O radicalismo também racha


Qualquer que seja o movimento social, há sempre a tendência da vertente radical querer ter mais voz. Porque normalmente os extremistas não falam, mas “gritam”, não discutem, mas impõem e, assim, são forçadamente percebidos e, regra básica, alimentam os ânimos do outro extremo. É por esse motivo, por saber que o extremismo não me atrai em nada e por preferir um posicionamento que me traga balanço a maior parte do tempo, que eu sigo em carreira solo quando os assuntos tangem os direitos dos gays. Embora eu seja meio briguento e também penda para meus extremos em fases da minha vida, minha natureza é muito mais agregadora do que partidária. Como gay, não sou do tipo que preciso apontar o dedo na cara de um hipotético inimigo para exigir meus direitos, mas é com base na minha postura e conduta, aqui no Blog Minha Vida Gay e na vida fora dessa tela, que eu tenho estabelecido a minha identidade e respeito perante todos aqueles que faço questão de ter algum convívio e, normalmente, aberto.

É notório que, aqueles que tem buscado se informar e se inteirar dos diversos comentários da sociedade brasileira em relação a política e a economia nacionais, se impressionam com a tamanha intolerância, quando não a intransigência. E o grande palco dessas batalhas nacionais tem sido a timeline das redes sociais, por mais alienado que seja o nosso posicionamento. Curiosamente, dos meus “amigos do Facebook”, metade são “azuis” e metades são “vermelhos”. Consigo apontar com clareza aqueles que, pertencentes a esses dois grupos, se manifestam como xiitas calorosos e – sob qualquer ameaça ao representante que é de interesse – uma saraivada de verborragia é postada. Entramos exatamente naquele contexto das meias verdades, quando um lado tem a certeza absoluta do que está afirmando e o outro lado, como num paradoxo, tem a certeza absoluta do que, também, está dizendo. Qualquer um que se oponha a esses lados é tido como ignorante, idiota, entre outros adjetivos que desqualifiquem a postura.

Hoje eu vi um dos extremos bugar e não tive necessariamente prazer, mas a comprovação que esse sistema falha e é delicado. Nas minhas investidas de garoto propaganda, agenciado, tive a oportunidade de conhecer um rapaz que, além de ser ator, é músico. Detalhe que é gay e, coincidentemente, ficou um tempo com o Rafa há alguns meses atrás (rs). É muito amigo do Ney Matogrosso e fui em um de seus shows (com o Ney) numa época em que eu me aproximei de um grupo de amigos (igualmente gays – rs) mais “melodiosos”. Em suma, o cruzei algumas vezes na vida.

Ele, antes mesmos das eleições de 2014, se manifestava na timeline de uma maneira um tanto acalorada e posso estar equivocado, mas a maioria de suas colocações sempre me representou um sentido de “esquerdinha xiita”, da adoração incondicional ao partido que nem preciso soletrar. Quando o Impeachment da presidente teve seu prosseguimento, lá estava ele esbravejando os termos e conceitos desse lado da moeda: “Golpe!” enquanto, do outro lado da moeda, a palavra absoluta era “Impeachment!

Quem é xiita costuma conviver na maior parte do tempo com xiita pois existe uma “ideologia” que os aglutina; é um tipo de segurança andar ao lado daqueles que respiram os extremos, tamanha é a fragilidade de se posicionar assim. Foi aí que um de seus amigos – igualmente adorador do vermelho – esbravejou de forma tranquila e solidária (#sqn): “eu só não queimei meus discos dos Secos & Molhados porque são muito bons”. O rapaz tomou as dores do Ney e caiu numa grande contradição no discurso: quando a gente é muito rígido, radical e construímos essa imagem pautada nos valores de um extremo, uma discrepância como essa chega a ser chocante e o indivíduo não consegue se posicionar.

Quem disse que a gente não pode ser amigo de pessoas cuja ideologia são contrárias a nossa? Não para o xiita que, sobre pressão de um outro colega xiita, teve sua saia justa. Bugou.

Fui atrás de algumas leituras e vídeos no Youtube, atuais, nos quais o Ney Matogrosso opinou sobre política. De fato, ele se mostra favorável ao Impeachment e à devassa de tudo que se configura hoje o Congresso Nacional.

No final, ser radical é um tanto complicado e temos um pouco disso dentro da gente, quando ódios e raivas se manifestam pelos mais diversos motivos. Extremismo é medo e apego. O rapaz mesmo, que criticou tantas e tantas vezes a Globo na época das eleições, foi o primeiro a postar alguma coisa dessa mesma emissora, quando ele teve alguma oportunidade de divulgação de sua peça de teatro. Interessante, não, como a conveniência se faz?

Defender o Ney, nesse contexto, é uma postura política, embora confusa. Política para, quase que despercebido, proteger a todo custo sua própria imagem. O Ney o ajudou muito em sua carreira, mas tem se mostrado avesso ao governo atual e, por consequência, divergente aos pensamentos do rapaz, diferente daquilo que está construído em sua imagem. Seu amigo da esquerda radical, na timeline, fez igualmente críticas radicais sobre o artista e, diante desse bo-lo-lô, o menino se perdeu.

Ser radical, embora seja uma realidade social no sentido de que existem pessoas que se posicionam assim, é uma armadilha sufocante. É uma posição dura, cega e frágil. Se um dia você ouvir de um amigo querido ou de algum familiar que você está radicalizando, respire e pense duas vezes porque, provavelmente, você está se equivocando. Nossos extremos são legítimos pois somos humanos, mas não deveria mais estarem impregnados na cultura de grupos. Precisamos de mais balanço, pautados no equilíbrio emocional e racional, numa busca de espiritualidade e autoconhecimento. Extremista nenhum pensa em igualdade e inclusão. Extremismo é a pura manifestação de pessoas querendo ocupar um papel de opressores, de se agarrar a convicções a todo custo e impor, mesmo com agressões morais e físicas, apenas meias verdades. O extremismo é incapaz de abarcar a humanidade em sua totalidade, que é genuína.

Tal assunto é muito pertinente num Blog intitulado “Minha Vida Gay”. Em níveis diferentes, estamos todos num mesmo barco, numa tentativa de encontrar igualdade nesse mar de tantas polaridades. “Nós somos a maneira que enxergamos o mundo” e essa minha frase renasce neste contexto.

1 comentário Adicione o seu

  1. Igsc disse:

    Que bom que você ainda posta, encontrei o seu site hoje e comecei pelos posts de 2011 com medo de você ter parado por ali.. UFFA… hehuehu

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