Quero chegar lá


É muito comum entre gays, em relacionamentos afetivos, um tipo de competitividade que, hora é pautada em brigas, hora tomada como referência positiva. Por mais que muitos de nós tentemos nos desprender ou descolar das cobranças de “um homem num contexto normativo”, tais normatividades são pregadas em nossa cabeça desde a infância: crescer, estudar, trabalhar e ascender socialmente. Todos nós, meninos e homens gays, temos essas obrigações marteladas dentro da gente em maior ou menor grau. Sofremos uma pressão sobre isso ou nos cobramos mais ou menos também.

Um homem gay que por ventura busque um equilíbrio entre (1) espiritualidade, (2) físico, (3) mente, (4) intelecto e (5) relação social acaba como referência direta ou indireta, consciente ou inconsciente para a grande maioria das pessoas, independentemente se tal homem é realmente gay ou heterossexual. Muitas vezes, uma ascensão social vem como consequência do desenvolvimento e prática de alguns desses aspectos. Sob todas essas circunstâncias, ele não deixa de ser humano, detalhe que é bom lembrar.

As virtudes não se concentram no fato dele ser espiritualizado, de físico atraente, com uma mente esclarecida, de intelecto emancipado e atuante em seus círculos sociais. As virtudes estão, basicamente, na luta, quiçá disciplina ou condicionamento da própria mente para estabelecer o que ele considera uma boa média destes 5 pilares. Estamos falando de propósitos. Em outras palavras, nenhum indivíduo vem pronto nessa terra e, fatalmente, ele e os mais de 7 bilhões de humanos desse planeta terão mais ou menos condições ambientais e externas para chegarem em algum lugar diferente do que estão hoje.

Acontece que esse homem, que um dia foi menino e passou pelas mais diversas dúvidas sobre a própria homossexualidade, seu físico, sua capacidade mental e intelectual e a maneira que se colocaria em sociedade, viveu também conflitos internos, passou por enfrentamentos, críticas e cobranças – em maior ou menor grau – vindos do que a ele era externo (pais, irmãos, amigos, colegas de classe, do trabalho e etc.) e, hipoteticamente, entendeu que suas maiores respostas às dúvidas existenciais não vinham de fora, mas de dentro. Assim, na prática e na teoria, vivenciou inúmeras experiências, principalmente a partir do momento que – na adolescência – começou a contestar seus próprios pais. Típico.

Não foi daqueles filhos da Geração Y que, numa média geral e mundial, é tratado como “seres especiais” pelos pais e se formam como indivíduos cujas expectativas e achismos sobre o mundo lá fora são maiores do que a realidade nua e crua. Ele acreditava, sim, em seus potenciais mas não achava que a vida seria totalmente fácil. Haveriam obstáculos, haveria provação e, por consequência, um contato íntimo e constante com o sentimento de superação.

O fato é que passado algumas décadas de obstáculos e provações, ele se tornou um homem. O homem do começo do post que visa um conhecimento sobre espiritualidade, que cuida do seu físico com uma disciplina semanal, que busca desenvolver a mente ouvindo, falando e escrevendo a pessoas diferentes, adquiriu um senso crítico descolado da “osmose” de opiniões pré-concebidas e enlatadas de uma maioria e, não menos importante, desenvolveu e preservou relações sociais no âmbito do trabalho e na vida pessoal. Sua autoestima (assunto do post anterior) mantém uma média saudável na maioria do tempo, permitindo-se dar umas escorregadas também, o que é i-ne-vi-tá-vel.

Tal rapaz, quando se relaciona, idealiza menos. Aprendeu em seus relacionamentos que, quanto mais se enxerga o outro como ele é (e menos como se gostaria), mais fluida se torna a relação e menor é a chance das conversas, discussões e diferenças caírem na vala do desgaste, das cobranças e dos controles (enxergando de fato como o outro é, se reconhece defeitos e virtudes, o que se banca e o que não. Assim, temos mais consciência de “onde se está entrando” e começar um relacionamento não vira somente um salto de paraquedas).

