfim, e sinto que não pode haver nada pior do que gostar de alguém, criar expetativas muitas vezes sem o menor fundamento lógico de que seremos de alguma forma correspondidos e “felizes para sempre”. Flávio, será que existe, realmente, final feliz?

    Um Abraço!

  4. minhavidagay disse:

    Oi Flávio!

    Lógica, emoção e intuição… da mesma forma que precisamos buscar um equilíbrio nos pilares do post seguinte (espiritualidade, físico, mente, intelecto e relação social), devemos encontrar um equilíbrio entre razão, emoção e intuição.

    Podemos ter finais felizes, finais tristes, meios felizes e tristes. Mas é desumano pensar apenas no final feliz. É utópico. Sonhar é bom, claro… ter algumas expectativas também. Mas viver mais tempo de sonhos e expectativas é fuga.

    A vida é uma motanha-russa e seria bom nos acostumar com essa ideia.

    Abraços!

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