O despertar da força


Nessa semana tem a estreia de “Star Wars – O despertar da força”, prato cheio para nerds e geeks de plantão, gays ou não. Talvez a saga “Guerra nas Estrelas” seja a mais longeva da história da cinematografia. Gostando ou não, tal dado não tem como ser desconsiderado. O primeiro episódio – Star Wars: Uma nova esperança – foi lançado no ano em que eu nasci, 1977. Entre 1980 e 1981 meu pai me levou, junto com meu tio e meu primo, para assistirmos no antiquíssimo Cine Marabá na Avenida Ipiranga, centro velho de São Paulo. Eu tinha apenas 3 ou 4 anos e, a época, os filmes chegavam em território nacional com 2 ou 3 anos de atraso. Nos anos 90, George Lucas retomou a série, contando da vida de Anakin Skywalker, pai de Luke (protagonista da trilogia original). Jovens daquela época e cujos pais transferiram a referência, somados aos interessados da série inicial do começo do anos 80, perpetuaram a história, criando-se até mesmo uma cultura. E agora, 2015, com o início de mais uma saga, novos fãs se estabelecerão. São quase 40 anos e certamente o final da nova trilogia alcançará essa marca.

Tudo indica que o politicamente correto fará presença nesses novos episódios da saga. Se em 2014 o movimento gay, inclusivo, manifestado em novelas, em discursos de artistas e até mesmo em efeito na foto de perfil do Facebook, que se estabeleceu logo no começo desse ano, foi a grande bola da vez (da voz de uma minoria, no caso os gays), o movimento feminista representado no cinema (como em Mad Max e Jessica Jones, no Netflix) e negro, estarão nas entrelinhas ou com evidência em Star Wars. Os protagonistas da nova série serão uma mulher e um homem negro.

Acho tudo isso muito legal, embora, a exemplo de 2014, os temas voltados às minorias sejam tão intensamente explorados que – as vezes – acabam banalizados.

Muitos intelectuais da minha timeline acham essa coisa de Guerra nas Estrelas uma bagaceira, algo que já noto expresso de maneira um tanto azeda, enquanto eu e mais uns 20 já aplicaram o filtro de sabre de luz em suas respectivas fotos (rs). Mas o que é que não está na “moda atual” se não essa necessidade (incrível) do povo afirmar a contrariedade daquilo que não interessa? Na medida que Star Wars estreia no final dessa semana, a intolerância está cada vez mais definida.

Acontece que o Blog MVG sempre foi (a exceção de meia dúzia de posts nos quais expressei minhas falibilidades e eu me apresentava cheio de mi-mi-mis) um campo para o exercício do respeito à diversidade e a tolerância; reflexões saltando da caixinha sem afirmar verdades absolutas são uma constância. Se a sexualidade e as diferentes formas de se relacionar não invadem nem abusam das limitações e desejos do outro, por que não? São desses conceitos que o Minha Vida Gay floresceu e talvez seja por isso que eu, particularmente, esteja tão inconformado com a maneira que os brasileiros, no geral, estejam lidando com suas próprias questões: abusando dos limites e das escolhas dos outros.

O título “despertar da força” é bastante oportuno para quem é gay, ou melhor, para o ser humano. Vivemos um momento em que uma crença entre “o bem e o mal” tem se escarrado das telas do cinema para o colo dos telespectadores. E eu mesmo, por alguns meses, entrei nessa onda, buscando vilanizar “entidades” diante das minhas dores. Excesso de projeção.

“Se a gente não entende a aflição e a angústia que está por dentro, acabamos por buscar culpados dessas dores” – e essa frase poderia ser dita pelo Yoda, por exemplo. Darth Vader, de fato, foi fruto único de seus conflitos interiores. Anakin Skywalker foi possuído por sentimentos de raiva, rancor e ódio, colocando-se como uma das “vítimas” mais clichês e marcantes das próprias questões humanas. Vivia uma prisão criada por ele mesmo.

Não é a mesma coisa quando, muitas vezes, nos colocamos como reféns de nossa própria homossexualidade e assumimos um papel alheio aos nossos desejos por puro medo de como as pessoas (parentes, amigos e instituições) poderão nos julgar?