No ato de se relacionar, a lucidez que vem adquirindo por meio das conquistas dos itens 1, 2, 3, 4 e 5, traz coisas boas e, pasmem, ruins também! Por exemplo: antigamente, o rapaz entrava facilmente nos joguetes de ciúme. Se o namoradinho dramatizava ou, em alguma medida o ameaçava ou o rejeitava por algum motivo, o protagonista do texto entrava no jogo. Corria atrás, buscava dar a exata atenção (seja por discussões, brigas ou conversas) que o namoradinho exigia (consciente ou inconscientemente). O medo era de perder e era o apego que já havia se estabelecido. No final dava tudo certo, mesmos aos trancos e barrancos, embora tais situações acrescentassem pontos para o desgaste que, cedo ou tarde, recairiam aos vícios da relação e ao rompimento. Naquele tempo, o carinha se permitia entrar nessas situações. Era natural e tinha muito a ver com a dependência emocional que se formava em relação ao namoradinho. A tal das duas metades da laranja, sabem? Ele achava que era isso e não existia outra maneira.

Acontece que hoje, o homem gay adquiriu uma emancipação emocional e intelectual que o faz lidar com situações semelhantes de outra forma. Como emocionalmente ele tem se bastado, aprendeu o quanto o pinga-pinga de joguetes como esse desgastam e brocham. Intelectualmente, ele aprendeu – por inúmeras vivências semelhantes no passado – que entrar em jogos emocionais e psicológicos são, no fundo, egoístas. É o exercício de um ímpeto de controle (material), da posse e nada tem a ver com a noção mais perene do amor. É mandatório.

Daí, a parte ruim é exatamente essa: se ele não joga mais, o namoradinho não tem as reações imaginadas e esperadas. O afastamento pode vir por outros motivos ou, está aí a chance do relacionamento afetivo transcender nos aspectos intelectuais, emocionais (e, quem sabe, espirituais). O protagonista simplesmente não consegue entrar mais no esquema, por mais que quisesse.

O quanto esses cinco pilares não influenciam nos diversos aspectos de uma relação? Totalmente.

O fato é que eu cheguei em algo parecido disso. É um tipo de estágio que não tem mais como voltar atrás, principalmente porque eu assumi há alguns anos o propósito de chegar exatamente nisso. Antes eu morria de medo da solidão. Achava que eu não fosse capaz de levar sozinho uma empresa. Mas, ao mesmo tempo, com 23 anos – quando iniciei a vida de empreendedor – pensava que eu dominaria o mundo em dois anos (rs). Quanto “otimismo”!

Vejam só: tinha medo de pegar meu carro e sair dirigindo por ruas e bairros que eu não conhecia; isso era apavorante! A primeira vez que entrei numa estrada sozinho para ir ao litoral eu praticamente pari (rs). Me achava feio, com corpo esquisito e, o pior de tudo, eu era japonês! Ou seja, fora dos padrões convencionais estéticos e fadado a ser “do pau pequeno, da cara amassada, tímido e filho do pasteleiro”. Morria de inveja de alguns amigos que ficavam com corpos lindos e sarados e eu, magrelo e “bicho-estranho”.

Fiquei de recuperação da 1a. série até a 7a. e era motivo de aflição para os meus pais, por correr o risco de repetência todo o santo ano! Exatas, do tipo matemática e física, sempre foram enormes dificuldades, decepção extrema para um pai que era engenheiro elétrico (e não tinha muita parcimônia para esfregar na minha cara, fazendo comparações com meu irmão, que era um estudante prodígio, de não precisar se afundar em livros para tirar notas altas. Ele só prestava atenção nas aulas e pronto).

Precisei, sim, de “bengalas” até que, bem aos poucos, fui reconhecendo minhas virtudes. Encontrei um primeiro fiozinho e fui desenrolando…

Acontece que as pessoas não estão por aí “perdendo tempo” pensando nessas coisas, mas algumas delas (com eu – rs) vem se desafiando a se conscientizar sobre tais valores e, basicamente, a se superar. Eu hoje, na maioria das vezes que um namoradinho entra numa necessidade dos jogos (agora triviais) de controle, do ego, sou praticamente um muro com uma placa escrito assim: “esforce-se para seguir um outro caminho. Daqui não passa”.

