Vai virar passado


Todo os anos faço uma retrospectiva aqui no Minha Vida Gay. Chegamos em dezembro e estamos para dobrar a esquina e entrar em 2016. É inevitável dizer que 2015 foi palco de um baque para muita gente, uma maioria. A crise, palavrinha nefasta, está impactando a vida de todo mundo de alguma forma: uma perspectiva no trabalho que não virá, a demissão, os preços nos supermercados, alguma viagem que terá que ser postergada, mimos e agrados que não virão tão cedo e por aí vai.

Por mais que sejamos brasileiros, daqueles “sempre alegres e descontraídos”, as redes sociais – como principal meio de manifestação de opiniões – mostrou que o nosso povo e nós mesmos, independentemente da classe, tem uma faceta bastante conturbada, reativa e divergente. Preferimos debater no raso e não entrar em profundidade na causa. Como espelho genuino desse caos, nada mais legítimo do que a bagunça na política que anda regurgitando certas verdades que tem mexido com o ânimo e moral de muita gente.

Mas eu, depois de quatro meses de pura e genuina indignação, me sinto conformado. Me conformar não quer dizer que resolvi fazer aquela linha de deixar de me informar para não ter que sofrer, mas sim, manter um fluxo de informação já sabendo como me posicionar sem me abalar. E quando eu estava emputecido, eu tinha basicamente um alvo: nós, povo abestalhado, por vezes cego, manipulável e romântico. Eram esses adjetivos e outros mais na minha textual timeline.

Mas enfim, depois de 4 meses, me reposicionei. Já afrouxei o nó da ideia de ter que usar parte da grana que guardei por esses anos para segurar as pontas da minha empresa. Numa situação mais miserável, estou preparado para ter que trocar de carro – como já fiz na crise de 2008/2009 para fazer uma reserva extra – e tal gesto está sugerido em meu e-book. A dor de ter que enxugar a equipe já não dói tanto e a sensação de ter que assumir algumas tarefas que não executo há mais de três anos também não me frustra. Por 4 meses, a sensação de “regressão” estava consumindo parte de mim, eu diante de todos esses pontos e outros mais, quando se é dono de empresa. Eu sofri, durante 4 meses, das expectativas que criei para 2015 e, pasmem, EXPECTATIVAS, aquelas que eu falo tanto para tentarmos evitar quando o assunto é relacionamento (rs). As vezes quero ser robô, mas não largo a minha humanidade (rs).

Com o fim do meu “inferno mental”, muito focado no material, minha intuição tem sobressaltado novamente. Estou ativando um “que se foda”, diferente dos “que se fodas” inconsequentes de outros anos difíceis no passado. Mas se naqueles tempos eu tive sorte e até mesmo abusei dela em alguns momentos sem ser abandonado, dessa vez vou utiliza-la com educação (rs).

A minha vida gay segue praticamente impecável e acho (altamente) improvável alguma coisa possa me tirar do eixo quando o assunto é minha própria homossexualidade, a não ser que eu me de conta que – no fundo – seja hétero (RISOS). 15 anos assumido é um tempo que representa muitas práticas, buscas, desencontros e definições. Já faz tempo que estou encontrado perante meu pai, minha mãe, meu irmão, minha cunhada, meus amigos mais íntimos e amigos gays. A partir do Japinha, confesso que entrei em novas buscas e modelos para um relacionamento, terreno novo, desconhecido, mas inevitável para eu caminhar. Eis um tipo de mudança na vida que não tem como brigar contra, nem querer reviver algum formato que eu já vivi.

As palavras da ordem para mim, a partir de hoje e durante o percurso de 2016 é serenidade, resignação e resiliência. Poderia ser astúcia, altivez e potência! Elementos perfeitos para um ariano… mas vou ter que controlar meu fogo pois o cenário requer exatamente isso: serenidade, resignação e resiliência. Baixas expectativas e, a partir daí, o que vier acima é “lucro”.

Quero fechar o ano com chave-de-ouro e, apesar de ser de ouro, é mais singela e compacta pois a precaução não me permite cravejar de esmeraldas. Desde a minha última ida à sauna, desde que eu conheci o Rafa e desde que a instabilidade econômica (acrescida das mudanças na minha empresa) se estabeleceram, eu comecei a praticar de contenção.

O fato é que 2015 vai virar passado e, talvez, seja a primeira vez que eu queira esquecer um ano (em sã consciência). Sabe quando algumas pessoas colocam em suas respectivas timelines frases do tipo: “um ano para ser esquecido”, “ano novo, vem-ni-mim”, “já vai tarde” e etc.? Talvez seja a primeira vez que eu me rendo a essa vontade. Sempre odiei fazer desdém do cenário que me sustentou, mas dessa vez não.

Gostaria de desejar uma maior emancipação dos gays em meio a nossa sociedade para o ano de 2016. Sei que existe um ritmo, algo orgânico, que torna esse movimento real e inevitável. E não desmerecendo às problemáticas que envolvem o tema, não desmerecendo qualquer prática que vise os direitos daqueles grupos que entendemos como minoria, o país entrou numa condição – validada, abençoada e assinada por nós inclusive – cujas questões em destaque serão as mais basais e gerais: desemprego, aumento do preço das coisas, encolhimento. Bem ou mal as importâncias mudaram e mudarão.

Qual é a sua prioridade? Em 2016 aprenda a definir dessas coisas.

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