Vejo pelo Tché, exemplo típico de um menino de 20 anos (a época) e que fez de 2015 um ano de enormes transformações. Primeiro que teve a “sorte da fortuna” ao me conhecer e passou a ganhar o dobro do que ganhava em seu último emprego. Assim, estabelecemos na minha empresa uma divisão clara entre vida pessoal e profissional e, o que foi uma paquera de três encontros e bastante desejo sexual, foi dividido de maneira ética e moral para que ele não perdesse o emprego e nem um amigo (e vice-versa). Feito isso, em algumas de nossas idas aos clientes, enquanto ele ia no banco de passageiro, trocamos horas de conversa sobre o quanto ele era uma soma de comportamentos: reativo, medroso, reclamão e – claro – vítima de sua própria homossexualidade. O Tché que conheci em junho de 2015 estava fadado a viver a homossexualidade dentro do caixote. Seu lugar de entretenimento era o sofá de sua sala e, a sua mão, estava o celular, a pequena portinha para o “mundo das gay” pela qual ele poderia interagir (discretamente) com outros de sua “espécie” com os aplicativos tradicionais, sem ser notado. Escapava, de vez em quando, para aventuras sexuais reais. Foi assim que nos conhecemos. Sua mãe já sabia, mas mesmo assim, assumir para sua pequena família de mais de 30 integrantes, tradicionais, homofóbicos e etc. era algo inimaginável. Ele era um ser “digno” de reatividade, nervosismo e irritação se quando questionado: “porque você não começa a abrir o jogo?”.

Chegamos hoje em 15 de dezembro de 2015, as vésperas da estreia do filme. O Tché assumiu para alguns primos, para todos os amigos mais chegados, tem conhecido pontos badalados do meio gay e vai levar um amigo gay, junto com um grupo de amigos héteros, para a viagem de final de ano. Se houve provocações da minha parte? É claro. Mas trocaria o tom depreciativo das minhas ações por “estímulos”. Estímulos e um cenário mais seguro para que iniciasse.

Porém, acima de tudo, o Tché alcançou sua gota d’água ou, pelo menos, sentiu que um cenário mais propício se estabelecia em sua vida. Houve o despertar de sua força, ou melhor, o aceitar da sua própria identidade, sem mais se vitimizar e – literalmente – se fazer de coitado. O que um não quer, dois não fazem e, assim, ele teve meu apoio mas, ao mesmo tempo, resolveu assumir seus medos. Ele não enxergava a realidade, mas a maneira que sua mente acreditava que era.

Estaremos sim, na maior parte do tempo no lado negro da força (o que eu chamaria de sombra), quando nossos medos conduzirem a nossa vida, seja lá para qual direção.

“Se a gente não entende a aflição e a angústia que está por dentro, acabamos por buscar culpados dessas dores” – MVG.

O brasileiro, infelizmente, está muito assim. E os motivos são tantos, para além da sexualidade. Despertem. Sem luta não há conquista. E o principal confronto é o seu com você mesmo.