Não há crueldade, sacanagem e pena nenhuma nisso. Pelo contrário, como a minha terapeuta diz (seja a psicóloga ou a minha guia espiritual), muitas pessoas (no caso homens gays) querem isso para si. Alguns dos rapazes que eu me envolvi não lidaram muito bem, agindo com certa cobiça e projetando uma raiva por eu ter chegado nesse “cume”. Outros já me enxergavam como inspiração e, as vezes nem precisava falar muito e, eles próprios, me tinham como referência positiva para inspirar suas próprias jornadas. A diferença básica entre esses dois perfis de pessoas é que os primeiros ficam presos nos problemas (vítimas das próprias cobranças que a vida faz) e os segundos buscam superá-los. Os primeiros, se realizassem conscientemente, pensariam assim: “Ai, que raiva desse Flávio… tão difícil chegar a onde ele chegou. Acho que eu não consigo!” e os segundos falariam assim: “Quero também desenvolver a minha vida. Tem alguns toques para me dar?”.

Estou entregue a arte do encontro e quando conecto em alguém, que é o caso hoje, não é para ser qualquer coisa, embora tenha que ser leve e regido por tais pilares. A mim, “querer chegar lá” é um processo que não se acaba até mesmo depois da morte.

7 comentários Adicione o seu

  1. Wanderson Dias disse:

    Acabei de escrever um texto sobre o como não me encaixo, de repente abro o leitor do WordPress no celular e leio esse texto. Puxa vida a sincronicidade existe. Sinto-me totalmente inserido nesse contexto, meu mundo particular, onde me conheço, é infinitamente mais interessante que a mesmice daqui de fora. As pessoas são as mesmas, e estando numa relação estável percebo esses jogos e canso. Viajo para o fundo da mente, espiando de vez em quando, é só saio de lá quando percebo que o momento passou e não vai me fazer entrar numa DR sem fim! Obrigado pelo seu texto!!!

  2. Math disse:

    Oi tudo bem ? Bom eu tenho o mesmo propósito que você com meu blog. Será que você pode dar uma olhadinha ? acabei de fazer meu primeiro post. Tudo aqui é incrível adorei os temas abordados <3, http://myughgayliife.blogspot.com.br/

    1. minhavidagay disse:

      Bao sorte com seu Blog, Math! Quanto mais referências, melhor :)

  3. Andre disse:

    Nao sei bem o motivo, mas vi verdade e entrega nesse seu texto Flavio. Nao que nos outros eu deixe de evidenciar tais sentimentos, mas nesse teve algo a mais rs. Talvez porque eu me reconheca em alguns trechos, vai ver foi isso. ps. escutando i’ll be around (versao do Seal) veio bem a calhar. Abcs!

  4. Flávio disse:

    Flávio, seria até injusto não começar esse comentário externando minha gratidão: obrigado, obrigado por compartilhar suas experiências e reflexões!

    Seus textos são de uma clareza e de uma capacidade reflexiva transcendental mesmo. Esse em especial, senti como o André comentou, você realmente mais entregue, dá pra perceber isso, e é tão bacana que é como se a gente estivesse te ouvindo falar pessoalmente sobre essas cobranças que inevitavelmente a vida, a família, a sociedade nos impõem.

    Não que essa imposição seja negativa, pelo contrário, eu acredito que ela é essencialmente parte de nosso amadurecimento, tenho aprendido de forma muito mais racional acompanhando seus textos, pois nossa busca pelo equilíbrio entre espiritualidade, mente, intelecto, físico e nossas relações sociais, como você pontuou, seguem parâmetros relativos. Eu acho que se tivesse que resumir esse texto em uma palavra, a que me vem à cabeça é superação.

    São experiências, contextos familiares, sociais, culturais muito singulares ente si que convergem em processos e vivências parecidos, que aproximam, que nos fazem sentir empatia, identificação e até mesmo acolhimento, seus textos passam isso. Não há quem passe por essa fase autoaceitação e não se identifique quando fala do seu pai, e das paranoias juvenis se comparando com os outros o tempo todo e o medo dos esteriótipos.

    Ainda estou um pouco longe de encontrar o “equilíbrio”, e não pretendo desistir jamais, como você disse: “nenhum indivíduo vem pronto”, espero poder continuar contando com sua mentoria aqui pelo blog por muito tempo… Abraço!

    P.S.: “Quero também desenvolver a minha vida. Tem alguns toques para me dar?”.

    1. minhavidagay disse:

      Posso dar vários toques, Flávio!
      Qual seria o tema?

      Agradecido pelas menções. Nem sempre a gente acerta, mas é bom quando sentimos o resultado positivos de referências pessoais.

      Um abraço!

  5. Flávio disse:

    Flávio, comentei no post anterior, gostaria muito de ouvir sua opinião, por favor! Um abraço!

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