5 comentários Adicione o seu

  1. Igor disse:

    Intensíssimo texto, MVG! Não sou dos fãs mais ardorosos, mas acho a trilogia original bastante bonita, com seu inteiro universo construído em fantásticos moldes mitológicos! Cheguei cedo ao cinema para ver os cosplays e começar a entrar na “vibe”, coisa que deu muito certo! Quando começou o filme, eu estava inteiramente mergulhado na atmosfera, e aproveitei cada minuto, o que não é pra menos; o filme foi editado de uma forma que sempre tinha algo acontecendo. Ele nos MOSTRAVA coisas, ao invés de simplesmente explicar em diálogos expositivos (se tem uma coisa que odeio no cinema, é quando o diretor duvida da inteligência e da capacidade dedutiva do espectador). Sem contar que os protagonistas, e a interação entre eles, são muito legais. E o filme terminou com um ótimo cliffhanger, análogo ao do final de “O império contra-ataca”, que nos deixou com aquela ótima sensação para dois primeiros filmes de trilogia, de “Mostra mais, mostra mais!”.
    Conversando com amigos após o filme, percebi alguns pequenos problemas no filme. Um amigo muito fã da saga disse que achou um pouco forçada a incrível habilidade com que a Rey manejou o sabre de luz, e derrotou o Kylo Ren na luta, já que os filmes anteriores mostram que é preciso haver um treinamento para isso. Ele também achou que alguns diálogos entre o Han Solo e a General Leia foram um pouco antinaturais, diferentes dos diálogos que dois cônjuges que se conhecem há muito tempo teriam. Bom, racionalmente eu posso concordar, mas quando vi o filme, vesti minha capa de criança e me diverti muito na jornada, sem deixar que esses pequenos furos de roteiro (se é que o primeiro é mesmo; pode haver uma explicação mais detalhada para isso nos próximos filmes) afetassem minha experiência.
    Quanto ao “despertar da força” aplicado à situação da homossexualidade, concordo. Suas palavras foram muito agudas. Eu ainda não me assumi, mas tenho percebido que tenho um certo ódio acumulado com a humanidade, como se ela fosse culpada pela minha orientação sexual. Se eu mesmo já tive preconceito com homossexuais, mas fui forçado a conhecer melhor sobre o mundo quando me descobri! O caminho, de fato, é internalizar a lição do pai do Nick, dada logo no segundo parágrafo de “O grande Gatsby”: “Sempre que sentir vontade de criticar alguém, lembre-se de que nem todos tiveram as mesmas oportunidades que você teve”.
    E é isso! Como epílogo, posso dizer que desde antes do início da sessão, meus olhos foram capturados por um cara que parecia ter uns 45, 50 anos, de barba branca e longos cabelos, alto e esbelto, e muito bonitão, que conversava com amigos de sua faixa etária. Quando saí do filme, e depois de enfrentar a fila para pagar o cartão de estacionamento do shopping, me dirigi ao meu carro e qual não foi minha surpresa de ver que só havia eu e ele lá, no estacionamento! Senti vontade de lhe dirigir a palavra antes de ele entrar no carro, mas desisti. Após dar a volta no shopping para encontrar a saída, já que quase todas já estavam fechadas, acabei topando com ele de novo, em seu carro, saindo do shopping no mesmo instante em que eu. Fui seguindo-o enquanto nossos caminhos coincidiam, e quando se separaram, senti uma enorme vontade de seguir o carro dele. Sim, às três e meia da manhã, seguir um sujeito que eu não conhecia, mas que foi um relâmpago no meio da noite, e depois do qual veio novamente a escuridão! Claro que tudo isso ficou só no pensamento.
    Quando cheguei em casa, fiquei pensando: “Eu deveria ter abandonado minha racionalidade por alguns instantes e tê-lo seguido, mesmo sem saber se ele era homossexual? Por que não? Tenho sido excessivamente racional durante toda a minha vida, e quantas vezes fiz escolhas estritamente racionais e fui feliz? Por que tento forçar minha natureza numa frieza e seriedade absurdas, quando no fundo sou impulsivo e romântico?”.
    Ao menos me “consolei” ao pensar que minha situação foi semelhante à de Charles Baudelaire, em seu soneto “A uma passante”, que mostra uma paixão despertada por uma mulher aleatória que transitava na rua, e que o poeta talvez não veja nunca mais. Termino a mensagem com o poema, em tradução de Guilherme de Almeida:

    A uma passante

    A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
    Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
    Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
    Erguendo e balançando a barra alva da saia;

    Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
    Eu bebia, como um basbaque extravagante,
    No tempestuoso céu do seu olhar distante,
    A doçura que encanta e o prazer que assassina.

    Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
    De um olhar que me fez nascer segunda vez,
    Não mais te hei de rever senão na eternidade?

    Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
    Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
    Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

    1. minhavidagay disse:

      Apesar de alguns spoilers, publiquei seu comentário Igor!
      Mas confesso que não li inteiro, pois vou assistir o filme hoje! eheheh

  2. Igor disse:

    Ah, sim! Rs Foi mal, não consegui resistir em comentar com mais detalhes, estava empolgado! Mas e aí, o que você achou do filme?

    1. minhavidagay disse:

      Falando como fã, sem spoiler: JJ Abrams conseguiu transferir os elementos centrais da trilogia original, correndo o risco da repetição. Mas passou longe disso. Star Wars VII é saudoso mas é novo. Para quem achava que a Disney ia perder a mão, fique tranquilo! A saga deve se perpetuar por mais 40 anos, envolvendo novas gerações de fãs e fazendo valer a cultura que já tem quase 40. Destaque para a protagonista que manda muito bem!

  3. Igor disse:

    Isso mesmo! E sem spoiler: o filme consegue unir o novo e o velho de uma forma muito habilidosa. Pra mim, ele é análogo à trilogia original esteticamente, mas desenvolve de forma mais que satisfatória os novos personagens apresentados, caprichando na caracterização sentimental e nos dramas deles. E sim, a Rey é sensacional, mais “badass” que o Poe, que eu também adorei! O tema musical dela tem um ar de faroeste lindíssimo, e aparece mais robusto e orquestrado no final, quando ela está viajando pra encontrar o Luke (isso eu só percebi na segunda vez em que assisti hehehee).
    Enfim, o filme me deixou tão feliz e satisfeito que eu fiz aquele longo primeiro comentário e ainda incluí lamentações sentimentais/amorosas do término da noite. Rsrsrsrs

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